




O Enigma das Cartas Annimas

Agatha Christie

Traduo
Arminda Pereira





CAPTULO UM

        Quando finalmente me tiraram o gesso, e os mdicos me viraram do avesso  vontade, e as 
enfermeiras me persuadiram a usar os membros com prudncia, e eu me senti nauseado por elas falarem 
comigo praticamente como se fala com um beb, Marcus Kent disse-me que eu devia ir viver para o campo.
Bom ar, uma vida calma, nada para fazer:  o que lhe receito. A sua irm vai cuidar se si. Coma, durma e 
tente imitar o mais possvel o reino vegetal.
        No lhe perguntei se alguma vez poderia voltar a voar. H perguntas que no se fazem com medo 
das respostas. Foi por essa razo que nos ltimos cinco meses nunca perguntei se estava condenado a 
passar toda a minha vida deitado de costas. Temia uma resposta tranqudizadora e hipcrita da enfermeira-
chefe: ~(Ora, ora, que pergunta! No permitimos que os nossos pacientes falem dessa maneira!>~.
        Por isso, no perguntei - e correu tudo bem. No ia ser um invlido desamparado. Podia mexer as 
pernas, firmar-me nelas e finalmente dar alguns passos - e se me sentia um pouco como um beb 
aventureiro a aprender a andar, com joelhos vacilantes e solas de algodo em rama nos ps... bem, isso 
era apenas fraqueza e falta de uso e acabaria por passar.
        Marcus Kent, que  um mdico muito honesto, respondeu  pergunta que eu no fizera.
        - Vai recuperar completamente - disse ele. - Tivemos dvidas at tera-feira passada, quando o 
examinmos a ltima vez, mas agora posso afirmar-lho peremptoriamente. Porm... vai ser um trabalho 
longo. Um trabalho longo e, se me permite, fastidioso. Quando se trata de curar os nervos e-os msculos, o 
crebro tem de ajudar o corpo. Qualquer impaciencia, qualquer inquietao o far regredir. E, faa o que 
fizer, nokse

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obstine em melhorar depressa>>. Qualquer coisa desse gnero, e dar consigo de novo numa casa de 
sade. Tem de levar a vida lenta e brandamente, a marcao do tempo  Legato. No  s o seu corpo que 
tem de recuperar; os seus nervos tambm esto debilitados porque tivemos de o manter sob medicao 
durante muito tempo.
        ( por isso que lhe digo: v para o campo, alugue uma casa, interesse-se pela poltica e pelos 
escndalos locais, pelos mexericos da aldeia. Interesse-se indiscreta e apaixonadamente pel os seus 
vizinhos. Se me permite uma sugesto, v para uma parte do mundo onde no tenha amigos espalhados 
pelas imediaes.
        Acenei que sim com a cabea. - j tinha pensado nisso - disse eu.
        No me ocorria nada mais insuportvel do que membros do nosso prprio grupo a aparecerem 
inesperadamente, cheios de comiserao e de problemas particulares.
        *(Jerry, ests com ptimo aspecto... no est? Absolutamente. Querido, tenho de te c)ntar... Que 
achas que o Buster fez agora?>~
        No, isso no era para mim. Os ces  que sabem. Arrastam-se para um canto sossegado para 
lamberem as feridas e s voltam ajuntar-se ao mundo quando esto recuperados.
        E foi assim que a joanna e eu, ao ordenarmos ao acaso os elogios acalorados dos agentes 
imobilirios a propriedades espalhadas pelas Ilhas Britnicas, escolhemos Little Furze, em Lymstock, 
como uma das 4,possveis)~ a ser vista, principalmente porque nunca tnhamos estado em Lymstock e no 
conhecamos ningum nessa zona.
        E quando a joanna viu Little Furze decidiu logo que era exactamente aquela a casa que queramos.
        Ficava a oitocentos metros dos limites de Lymstock na estrada que levava s charnecas. Era uma 
casa branca, baixa e simples, com uma varanda vitoriana inclinada, pintada de verde desbotado. Tinha uma 
vista agradvel sobre uma encosta de terra coberta de urze, com a ponta da torre da igreja de Lymstock em 
baixo,  esquerda.
        Pertencera a uma famlia de senhoras solteiras, as Misses Barton, das quais s restava uma, a 
mais nova, Miss Emily.
        Miss Emily Barton era uma velhinha encantadora que se assemelhava incrivelmente  casa. Numa 
voz afvel e apologtica explicou  Joanna que

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nunca tinha alugado a casa antes, na verdade, nunca pensara em tal coisa, #mas est a ver, minha 
querida, actualmente, as coisas so diferentes - os impostos, claro, e depois os meus valores de bolsa, 
que sempre imaginei to seguros, e de facto, foi o gerente do banco empessoa que recomendou alguns, 
parece que hoje em dia no rendem absolutamente nada.. estrangeiros, claro! E isso torna tudo muito 
difwil. Uma pessoa no gosta (tenho a certeza de que me compreende, minha querida, e que no vai 
ofender-se, parece to amvel) da ideia de alugar a casa prpria a desconhecidos... mas tenho de fazer 
alguma coisa e, na verdade, agora que a vi vou ficar bastante satisfeita por pensar em si aqui... sabe, a 
casa precisa dejuventude. E confesso que at me arrepiei, com a ideia de ter aqui homens!>>.
        Neste ponto, a joanna teve de lhe dar a notcia da minha existncia. Miss Emily recuperou bem do 
choque.
        - Oh, meu Deus! Sim, estou a ver. Que pena! Um acidente de aviao? So to corajosos estes 
jovens! Por outro lado, o seu irmo vai estar praticamente invlido...
        A ideia pareceu acalmar a amvel senhora. Presumivelmente, eu no iria entregar-me s grosseiras 
actividades masculinas que Emily Barton temia. Perguntou timidamente se eu fumava.

salientou.

        - Como uma chamin - disse a joanna. - Mas eu tambm fumo -

        - Claro, claro. Que estupidez a minha! Sabe, receio no ter avanado com os tempos. As minhas 
irms eram todas mais velhas do que eu, e a minha querida me viveu at aos noventa e sete anos - 
imagine! - e era muito exigente. Sim, sim, hoje em dia, toda a gente fuma. 0 nico problema  que no h 
cinzeiros na casa.
        A joanna disse-lhe que traramos muitos cinzeiros, e acrescentou com um sorriso: - Prometo-lhe 
que no vamos pousar pontas de cigarro em cima dos seus lindos mveis. Nada me irrita mais do que ver 
as pessoas a fazerem isso.
        Assim, ficou resolvido que alugaramos Little Furze por um perodo de seis meses, com uma opo 
de mais trs, e Emily Barton explicou  joanna que ela prpria ficaria muito confortvel, porque ia para 
aposentos mantidos por uma-velha criada de sala, 4~a minha fiel Florence>~, que se casara x~depois de 
estar quinze anos connosco. Uma rapariga muito simptica, e o marido

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est no ramo da construo civil. Tm uma boa casa na High Street e dois belos quartos no andar de cima, 
onde ficarei muito confortvel, e a Florence est muito satisfeita por me ir ter l>~.
        Por conseguinte, tudo parecia muito satisfatrio, o contrato foi assinado e, na altura devida, a 
joanna e eu chegmos e instalmo-nos, e como a Partridge, a criada de Miss Emily Barton, concordara em 
ficar, fomos muito bem tratados com a ajuda de uma ~(rapariga>> que vinha todas as manhs e que 
parecia ser meia-pateta, mas amvel.
        A Partridge, uma mulher de meia-idade, magra e austera, cozinhava admiravelmente, e embora 
discordasse de jantares tardios (Miss Barton costumava comer apenas um ovo cozido ao jantar), adaptou-
se aos nossos hbitos e chegou mesmo ao ponto de admitir que bem via que eu precisava de retemperar 
as foras.
        Quando j estvamos instalados em Little Furze havia uma semana, Miss Emily Barton apareceu e 
deixou o seu carto-de-visita. 0 seu exemplo foi seguido por Mrs. Symmington, a mulher do advogado, Miss 
Griffith, a irm do mdico, Mrs. Dane Calthrop, a mulher do vigrio, e Mr. Pye, de Pryor's End.
        A joanna ficou muito impressionada.
        - No sabia - disse ela numa voz horrorizada - que as pessoasfaziam mesmo visitas... com 
cartes.

        - Isso, minha menina,  porque no sabes nada sobre o campo - disse

eu.

        - Que disparate! Passei montes de fins-de-semana com pessoas.
        - Isso no  de forma nenhuma a mesma coisa - disse eu.

        Sou cinco anos mais velho do que a Joanna. Lembro-me da casa branca, grande e em mau estado, 
que tnhamos quando eu era mido, com os campos que se estendiam at ao rio. Lembro-me de rastejar 
debaixo das redes de framboeseiras sem ser visto pelo jardineiro, e do cheiro do p branco no ptio dos 
estbulos, e de um gato cor-de-laranja a atravess-lo, e do rudo de cascos de cavalos aos coices nos 
estbulos.
        Mas quando eu tinha sete anos e ajoanna dois, fomos viver para Londres com uma tia, e depois 
disso as nossas frias de Natal e de Pscoa eram passadas l, com pantomimas e teatros e cinemas e 
excurses aos

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Kensington Gardens com barcos e, mais tarde, a rinques de patinagem. Em Agosto levavam-nos para um 
hotel, algures no litoral.
        Ao reflectir sobre isto, e com um sentimento de pesar ao tomar consciencia do invlido egosta e 
egocntrico em que me transformara, disse pensativamente  joanna:
        - Receio que isto v ser bastante desagradvel para ti. Vais sentir tanto a falta de tudo!
        Porque a joanna  muito bonita, e muito alegre, e gosta de danar, e de cocktails, e de aventuras 
amorosas, e de correr de um lado para o outro em carros de grande potncia.
        A joanna riu-se e disse que no se importava nada.
        - Na realidade, estou contente por me afastar de tudo. Estava farta daquela gente toda, e embora 
no estejas solidrio comigo, fiquei muito magoada por causa do Paul. Vou levar muito tempo para me 
recompor
        Quanto a isso, eu tinha as minhas dvidas. Os casos amorosos dajoanna desenrolam-se sempre 
da mesma forma. Apaixona-se loucamente por um jovem completamente mole, que  um gnio 
incompreendido. Escuta atentamente as suas queixas interminveis e trabalha a bom trabalhar para 
conseguir que ele seja reconhecido. Depois, quando ele  ingrato, fica profundamente magoada e diz que 
tem o corao despedaado... at aparecer o jovem melanclico seguinte, o que em geral acontece cerca 
de trs semanas depois!
        Por isso no levei muito a srio o corao partido dajoanna. Mas via que, para a minha atraente 
irm, viver no campo era como um novo jogo.
        - Em todo o caso - disse ela -, estou bem, no estou?
        Estudei criticamente a minha irm e no pude concordar.
        Ajoanna estava vestida (por Mirotin) para le Sport. Isto , vestia uma saia coleante, de xadrez 
extravagante e disparatado. E na parte de cima trazia uma ridcula e pequena camisola de manga curta 
com um efeito tirols. Tinha meias de seda muito fina e uns sapatos irrepreensveis, novinhos em folha.
        No - disse eu -, ests toda mal. Devias estar com uma velha saia de tweed, de preferncia em 
verde inspido ou castanho desbotado. Devias usar uma bonita camisola de caxemira a condizer e talvez 
um casaco de malha, e devias pr um chapu de feltro, meias grossas e sapatos velhos.

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Nessa altura, e s nessa altura, passarias despercebida na High Street de Lymstock e no sobressarias 
como acontece presentemente. A tua cara tambm est mal - acrescentei.
- Que mal tem? Pus a minha maquilhagem Bronzeado Campestre w, 2.
        - Exactamente - disse eu. - Se vivesses em Lymstock, s terias posto um pouco de p-de-arroz 
para tirar o brilho do nariz e talvez um soupon de batom, no muito bem aplicado, e quase de certeza que 
terias as sobrancelhas inteiras, em vez de apenas um quarto.
        A joanna deu um gritinho gutural e pareceu muito divertida.
        - Achas que vo pensar que eu sou horrvel? - disse ela.
        - No - disse eu. - S excntrica.
        A joanna tinha recomeado a estudar os cartes deixados pelas visitas. S a mulher do vigrio 
tinha tido a sorte, ou talvez a pouca sorte, de apanhar a joanna em casa.
        A joanna murmurou:
        -  um tanto como o jogo das Famlias Felizes, no ? Mrs. Legal, a mulher do advogado, Miss 
Dose, a filha do mdico, etc. - Acrescentou com entusiasmo: - Acho que esta  realmente uma terra 
agradvel, Jerryf. To amvel, e cmica, e  moda antiga. No conseguimos pensar em nada de 
desagradvel a acontecer aqui, pois no?
        E apesar de saber que o que ela estava a dizer era um disparate, concordei com ela. Num lugar 
como Lymstock, no podia acontecer nada de desagradvel.  estranho pensar que recebemos a primeira 
carta apenas uma semana depois.

        II

        Estou a ver que comecei mal. No fiz qualquer descrio de Lymstock e sem se perceber como  
Lymstock  impossvel compreender a minha histria.
        Para comear, Lymstock tem as suas razes no passado. Por altura da Conquista Normanda era 
um lugar de importncia. Uma importncia principalmente eclesistica. Lymstock tinha um priorado e teve 
uma longa sucesso de ambiciosos e poderosos priores. Os lordes e os bares da regio

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rural circundante punham-se a bem com o Cu, deixando algumas das suas terras ao priorado. 0 Priorado 
de Lymstock tornou-se rico e influente e, durante muitos sculos, foi um poder na regio. Contudo, na 
devida altura, Henrique VIII obrigou-o a partilhar do destino dos seus contemporneos. A partir da, um 
castelo dominava o burgo. Ainda era importante. Tinha direitos, privilgios e riqueza.
        E depois, algures em mil setecentos e qualquer coisa, a mar de progresso arrastou Lymstock 
para o remanso. 0 castelo desmoronou-se. Nem o caminho-de-ferro, nem as estradas principais chegaram 
perto de Lymstock. Transformou-se numa pequena cidade mercantil provinciana, insignificante e esquecida, 
com uma extenso de charneca elevando-se por trs dela, e quintas e campos plcidos a rode-la.
        Uma vez por semana realizava-se l uma feira e, nesse dia, podia encontrar-se gado nas veredas e 
nas estradas. Duas vezes por ano havia uma pequena corrida, onde s se apresentavam os cavalos menos 
conhecidos. Tinha uma High Street encantadora, com casas nobres recuadas, que pareciam ligeiramente 
incongruentes com as janelas do rs-do-cho a exibirem pezinhos de leite, legumes ou fruta. Tinha uma 
grande loja de fazendas e miudezas isolada, uma pomposa loja de ferragens, uma estao dos correios 
pretensiosa, e uma fila de lojas indeterminadas dispersas, dois talhos rivais e uma sucursal da Intemational 
Siores. Tinha um mdico, uma firma de solicitadores, Messrs. Galbraitk Galbraith & Symmington, uma 
igreja datada de 1420, bonita e inesperadamente grande, com algumas runas saxnicas incorporadas, uma 
medonha escola moderna e dois bares.
        Era assim Lymstock, instadas por Emily Barton, todas as pessoas importantes vieram visitar-nos 
e, na devida altura, depois de ter comprado um par de luvas e de ter posto uma boina de veludo bastante 
gasta pelo uso, a joanna saiu para retribuir as visitas.
        Para ns, era tudo novidade e diverso. No estvamos ali para toda a vida. Para ns, era um 
interldio. Preparei-me para seguir as instrues do meu medico e interessar-me pelos meus vizinhos.
        Eu e a joanna achvamos tudo muito divertido.
        Lembrava-me, suponho, das instrues de Marcus Kent para me deleitar com os ~escndalos 
locais. Claro que eu no suspeitava da forma como iria tomar conhecimento desses escndalos.

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        0 mais estranho foi que a carta, quando chegou, nos divertiu mais do que qualquer outra coisa.
        Lembro-me de que chegou ao pequeno-almoo. Virei-a ociosamente, como se faz quando o tempo 
passa lentamente e cada acontecimento tem de ser prolongado ao mximo. Vi que era uma carta local 
com a morada dactilografada.
        Abri-a antes das outras duas com carimbos de Londres, j que uma delas era uma conta, e a outra 
de um primo muito maador.
        L dentro, palavras e letras recortadas e coladas numa folha de papel. Durante um minuto ou dois 
olhei para as palavras sem as perceber. Depois respirei com dificuldade.
        A Joanna, que franzia o sobrolho enquanto via umas contas, ergueu o olhar.
        - Ol - disse ela -, que foi? Pareces espantado.
        Usando termos dos mais grosseiros, a carta exprimia a opinio do autor de que eu e a joanna no 
ramos irmos.
        -  uma carta annima particularmente obscena - disse eu.
        Ainda estava em estado de choque. Por qualquer razo, uma pessoa no esperava esse tipo de 
coisa no plcido remanso de Lymstock
        A Joanna mostrou logo um vivo interesse.
        - No! 0 que diz?
        Reparei que, nos romances, as cartas annimas de tipo infame e repugnante nunca so 
mostradas, se possvel, s mulheres. D-se a entender que as mulheres devem ser protegidas a todo o 
custo do choque que elas produziriam nos seus delicados sistemas nervosos.
        Lamento dizer que nunca me ocorreu no mostrar a carta  joanna. Entreguei-lha imediatamente.
        Ela justificou a minha crena na sua firmeza de esprito, no traindo qualquer outra emoo alm 
de divertimento.
        - Que coisa nojenta! Sempre ouvi falar de cartas annimas, mas nunca tinha visto nenhuma. So 
sempre assim?
        - No sei dizer-te - disse eu. - Tambm  a minha primeira experincia.
        A Joanna comeou a dar risadinhas.

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        - Devias ter razo quanto  minha maquilhagem, Jerry. Acho que pensam que eu no devo passar 
de uma mulher devassa.
        - Isso - disse eu - aliado ao facto de o nosso pai ser um homem alto, moreno, de rosto chupado, e 
a nossa me uma criaturinha de cabelo claro e olhos azuis, e de eu me parecer com ele e tu com ela.
        A joanna anuiu pensativamente.

        - Sim, no somos nada parecidos. Ningum nos tomaria por irmo e

irm.

        - H algum que no toma - disse eu com emoo.

        A joanna disse que achava tudo horrivelmente cmico.
        Balouou a carta pensativamente por uma ponta e perguntou o que amos fazer com ela.
        - Creio que o procedimento correcto - disse eu -  deit-la  lareira com uma viva exclamao de 
nojo.
        Pus em prtica o que disse, e a joanna aplaudiu.
        - Fizeste isso lindamente - acrescentou ela. - Devias ter sido actor uma sorte ainda haver lareiras, 
no ?
        - 0 cesto dos papis seria muito menos dramtico - concordei. Claro que eu podia ter-lhe pegado 
fogo com um fsforo e ter ficado vagarosamente a v-Ia arder... ou a v-Ia arder vagarosamente.
        - As coisas nunca ardem quando ns queremos - disse a joanna. Apagam-se. Provavelmente ias 
ter de acender fsforo atrs de fsforo.
        Levantou-se e foi at  janela. Depois virou a cabea bruscamente.
        - Gostava de saber quem a escreveu - disse ela.
        - Provavelmente nunca saberemos - disse eu.
        - No, suponho que no. - Ficou calada um momento e depois disse: - Pensando bem, no tem 
graa nenhuma. Sabes, eu achava que eles... que eles gostavam de ns.

sanidade.

- E gostam - disse eu. - Isto  s um crebro tresloucado no limite da

        - Suponho que sim. Ui! Que desagradvel!

        Quando ela saiu para a luz do sol, e enquanto fumava o meu cigarro ps pequeno-almoo, pensei 
para comigo que ela tinha razo. Era bastante desagradve~ Algum estava ressentido com a nossa vinda 
para c, algum se ressentia da beleza viva, jovem e sofisticada da joanna... algum queria

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magoar. Reagir a isto com uma gargalhada talvez fosse a melhor maneira, mas l no fundo no tinha graa 
nenhuma...
        0 Dr Griffith veio naquela manh. Tnhamos combinado ele examinar-me todas as semanas. 
Gostava de Owen Griffith. Era moreno, desajeitado, com uma estranha forma de se mexer e umas mos 
hbeis muito leves. Tinha uma maneira sacudida de falar e era muito tmido.
        Anunciou-me que os progressos eram,encorajadores. Depois, acrescentou:
        - Sente-se bem, no sente?  imaginao minha, ou est um pouco abatido esta manh?
        - No exactamente - disse eu. - Chegou uma carta annima particularmente grosseira com o caf 
da manh, e fiquei com um travo desagradvel na boca.
        Ele deixou cair a maleta ao cho. 0 seu rosto magro e moreno estava excitado.
        - Quer dizer que tambm recebeu uma?
        Fiquei interessado.
        - Nesse caso, andam a circular por a?
        - Sim. j h algum tempo.
        - Oh! - disse eu - estou a ver Estava com a impresso de que se ressentiam da nossa presena 
aqui como forasteiros.
        - No, no tem nada a ver com isso.  s... - Fez uma pausa e depois perguntou: - Que dizia? 
Pelo menos... - corou, subitamente embaraado - talvez no devesse perguntar.
        - Conto-lhe com prazer - disse eu. - S dizia que a pega de luxo que eu trouxe para c comigo no 
 minha irm, longe disso! E esta, digamos,  uma verso censurada.
        0 seu rosto moreno corou colericamente.
        - Que abominvel! A sua irm no... no est transtornada, espero?
        - A Joanna - disse eu - parece-se um pouco com o anjo no topo da rvore de Natal, mas  
eminentemente moderna e muito forte. Achou o caso muito divertido. Nunca lhe tinha acontecido uma coisa 
destas.
        - Espero que no - disse Griffith vivamente.
        - E seja como for - disse eu com firmeza -,  a melhor maneira de levar isto, penso eu. Como uma 
coisa absolutamente ridcula.

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- Sim - disse Owen Griffith. - Simplesmente...
- De acordo - disse eu. - Simplesmente  a palavra!
        - 0 problema - disse ele -  que este gnero de coisa quando comea, aumenta.
        - Imagino que sim.
        -  patolgico, evidentemente.
        Acenei que sim com a cabea. - Tem alguma ideia de quem est por trs disto? - perguntei.
        - No, quem me dera ter Bem v, a praga das cartas annimas tem origem numa de duas causas. 
Ou  particular, dirigida a uma pessoa ou grupo de pessoas em especial, quer dizer, nwtivada,  algum 
que tem um ressentimento especfico (ou pensa que tem) e que escolhe um modo particidarmente 
desagradvel e dissimulado para descarregar. E uma coisa mesquinha e repugnante, mas no 
necessariamente louca e, em geral,  bastante fcil seguir a pista do autor: uma criada despedida, uma 
mulher ciumenta, etc. Mas se  geral, e no particular, ento o caso  mais grave. As cartas so enviadas 
indiscriminadamente e servem para o autor se livrar de alguma frustrao. Como digo,  nitidamente 
patolgica. E a mania aumenta. No fim, claro, apanhamos a pessoa em questo:  muitas vezes algum 
extremamente improvvel, e pronto. Houve um surto do gnero no outro lado do condado no ano passado; 
descobriu-se que fora a chefe da seco de chapus de senhora de um grande armazm. Uma mulher 
calma e distinta... estava l h anos. Lembro-me de uma coisa semelhante quando exerci clnica no norte, 
antes de vir para c... mas acabou por ser despeito puramente pessoal. Como digo, j assisti a qualquer 
coisa deste gnero, e, com toda a franqueza, isto assusta-me!
        - j dura h muito tempo? - perguntei.
        - No me parece.  difcil dizer, claro, porque as pessoas que recebem estas cartas"no andam 
por a a anunciar o facto. Deitam-nas  lareira.
        Fez uma pausa.
        Eu prprio recebi uma. 0 Symmington, o solicitador, recebeu uma. E um ou dois dos meus doentes 
mais pobres falaram-me delas.
- Todas mais ou menos do mesmo gnero?
        - Sim. Uma insistncia maadora no tema do sexo.  sempre uma caracterstica importante. - 
Sorriu ironicamente. - 0 Symmington foi

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acusado de relaes ilcitas com a amanuense, a pobre Miss Ginch, que tem pelo menos quarenta anos, 
lunetas e dentes de coelho. 0 Symmington levou logo a dele  Polcia. As minhas cartas acusavam-me de 
violar o decoro profissional com as minhas doentes, salientando os pormenores. So todas muito infantis e 
absurdas, mas terrivelmente venenosas. - 0 seu rosto alterou-se, tornou-se srio. - Mas apesar disso, tenho 
medo. Estas coisas podem ser perigosas, sabe?
- Suponho que sim.

        - Veja bem - disse ele -, embora se trate de um rancor imaturo e infantil, mais cedo ou mais tarde 
uma destas cartas vai acertar no alvo. E nessa altura, sabe Deus o que pode acontecer! Tambm tenho 
medo do efeito delas nas mentes estpidas, desconfiadas e ignorantes. Ao verem uma coisa escrita, 
acreditam que  verdade. Podem surgir todo o tipo de complicaes.
        - Era um tipo de carta iletrada - disse eu pensativamente -, diria que foi escrita por uma pessoa 
quase analfabeta.
        - Era? - disse o Owen, e foi-se embora.
        Ao reflectir nisso depois, achei aquele ~(Era?>~ muito perturbador

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'i

CAPfTuLo Dois

        No vou fingir que a chegada da nossa carta annima no deixou um travo desagradvel na boca. 
Deixou. Ao mesmo tempo, depressa me esqueci dela. Naquela altura no a levei a srio, percebem? Acho 
que me lembro de dizer para comigo que, provavelmente, estas coisas acontecem com bastante frequncia 
em aldeias remotas. Por trs disso, devia estar uma mulher histrica com propenso para dramatizar. Seja 
como for, se as cartas eram todas to infantis e tolas como a que ns recebramos, no podiam fazer 
muito mal.
        0 incidente seguinte, se assim lhe posso chamar, ocorreu cerca de uma semana mais tarde, 
quando a Partridge, de lbios bem cerrados, me informou que a Beatrice, a mulher a dias, no viria nesse 
dia.
        - Parece-me, sir - disse a Partridge -, que a rapariga est Indisposta.
        Eu no tinha bem a certeza do que  que a Partridge estava a insinuar, mas diagnostiquei 
(erradamente) uma indisposio de estmago demasiado embaraosa para a Prtridge aludir a ela mais 
directamente. Disse que lamentava e que esperava que ela melhorasse depressa.
        - A rapariga est de perfeita sade, sir - disse a Partridge. - Est Indisposta nos Sentimentos.
        - Ah! - disse eu ambiguamente.
        - Por causa de uma carta que recebeu - continuou a Partridge. - Pelo que percebi, a fazer 
Insinuaes.
        A severidade do olhar da Partridge, aliado ao bvio 1 maisculo das Insinuaes, fez-me recear que 
as ditas estivessem relacionadas comigo. Uma vez que mal reconheceria a Beatrice se a encontrasse na 
povoao, to alheio estava  sua pessoa, senti uma contrariedade perfeitamente natural. Um invlido a 
manquejar por a, apoiado em duas bengalas, dificilmente

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pode desempenhar o papel de sedutor de raparigas de aldeia. Disse com irritao:
- Que disparate!
        - Foi o que eu disse  me da rapariga, sir - disse a Partridge. - ~<Leviandades nesta casa>>, 
disse-lhe eu, (nunca houve nem nunca havera, enquanto for eu a mandar. Quanto  Beatrice>>, disse eu, 
~,hoje em dia, as rapari,gas so diferentes, e no posso dizer nada quanto a Leviandades noutros stios>>. 
Mas a verdade, sir,  que o amigo da garagem, com quem a Beatrice sai, tambm recebeu uma dessas 
cartas desagradveis e no est a agir de forma nada razovel.
        - Nunca na vida ouvi nada to disparatado - disse eu iradamente.
        - Em minha opinio, sir - disse a Partridge -, devamos ver-nos livres da rapariga. 0 que eu digo  
que ela no reagia assim se no houvesse alguma coisa que no quer que se descubra. No h fumo sem 
fogo,  o que eu digo.
        Eu no fazia a menor ideia de como me iria fartar daquela expresso particular.

II

        Naquela manh,  laia de aventura, ia descer a p at  aldeia. (Eu e a joanna chamvamos-lhe 
sempre aldeia, embora tecnicamente fosse incorrecto, e se Lymstock nos ouvisse ficaria aborrecida.)
        0 sol brilhava, o ar estava fresco e tonificante e tinha a suavidade da Primavera. Peguei nas minhas 
bengalas e parti, negando-me com firmeza a deixar que a joanna me acompanhasse.
        - No - disse eu -, no quero um anjo-da-guarda a coxear comigo e a dar estalinhos encorajadores 
com a lngua. Um homem desloca-se mais depressa se se deslocar sozinho, lembra-te disso. Tenho 
muitos assuntos para tratar. Vou  Galbraith Galbraith & Symmington assinar a transferncia de aces, 
tenho de passar pela padaria para me queixar do po de passas, e vou devolver o livro que pedimos 
emprestado. Tambm tenho de ir ao banco. Deixa-me ir, mulher, que a manh passa depressa.
        Ficou combinado que a joanna iria buscar-me, para me trazer de carro pela colina acima a tempo 
para o almoo.

20

- Deve dar-te tempo para cumprimentares toda a gente em Lymstock - Tenho a certeza - disse eu - de que 
a essa hora j terei visto todas as pessoas importantes.
        Porque a manh na High Street era uma espcie de ponto de encontro dos compradores, onde se 
trocavam as novidades.
        Afinal, no fui sozinho at  povoao. Tinha andado uns duzentos metros quando ouvi atrs de 
mim a campainha de uma bicicleta, seguida de um ranger de traves, e depois Megan Hunter caiu da 
mquina mais ou menos aos meus pes.
        - Ol! - disse ela ofegante, enquanto se levantava e sacudia o p.
        Eu gostava muito da Megan e sempre senti, estranhamente, pena dela.
        Era a enteada do Symmington, o advogado, filha de um primeiro casamento de Mrs. Symmington. 
Ningum falava muito de ME (ou capito) Hunter, e eu deduzi que achavam que ele estava melhor 
esquecido. Constava que tratara Mrs. Symmington muito mal. Ela divorciara-se dele um ano ou dois depois 
do casamento. Era uma mulher com fortuna prpria e, ~xpara esquecer>>, fixara residncia em Lymstock 
com a filhinha e acabara por casar com o nico celibatrio aceitvel da localidade, Richard Symmington. 
Havia dois rapazes do segundo casamento a quem os pais eram dedicados, -e eu imaginava que, s vezes, 
a Megan se sentia a mais naquela casa. No se parecia nada com a me, que era uma mulher pequena e 
anmica de uma beleza emurchecida e que falava, numa voz fina e melanclica, de dificuldades com as 
criadas e da sua sade.
        A Megan era uma rapariga alta e desajeitada, e embora na realidade tivesse vinte anos, parecia 
mais uma estudante de dezasseis. Tinha um emaranhado de cabelo castanho desalinhado, olhos 
castanhos-esverdeados, um rosto ossudo e delicado e um sorriso enviesado, inesperadamente encantador. 
As roupas eram inspidas e pouco atraentes, e usava geralmente meias de fio da Esccia esburacadas.
        Parecia, decidi nessa manh, muito mais um cavalo do que um ser humano. De facto, com alguns 
cuidados seria um cavalo muito bonito.
        Falou, como de costume, com uma espcie de precipitao ofegante.
        - Estive na quinta (sabe, a do Lasher) para ver se tinham ovos de pato. Tm umxquantidade de 
porquinhos lindos. To amorosos! Gosta de porcos? Eu at do cheiro gosto.

21
Megan?

ciente. Nunca acontece nada.

- No - disse eu. - Suponho que no. Gostavas de andar de avio,

        - Eu? - A Megan pareceu surpreendida. - Santo Deus, no! Enjoava. At num comboio enjoo.

        Fez uma pausa, e depois perguntou com a franqueza caracterstica das crianas:

        - Vai ficar bom e vai poder voar outra vez, ou vai ficar um cangalho para sempre?

        - 0 meu mdico diz que eu vou ficar bem.

        - Sim, mas ele  do gnero de homem que mente?

        - Acho que no - respondi. - Na verdade, tenho a certeza de que no. Confio nele.

        - Ento est bem. Mas h muita gente que diz mentiras.

        Aceitei esta inegvel declarao de facto em silncio.
        A Megan disse de forma desprendida e judiciosa:
        - Ainda bem. Receava que parecesse mal-humorado por estar incapaz para o resto da vida... mas 
se  assim naturalmente,  tudo diferente.
        - Eu no sou mal-humorado - disse eu friamente.
        - Bem, ento irritadio.
        - Ando irritadio porque estou impaciente por ficar bom outra vez... e estas coisas no podem ser 
apressadas.
        - Ento, porque se enerva?
        Comecei a rir.
        - Minha querida, nunca ficas impaciente por que certas coisas aconteam?
        A Megan pensou na pergunta. Disse:

        - No. Por que havia de ficar? No h nada para me fazer ficar impa-

eu.

eu.

- Porcos bem tratados no deviam ter cheiro - disse eu.

        - No? Todos tm cheiro aqui nas redondezas. Vai a p at  povoao? Vi que estava sozinho, 
por isso pensei parar e caminhar consigo, so que estaquei muito bruscamente.
        - Rasgaste a meia - disse eu.
        A Megan olhou pesarosamente para a perna direita.
        - Pois foi. Mas j tinha dois buracos, por isso no tem muita importncia, pois no?
        - Nunca remendas as tuas meias, Megan?
        - Certamente. Quando a mam me apanha. Mas ela no presta muita ateno quilo que eu fao... 
o que de certa forma  uma sorte, no ?

- Parece que ainda no tomaste conscincia de que j s adulta - disse

- Quer dizer que eu devia ser mais como a sua irm? Toda aperaltada? Fiquei melindrado com esta 
descrio da joanna.

- Ela tem uma aparncia limpa, e cuidada, e agradvel .vista - disse

        -  muito bonita - disse a Megan. - No se parece nada consigo, pois no? Porqu?
        - Os irmos e as irms nem sempre so parecidos.
        - No. Claro que no. No me pareo muito com o Brian ou com o Colin. E o Brian e o Colin no se 
parecem um com o outro. - Fez uma pausa e disse: -  muito estranho, no ?
        - 0 qu?
        A Megan respondeu sumariamente: - As famlias.
        - Acho que sim - respondi pensativamente.
        Gostava de saber o que estava a passar pela cabea dela. Caminhmos em silncio por um minuto 
ou dois, depois a Megan disse numa voz muito tmida:
        -  aviador, no ?
        - Sou.
        - Foi assim que se feriu?
        - Foi, despenhei-me.
        - Aqui ningum sabe pilotar.

        Fiquei impressionado com o laivo de desespero nas suas palavras e disse meigamente: - Em que 
te ocupas aqui? Ela encolheu os ombros. - Que h para fazer? - No tens passatempos? Praticas 
desportos? Tens amigos nas vizi-

nhanas?

22

23
        - Sou uma desajeitada em desportos. E no gosto muito. No h muitas raparigas por aqui, e no 
gosto das que h. Elas acham-me horrvel.
        - Que disparate! Por que haviam de achar isso?
        A Megan abanou a cabea.
        - No frequentaste nenhuma escola?
        - Sim. Voltei h um ano.
        - Gostaste da escola?
        - No foi mau. Mas ensinavam as coisas de uma maneira absolutamente disparatada.
        - Que queres dizer com isso?
        - Bem... eram s ninharias. Sempre a mudarem de uma coisa para a outra. Era uma escola barata, 
sabe, e as professoras no eram muito boas. Nunca sabiam responder adequadamente s perguntas.
        - Poucos professores sabem - disse eu.
        - Porqu? Tm obrigao de saber.
        Concordei.
        -  claro que sou bastante estpida - disse a Megan. - E h muitas coisas que me parecem uma 
parvoce. Histria, por exemplo. Varia de livro para livro!
        -  a que est o seu verdadeiro interesse - disse eu.
        - E a gramtica - continuou a Megan. - E aquelas composies idiotas. E todas aquelas futilidades 
que o Shelley escreveu, aquela algaraviada toda sobre rouxinis, e o Wordsworth apaixonado por uns 
narcisos patetas. E o Shakespeare...
- Que  que o Shakespeare tem de errado? - perguntei com interesse. - A retorcer-se todo para dizer coisas 
de uma maneira to difcil que no se consegue perceber o que ele quer dizer. Contudo, gosto de a~um 
Shakespeare.
- Ele ia ficar muito contente por o saber, tenho a certeza - disse eu.
A Megan no se apercebeu do sarcasmo. Disse, com o rosto animado:
- Gosto da Gonerfl e da Regan, por exemplo.
- Porqu dessas duas?
        - Oh! no sei. De certa forma, so satisfatrias. Por que acha que elas eram assim?
        - Assim como?

24

A

- Como eram. Quero dizer, alguma coisa as deve ter tornado assim.
        Pus-me a pensar nisso pela primeira vez. Sempre aceitara as filhas mais velhas do rei Lear como 
duas mulheres maldosas e tinha ficado por a. Mas o facto de a Megan procurar uma causa primeira 
interessou-me.
        - Vou pensar nisso - disse eu.
        - Oh! na verdade, no importa. S gostava de saber. Seja como for,  s Literatura Inglesa, no ?
        - Claro, claro! No gostaste de nenhuma matria?
        - S de Matemtica.
        - Matemtica? - perguntei muito surpreendido.
        0 rosto da Megan tinha-se animado.
        - Adorei Matemtica. Mas no era muito bem ensinada. Gostava que me tivessem ensinado 
Matemtica muito bem.  divinal. Em todo o caso, acho que h qualquer coisa de divino nos nmeros, no 
acha?
        - Nunca senti isso - disse eu com honestidade.
        Estvamos a entrar na High Street. A Megan disse bruscamente:
        - Vem ali Miss Griffith. Mulher odiosa.
        - No gostas dela?
        - Odeio-a. Est sempre a apoquentar-me para eu entrar para as suas detestveis Guias. Detesto 
as Guias. Para qu andarmos fantasiadas, e em bando, e pormos distintivos em nos proprias por uma 
coisa que na verdade no aprendemos a fazer convenientemente? Acho tudo isso uma parvoce.
        De um modo geral, eu concordava com a Megan. Mas Miss Griffith caiu sobre ns, antes de eu 
poder dizer que concordava.
        A irm do mdico, que respondia pelo nome particularmente inadequado de Aime, tinha toda a 
segurana que faltava ao irmo. Era uma mulher atraente, de um modo masculino e curtido pelo vento e 
pelo sol, de voz grave e cordial.
        - Ol aos dois - berrou-nos ela. - Est uma manh esplndida, no est? Megan, era mesmo 
contigo que eu queria falar. Quero que me ajudes a enderear envelopes para a Associao Conservadora.
        A Megan murmurou uma evasiva qualquer, apoiou a bicicleta contra a berma e,mergulhou na 
International Stores cheia de determinao.
        - Que criana extraordinria! - disse Miss Griffith, seguindo-a com o olhar - Preguiosa at  
medula dos ossos. Passa o tempo a devanear. Deve

25
ser uma grande provao para a pobre Mrs. Symmington. Sei que a me tentou, mais do que uma vez, 
convenc-la a dedicar-se a qualquer coisa: estenodactilografia, sabe, ou culinria ou criao de coelhos 
angor. Ela precisa de um interesse na vida.
        Pensei que isso era provavelmente verdade, mas senti que, no lugar da Megan, tambm eu 
resistiria firmemente a qualquer das sugestes de Aime Griffith, pela simples razo de que a sua 
personalidade agressiva me irritava.

        - No acredito na ociosidade - continuou Miss Griffith. - E decididamente no para os jovens. Ainda 
se a Megan fosse bonita ou atraente ou qualquer coisa do gnero. s vezes penso que a rapariga  louca. 
Uma grande desiluso para a me. Como sabe, o pai - baixou a voz ligeiramente - era decididamente m 
rs. Receio que a filha saia a ele.  penoso para a me. Oh! bem,  preciso de tudo para fazer um mundo, 
 o que eu digo.
        - Felizmente - respondi eu.
        Aime Griffith deu uma gargalhada 4~bem-disposta>>.
        - Sim, se fssemos todos feitos com o mesmo molde no resultava. Mas desagrada-me ver uma 
pessoa a desaproveitar a vida. Gosto muito da vida e quero que toda a gente goste. As pessoas dizem-
me:,~(Deves aborrecer-te de morte por viver no campo o ano todo>~. x4Nem um pouco>>, digo eu. Estou 
sempre ocupada, sempre feliz! Est sempre a acontecer qualquer coisa no campo. Ocupo o meu tempo 
com as minhas Guias, e com o Instituto, e com vrias comisses... para no falar de que tenho de tratar do 
Owen.
        Neste momento Miss Griffith viu uma pessoa conhecida no outro passeio e, soltando um grito de 
reconhecimento, saltou para o outro lado da rua, deixando-me livre para continuar o meu caminho at ao 
banco.
        Sempre achei Miss Griffith muito opressiva, embora admirasse a sua energia e vitalidade, e me 
agradasse ver que ela ostentava sempre uma satisfao radiante com a sua sorte na vida, o que 
constrastava agradavelmente com as lamrias reprimidas de tantas mulheres.
        Depois de tratar satisfatoriamente do meu assunto no banco, segui para os escritrios de Messrs. 
Galbrait14 Galbraith & Symmington. No sei se existiam alguns Galbraiths. Nunca vi nenhum. Fui 
conduzido ao gabinete de Richard Symmington, que cheirava ao bafio agradvel de um escritrio de 
advogados h muito estabelecido.
        Grandes quantidades de caixas com documentos, rotuladas Lady Hope,

26

Sir Everard Carr, William Yatesby-Hoares, Esq., Falecido, ete., davam a indispensvel atmosfera de dignas 
famlias antigas e de uma firma legtima estabelecida h muito tempo.

        Ao estudar Mr. Symmington, enquanto ele se debruava sobre os documentos que eu trouxera, 
ocorreu-me que, se Mrs. Syiiimington fora infeliz no primeiro casamento, tinha sem dvida jogado pelo 
seguro no segundo. Richard Symmington era o cmulo da respeitabilidade tranquila, o tipo de homem'que 
nunca daria  mulher um momento de ansiedade. Um pescoo comprido com uma ma-de-ado 
pronunciada, um rosto ligeiramente cadavrico e um nariz fino e comprido. Um homem amvel, sem dvida, 
um bom marido e pai, mas no do tipo capaz de acelerar loucamente as pulsaes.
        Pouco depois, Mr Symmington comeou a falar. Falava de modo claro e pausado, dando a sua 
opinio com muita sensatez e uma perspiccia contundente. Resolvemos o assunto de que estvamos a 
tratar e eu levantei-me para sair, observando ao mesmo tempo:
        - Desci a colina com a sua enteada.
        Por um momento, Mr. Symmington pareceu no saber quem era a enteada, depois sorriu.
        - Oh! sim, a Megan, claro. Ela... hum!... voltou da escola h algum tempo. Estamos a pensar em 
procurar qualquer coisa para ela fazer... sim, fazer. Mas claro que ainda  muito nova. E atrasada para a 
idade,  o que dizem. Sim,  o que me dizem.
        Sa. Na recepo estava um homem idoso, sentado num banco, a escrever lenta e laboriosamente, 
um rapaz de ar atrevido e uma mulher de meia-idade, com cabelo frisado e lunetas, que escrevia  mquina 
com muita velocidade e energia.
        Se esta era Miss Ginch, concordei com Owen Griffith que era muito improvvel que houvesse uma 
aventura amorosa entre ela e o patro.
        Fui  padaria dar a minha opinio sobre o po de passas. Foi recebida com as exclamaes e 
incredulidade prprias da ocasio, e obrigaram-me a aceitar, em substituio do outro, um novo po de 
passas -,~(acabado de sair' do forno>~ - como provava o seu calor voluptuoso contra o meu peito.
        Sa da padaria e olhei para os dois lados da rua na esperana de ver a

27
joanna com o carro. A caminhada tnha-me cansado muito, e no me dava        - Que lugar to singular para 
fazer isso - disse a joanna. - Estavas
1
jeito andar com as bengalas e com o po de passas.        muito esquisito, a de p a agarrar o po de 
passas de encontro ao peito e de
        Mas ainda no havia sinal da joanna.        boca escancarada.
        De repente, os meus olhos detiveram-se, incrdulos e agradavelmente                - Tive um 
choque - disse eu. - Fui transportado para Tria e voltei
surpreendidos.                outra vez.
        Pelo passeio fora, e na minha direco, vinha uma deusa a flutuai: Na                ~(S ' abes quem 
? - acrescentei, indicando umas costas que se afastavam,
verdade, no h outra palavra para ela.        flutuando com graciosidade.
        0 rosto perfeito, o cabelo louro bem ondulado, o corpo alto elegante-                Ao olhar para a 
jovem, a joanna disse que era a preceptora dos Sym
mente modelado! E ela caminhava como uma deusa, sem esforo, aproxi-        mingtons.
mando-se como se flutuasse. Uma rapariga gloriosa, incrvel, de cortar a res-                - Foi ela que te 
deixou embasbacado? - perguntou ela. -  atraente,
pirao!                mas um bocado sensaborona.
        Na minha intensa excitao, alguma coisa tinha de cair. E o que caiu foi                - Eu sei - disse 
eu. -  s uma rapariga bonita e amvel. E eu tinha
o po de passas. Escorregou-me das mos. Eu mergulhei atrs dele e perdi a        pensado que ela era 
Afrodite.
bengala, que caiu estrondosamente no passeio, e escorreguei, e quase ca.                A joanna abriu a 
porta do carro, e eu entrei.
        Foi o brao forte da deusa que me agarrou e segurou. Comecei a gague-                -  esquisito, 
no ? - disse ela. - Algumas pessoas tm muito boa
jar:                        aparncia, mas absolutamente nenhum poder de seduo.  o que acontece
        - Mui-muitssimo obrigado, I-l-Iamento imenso.        com aquela rapariga.  uma pena.
        Ela tinha recuperado o po e entregou-mo, juntamente coma bengala. E                Eu disse que se 
ela era preceptora, talvez fosse melhor assim.
depois sorriu com amabilidade e disse animadamente:
        - No tem de qu. No foi incmodo nenhum, garanto-lhe. - E a ma
gia extinguiu-se por completo perante a voz montona e competente.
        Uma rapariga bem constituda e de aspecto saudvel, nada mais.
        Comecei a reflectir sobre o que teria acontecido se os deuses tivessem
dado exactamente aquelas inflexes montonas a Helena de Tria. Era es
tranho que uma rapariga pudesse perturbar-nos at ao mais ntimo da nossa
alma se se mantivesse de boca fechada, e que o fascnio se desvanecesse,
como se nunca tivesse existido, no momento em que falava.
        Contudo, eu sabia que o contrrio tambm acontecia. Tinha conhecido
uma mulher triste e com cara de macaco para quem ningum olhava duas
vezes. Depois ela abrira a boca e subitamente o encanto tinha nascido, e
desabrochado, e Clepatra lanara outra vez o seu feitio.
        A Joanna tinha parado na berma junto a mim, sem eu dar conta da sua
chegada. Perguntou-me se tinha acontecido alguma coisa.
        - Nada - disse eu, recompondo-me. - Estava a reflectir sobre Helena
de Tria e outras mulheres.
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CAPTuLo TRs

Naquela tarde fomos tomar ch com Mn Pye.
        Mr. Pye era um homenzinho rolio, muito efeminado, devotado s suas cadeiraspetitpoint, s suas 
pastoras de Dresden e  sua coleco de bricabraque. Vivia em Priors Lodge, em cujos terrenos estavam 
as runas do velho Priorado.
        Sem dvida que Priors Lodge era uma casa muito bonita e, sob os cuidados amorosos de Mr. Pye, 
mostrava-se na sua melhor forma. Cada pea de mobilirio estava polida e colocada exactamente no lugar 
que melhor lhe convinha. As cortinas e almofadas tinham tonalidades e cores requintadas e eram 
confeccionadas em sedas das mais caras.
        Dificilmente podia ser considerada uma casa de homem, e ocorreu-me que viver l devia ser como 
morar numa sala de um museu. 0 maior prazer que Mr. Pye tinha na vida era mostrar a casa a toda a 
gente. Nem as pessoas completamente insensveis quilo que as rodeia conseguiam escapar Nem sequer 
as que eram to empedernidas a ponto de considerarem um rdio, um bar, uma banheira e uma cama, 
rodeados pelas indispensveis paredes, as coisas essenciais da vida. Mr. Pye no perdia a esperana de 
as conduzir at coisas melhores.
        Enquanto descrevia os seus tesouros, as mos pequenas e rechonchudas estremeciam de 
emotividade, e o seu tom de voz subia at um guincho de falsete ao contar em que excitantes 
circunstncias trouxera de Verona a armao italiana da sua cama.
        Como eu e a Joanna gostvamos ambos de antiguidades e de mveis de estilo, fomos aprovados.
        -  realmente um prazer, um grande prazer, ter uma aquisio destas na nossa pequena 
comunidade. A boa gente de c, sabem, to penosamente buclica (para no dizer provinciana) no sabe 
nada. Vndalos, perfeitos

30

vndalos! E os interiores das casas... f-la-iam chorar, minha querida senhora, garanto-lhe que a fariam 
chorar. Talvez j tenha acontecido?
A joanna disse que no tinha chegado to longe.

        - Mas percebe o que eu quero dizer? Misturam terrivelmente as coisas! Vi, com os meus prprios 
olhos, uma pea Sheraton absolutamente deliciosa (delicada, perfeita, uma pea de coleccionador, sem 
dvida) e junto a ela, uma mesinha vitoriana ou, muito possivelmente, uma estante rotativa de carvalho 
escurecido... sim, at isso: carvalho escurecido.
        Estremeceu, e murmurou de um modo queixoso:
        - Por que  que as pessoas so to cegas? Concordam Comigo, tenho a certeza de que 
concordam, que a beleza  a nica coisa para que vale a pena viver
        Hipnotizada pela sua veemncia, a joanna disse que sim, sim, que era verdade.
        - Ento - perguntou Mr. Pye -, por que  que as pessoas se rodeiam de fealdade?
        A joanna disse que era muito estranho.
        - Estranho?  criminoso!  o que eu lhe chamo: criminoso! E as desculpas que do! Dizem que 
uma coisa qualquer  confortvel. Ou que  curiosa. Curiosa! Que palavra horrvel.
        - A casa que alugaram - continuou Mr Pye -, a casa de Miss Emily Barton. Essa sim,  
encantadora, e ela tem algumas peas muito bonitas. Muito bonitas. Uma ou duas so realmente 
esplndidas. E tambm tem gosto... embora eu j no tenha tanta certeza disso como antes. As vezes 
receio que, na verdade, seja sentimentalismo. Gosta de conservar as coisas como eram, mas no pelo bon 
motif no pela harmonia resultante... mas porque era assim que a me as tinha.
        Transferiu a sua ateno para mim e a sua voz alteru-se. Passou da voz de artista arrebatado para 
a voz do mexeriqueiro inato.
        - No conheciam a famlia? No, claro... sim, atravs de agentes imobilirios. Mas, meus caros, 
devitun ter conhecido aquela famlia! Quando vim para c, a velha me ainda era viva. Uma pessoa incrvel, 
absolutamente incrvel! Um monstro, se percebem o que quero dizer. Positivamente um monstro. 0 
aritiquado monstro vitoriano que devorava as crias. Sim, era praticamente isso. Ela era monumental, 
percebem, devia pesar mais de cem quilos,

31
e as cinco filhas revoluteavam em torno dela. xxas pequenas>>! Era assim que se lhes referia sempre. As 
pequenas! E nessa altura a mais velhaj passara dos sessenta. ~(Aquelas pequenas estpidas!>>, era 
como s vezes lhes chamava. Escravas negras, era o que elas eram, a fazerem recados e a concordarem 
com ela. As dez em ponto tinham de ir para a cama e nem sequer podiam acender a lareira no quarto, e 
quanto a convidarem os amigos para irem l a casa, isso teria sido inaudito. Ela desprezava-as, sabem, por 
no se terem casado, contudo, planeou as vidas delas de tal forma, que era praticamente impossvel elas 
conhecerem algum. Creio que a Emily, ou talvez tenha sido a Agnes, teve um romance com um vigario. 
Mas a famlia dele no era suficientemente boa, e a Mam depressa ps um fim quilo.
- Parece um romance - disse a joanna.

        - Oh! minha querida, e foi mesmo. E depois a velha horrorosa morreu, mas  claro que nessa altura 
j era tarde de mais. Continuaram apenas a viver l e a falarem em voz baixa das coisas que a pobre Mam 
teria desejado. At mudar o papel de parede do quarto dela lhes parecia um sacrilgio. Contudo, divertiam-
se calmamente na parquia... Mas nenhuma delas era muito resistente, e morreram uma a uma. A gripe 
levou a Edith, a Minnie foi operada e no recuperou, e a pobre Mabel teve uma trombose (a Emily tratou 
dela com toda a dedicao). Na verdade, nos ltimos dez anos a pobre mulher no fez mais nada seno 
tratar de doentes. Uma criatura encantadora, no acham? Como uma pea de Dresden.  uma pena ter 
problemas financeiros, mas claro que todos os investimentos se desvalorizaram.
        - Sentimo-nos mal por estarmos em casa dela - disse a joanna.
        - No, no, minha querida senhora. No devem sentir isso. A sua querida Florence -lhe muito 
dedicada, e ela mesma me disse que est muito feliz por ter uns inquilinos to simpticos. - Aqui, Mr Pye 
fez uma pequena vnia. - Disse-me que tinha tido muita sorte.
        - A casa tem uma atmosfera muito reconfortante - disse eu.
        Mr. Pye lanou-me um olhar rpido.
        - A srio? Acha que sim? Isso  muito interessante. Surpreende-me, sabem? Sim, surpreende-me.
        - Que quer dizer, Mr. Pye? - perguntou a joanna.
        Mr Pye estendeu as mos rechonchudas.

32

        - Nada, nada. Uma pessoa fica a pensar,  tudo. Acredito em atmosferas, sabem? Os 
pensamentos e os sentimentos das pessoas. Imprimem a sua impresso s paredes e aos mveis.
        Fiquei calado por uns momentos. Estava a olhar  minha volta e a perguntar-me como descreveria 
a atmosfera de Prios Lodge. Pareceu-me que o curioso  que no tinha qualquer atmosfera! Era realmente 
muito singular
        Fiquei tanto tempo a reflectir sobre isso, que no ouvi nada da conversa entre ajoanna e o seu 
anfitrio. Contudo, voltei a mim quando ouvi ajoanna proferir os preliminares das despedidas. Despertei do 
meu sonho e juntei a minha quota-parte.
        Samos todos para o hafi. Quando nos dirigamos para a porta da frente, uma carta passou pela 
caixa do correio e caiu no tapete.
        - Distribuio da tarde - murmurou Mr. Pye ao apanh-la. - Agora, meus queridos jovens, ho-de 
voltar c, no  verdade?  um prazer to grande conhecer pessoas de vistas mais largas, se percebem o 
que quero dizer. Pessoas que apreciam a Arte. Por certo sabem que quando se menciona ,~(Ballet>~ 
diante desta boa gente, o que lhes vem  ideia  piruetas em pontas de ps, e saias de tule e cavalheiros 
idosos com binculos de teatro da ltima dcada do sculo xix. Esto cinquenta anos atrasados,  assim 
que os considero. Um pas maravilhoso, a Inglaterra. Tem bolsas. Lymstock  uma delas. Interessante do 
ponto de vista de um coleccionador (sinto sempre que me meti voluntariamente numa redoma quando estou 
c). 0 remanso tranquilo onde nunca nada acontece.
        Depois de nos apertar as mos mais duas vezes, ajudou-me a entrar para o carro com um cuidado 
exagerado. A Joanna sentou-se ao volante, contornou cuidadosamente um pedao de relvado impecvel, e 
depois, com um caminho direito pela frente, levantou a mo para acenar um adeus ao nosso anfitrio 
parado nos degraus da casa. Inclinei-me para a frente para fazer o mesmo.
        Mas o nosso gesto de despedidas passou despercebido. Mr. Pye tinha aberto a carta.
        Estava de p a olhar para a folha desdobrada que tinha na mo.
        A Joainna descrevera-o uma vez como um querubim rosado e rechonchudo. Continuava 
rechonchudo, mas agora no se parecia nada com um

33
querubim. 0 seu rosto roxo e 1 congestionado estava contorcido de raiva e                - Como te digo, tm um 
parafuso solto. Deve satisfazer algum anseio
surpresa.        ardente, suponho. Se algum  humilhado, ou ignorado, ou est frustrado, e
        Nesse momento apercebi-me de que havia algo de familiar no aspecto        a sua vida  muito 
montona e vazia, suponho que tem uma sensao de
daquele envelope. Na altura, no me apercebera - de facto, era uma da-        poder ao magoar s cegas 
pessoas que esto felizes e que se divertem.
quelas coisas que notamos inconscientemente sem sabermos que as nota-                A joanna 
estremeceu. -  desagradvel.
mos.                                - Sim,  desagradvel. Imagino que as pessoas nestas localidades do
        - Credo! - disse a joanna. - Que bicho lhe mordeu?        campo tendam a ser consanguneas, e 
por isso deve haver bastante gente es
        - Tenho a impresso - disse eu - de que  a Mo Misteriosa a atacar        quisita.
de novo.                - Uma pessoa, suponho eu, muito ignorante e que se exprime mal?
        Ela virou para mim um rosto espantando, e o carro guinou para o lado.        Com uma educao 
melhor
        - Cuidado, rapariga! - disse eu.                A joanna no acabou a frase e eu no disse nada. Nunca 
fui capaz de
        A Joanna voltou a fixar a ateno na estrada. Estava carrancuda.        aceitar a crena fcil de que a 
educao  a panaceia para todos os males.
                Referes-te a uma carta como a que tu recebeste?                Ao passarmos de carro 
pela povoao, antes de subirmos pela estrada da
                 o que suponho.        colina, olhei com curiosidade para as poucas pessoas que 
passavam na High
                Que lugar  este? - perguntou a joanna. - Parece o pedacinho da        Street. Andaria uma 
daquelas robustas mulheres do campo, cheia de rancor
        Inglaterra mais inocente, sonolento e inofensivo que imaginar se possa        e malcia por trs do 
rosto plcido, a circular por a e a planear, talvez neste
        - Onde, para citar Min Pye, nunca nada acontece - interrompi eu. -        preciso momento, mais 
uma descarga de rancor vingativo?
Escolheu o momento errado para dizer aquilo. Alguma coisa aconteceu.                Mas eu continuava a no 
levar a coisa a srio.
        - Mas quem escreve estas coisas, Jerry?
        Encolhi os ombros.
        - Minha querida, como hei-de saber? Um imbecil local com um pa
rafuso solto, suponho eu.
        - Mas porqu? Parece to idiota.                Dois dias mais tarde fomos a uma reunio de bridge em 
casa dos
        - Tens de ler o Freud e o Jung e os outros todos para descobrires. Ou        Symmingtons.
pergunta ao Dr Owen.                        Era uma tarde de sbado - os Symmingtons faziam sempre as 
reunies
        A Joanna sacudiu a cabea.                de bridge aos sbados, porque nessa altura o escritrio 
estava fechado.
        - 0 Dr. Owen no gosta de mim.                Havia duas mesas. Os jogadores eram os Symmingtons, 
ns, Miss
        - Ainda ma] te viu.                Griffith, Mr Pye, Miss Barton e um coronel Appleton, que ns 
ainda no
        - Ao que parece, viu o bastante para atravessar para o outro lado se me        tnhamos conhecido, e 
que vivia em Combeacre, uma aldeia a cerca de onze
v aproximar na High Street.                quilmetros de distncia. Era um espcime perfeito do tipo Blimp; 
tinha cer
        - Uma reaco muito invulgar - disse eu com ternura. - E  qual no        ca de sessenta anos, 
gostava de jogar aquilo a que chamava um ~(jogo resolu
ests habituada.                to)~ (que geralmente resultava em totais imensos, acima da linha dos 
pontos
        A Joanna estava carrancuda outra vez.
        - No, mas a srio, Jerry, porque  que as pessoas escrevem cartas
annimas?                        1 Coronl Blimp ou apenas Blimp, personagem inventada pelo cartunista 
David Low (1891
                        -1%3) e que passou a representar o tipo de ex-militar pomposo e reaccionrio. (N. 
da T)
                34                        35
ganhos pelos seus adversrios), e ficou to intrigado com a Joanna, que praticamente no tirou os olhos de 
cimadela durante a tarde toda.
        Fui forado a reconhecer que a minha irm devia ser a coisa mais atraente que se via em Lymstock 
h muito tempo.
        Quando chegmos, Elsie Holland, a preceptora das crianas, procurava marcadores extra numa 
velha escrivaninha ornamentada. Deslizava pelo soalho da mesma forma celestial que eu notara da primeira 
vez, mas o feitio no podia surtir efeito uma segunda vez. Era exasperante que assim fosse um 
desperdcio de uma figura e de um rosto absolutamente adorveis. Mas reparei, agora distintamente, nos 
dentes brancos excepcionalmente grandes, como lpides, e na forma como mostrava as gengivas quando 
se ria. Era, infelizmente', uma tagarela.
        - So estes, Mr. Symmington? Que estupidez a minha no me lembrar do stio onde os pusemos 
da ltima vez. Receio que a culpa tenha sido minha. Tinha-os na mo, depois o Brian chamou-me porque a 
locomotiva tinha ficado presa, e eu corri l para fora, e com uma coisa e outra devo t-los encafuado algures 
num lugar estpido. Estes no so os adequados, vejo agora que esto um pouco amarelecidos nas 
pontas. Digo  Agnes para servir o ch s cinco? Vou levar os midos a Long Barrow, por isso no vai haver 
barulho.
        Uma rapariga simptica, amvel e esperta. Atra a ateno dajoanna. Ela estava a rir-se. Olhei para 
ela friamente. A joanna sabe sempre o que me passa pela cabea, maldita seja.
        Instalmo-nos para o bridge.
        Depressa iria saber com exactido a categoria do bridge de toda a gente em Lymstock Mrs, 
Symmington era uma jogadora muito boa e uma grande entusiasta do jogo. Como muitas mulheres 
decididamente pouco intelectuais, no era estpida e tinha uma considervel argcia natural. 0 marido era 
um jogador bom e correcto, um pouco cauteloso de mais. Mr Pye pode ser melhor descrito como brilhante. 
Tinha um ftaco inquietante por leiles psquicos. Eu e a joanna, uma vez que a reunio era em nossa honra, 
jogmos numa mesa com Mrs. Symmington e Mr. Pye. 0 Symmington tinha a incumbncia de deitar gua 
na fervura e de, atravs do exerccio do tacto, reconciliar os outros trs jogadores da sua mesa. 0 coronel 
Appleton, como disse, estava habituado a jogar ~<um jogo resoluto>~. A pequena Miss Barton era, 
indiscutivelmente, a pior jogadora de bridge com quem j me cruzei e

36

divertia-se sempre muitssimo. L conseguia jogar uma carta do mesmo naipe, mas tinha as ideias mais 
fantsticas acerca da fora da sua mo, nunca sabia a pontuao, comeava a jogar na mo errada, era 
incapaz de contar trunfos e esquecia-se muitas vezes do naipe dos mesmos. 0 jogo de Aime Griffith pode 
ser resumido nas suas prprias palavras. ~(Gosto de um bom jogo de bridge sem despropsitos - e no me 
sirvo de nenhuma dessas convenes disparatadas. Eu digo o que quero dizei: E nada de discusses 
sobre a mo anterior! No fim de contas,  s um jogo!>~ Portanto, como se v, a tarefa do anfitrio no era 
muito fcil.
        0 jogo avanou com bastante harmonia, no obstante os esquecimentos ocasionais da parte do 
coronel Appleton, porque ficava a olhar fixamente para a joanna.
        0 ch foi servido na sala de jantar,  volta de uma grande mesa. Quando estvamos a acabar, dois 
rapazinhos impetuosos e excitados entraram de roldo e foram-nos apresentados, Mrs. Symmington a 
irradiar orgulho maternal, tal como o pai.
        Depois, quando estvamos mesmo a acabar, uma sombra escureceu o meu prato; virei a cabea e 
vi a Megan de p junto  porta envidraada.
        - Oh! - disse a me. - C est a Megan.
        A voz dela tinha uma nota levemente surpreendida, como se se tivesse esquecido de que a Megan 
existia.
        A rapariga entrou e apertou-nos a mo, desajeitadamente e sem qualquer graa.
        - Receio ter-me esquecido do teu lanche, querida - disse Mrs. Symmington. - Miss Holland e os 
rapazes levaram o deles para o passeio, por isso hoje no h lanche no quarto das crianas. Esqueci-me 
de que no estavas com eles.
        A Megan acenou com a cabea.
        - No faz mal. Eu vou  cozinha.
        Arrastou-se para fora da sala. Como de costume, estava desleixadamente vestida e tinha buracos 
nos dois calcanhares.
        - Minha pobre Megan - disse Mrs. Symmington com um sorrisinho apologt~co. - Est na idade 
ingrata, sabem. As raparigas so sempre tmidas e desajeitadas, quando acabam de sair da escola e ainda 
no esto completamente desenvolvidas.

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        Vi a cabea loira da joanna dar um saco para trs, naquilo que eu sabia ser um gesto blico.
        - Mas a Megan tem vinte anos, no tem? - disse ela.

        - Oh! sim, sim. L ter, tem. Mas  claro que ela  muito imatura para a idade. Ainda  muito 
criana.  muito bom, penso eu, que as raparigas no cresam demasiado depressa. - Riu-se novamente. - 
Suponho que todas as mes querem que os filhos permaneam bebs.
        - No vejo porqu - disse a joanna. - No fim de contas, devia ser um bocado esquisito ter um filho 
que ficasse com a idade mental de seis anos enquanto o seu corpo crescia.
        - Oh! no deve tomar as coisas to  letra, Miss Burton - disse Mrs. Symmington.
        Ocorreu-me naquele momento que no gostava muito de Mrs. Symmington. Aquela beleza 
anmica, dbil e emurchecida escondia, pensei eu, uma natureza egosta e gananciosa. E ainda antipatizei 
mais com ela, quando disse:
        - Minha pobre Megan. Receio que seja uma mida muito dificfl. Tenho tentado descobrir qualquer 
coisa para ela fazer, creio que h vrias coisas que se podem aprender por correspondncia. Desenho e 
costura... ou talvez possa tentar aprender estenografia e dactilografia.
        A Joanna ainda tinha nos olhos o lampejo de clera. Quando nos sentmos de novo  mesa de 
bridge, disse:
        - Suponho que ela h-de ir a festas e a esse tipo de coisas. Vai dar um baile em honra dela?
        - Um baile? - Mrs. Symmington pareceu surpreendida e divertida. Oh! no, aqui no fazemos coisas 
dessas.
        - Estou a ver S partidas de tnis e coisas do gnero.
        - 0 nosso campo de tnis no  usado h anos. Nem eu, nem o Richard jogamos. Suponho que, 
mais tarde, quando os rapazes crescerem... Oh! a Megan vai descobrir bastantes coisas para fazer Ela fica 
muito feliz s por vaguear por a sem fazer nada, sabe. Vejamos, fui eu que dei as cartas? Dois Sem 
Trunfos.
        Quando voltvamos para casa, ajoanna disse, com uma violenta presso no acelerador que fez o 
carro saltar para a frente:
        - Tenho uma pena horrvel daquela mida.

38

- Da Megan?
- Sim. A me no gosta dela.
- Ora, joanna, a situao no  to m como isso.
        -  sim. H muitas mes que no gostam dos filhos. A Megan, imagino eu,  um tipo de criatura 
incmoda para se ter em casa. Altera o padro; o padro Symmington.  uma unidade completa sem ela, e 
essa  uma sensao muito triste para uma criatura sensvel... e ela  sensvel.
        - Sim - disse eu -, acho que .
        Fiquei um momento calado.
        De repente, a joanna desatou a rir maliciosamente.
        - Que pouca sorte a tua com a preceptora!
        - No sei a que te referes - disse eu com dignidade.
        Tolice! Tinhas despeito masculino escrito no rosto sempre que olhavas para ela. Concordo contigo. 
 um desperdcio.
- No sei de que ests a falar.
        - Mas mesmo assim estou encantada.  o primeiro sinal da vida que renasce. Estava muito 
preocupada contigo na casa de sade. Nem sequer olhaste para aquela enfermeira extraordinariamente 
bonita que tinhas. Uma sirigaita atraente... absolutamente um presente de Deus para um homem doente.
        - Acho a tua conversa muito vulgar, Joanna.
        A minha irm continuou, sem dar a mnima ateno s minhas observaes.
        - Por isso fiquei muito aliviada por ver que ainda deitavas um olho a um bom rabo de saias. Ela  
bonita.  estranho que o poder de seduo tenha sido completamente esquecido.  esquisito, sabes, 
Jerry. Que  que algumas mulheres tm e outras no? Que  que torna uma mulher to atraente, ainda que 
s diga,~(Que tempo desagradvel!~y, que todos os homens em redor queiram aproximar-se e falar do 
tempo com ela? Suponho que de vez em quando a Providncia comete um erro ao expedir a encomenda. 
Um rosto e figura de Afrodite, um temperamento idem. E alguma coisa se extravia, e o temperamento de 
Afrodite vai para uma criaturinha de cara vulgar, e ento todas as outras mulheres perdem simplesmente a 
cabea e dizem: 4~No percebo o que os homens vem nela. Nem sequer  bonita!~>.
        - J acabaste, joanna?

39
        - Bem, concordas, no concordas?                Depois disse:
        Sorri ironicamente. - Admito que fiquei desapontado.                -  capaz de haver qualquer 
coisa naquela tua ideia.
        - E no vejo mais ningum para ti aqui. Vais ter de recorrer a Aime                - Que ideia?
Gn~ffith.                A joanna respondeu:
        - Deus me livre! - disse eu.                - No vejo por que  que um homem h-de atravessar 
deliberadamente
        - Ela  muito bonita, sabes.        a rua para me evitar. Alm do mais  indelicado.
        -  Amazona de mais para mim.                - Estou a ver - disse eu. - Vais perseguir o homem a 
sangue frio at o
        - Realmente, parece gostar da vida que tem - disse a joanna. - Abso-        apanhares.
luta e desagradavelmente vigorosa, no ? No me surpreendia nada se to-                - Bem, no 
gosto de ser evitada.
masse um banho frio todas as manhs.                Sa lenta e cuidadosamente do carro, e equilibrei-me nas 
bengalas. De
        - E que vais fazer por ti mesma? - perguntei eu.        pois dei um conselho  minha irm.
        - Por mim?                - Deixa-me que te diga isto, minha menina. Owen Griffith no  um dos
        - Sim, Se bem te conheo, vais precisar de uma distracozinha aqui.        teus jovens artistas, 
submissos e lamurientos. Se no tiveres cuidado, vais
        - E agora quem  que est a ser vulgar? Alm disso, ests a esquecer-te        arranjar lenha para te 
queimares. 0 homem pode ser perigoso.
do Paul. - A Joanna deu um suspiro no muito convincente.                - Ooh! achas que sim? - 
perguntou a joanna com todos os sintomas
        - No vou esquecer-me dele to depressa como tu. Daqui a uns dez dias        de prazer diante da 
perspectiva.
vais dizer: ~,Paul? Que Paul? Nunca conheci Paul nenhum>>.                - Deixa o pobre diabo em paz - 
disse eu severamente.
        - Achas que eu sou completamente volvel - disse a joanna.                - Como  que ele se 
atreveu a atravessar a rua quando me viu apro
        - Quando as pessoas em questo so como o Paul, fico muito satisfeito        xlmar?
por seres.                - As mulheres so todas iguais. Esto sempre a repisar no mesmo
                Nunca gostaste dele. Mas ele era meio gnio.        assunto. Tambm vais ter a Mana Aime 
a fazer fogo contra ti, se no estou
                 possvel, embora eu duvide. Seja como for, pelo que ouvi dizer. os        em erro.
gnios so pessoas com quem devemos antipatizar de todo o corao. A                - Ela j no gosta de 
mim - disse ajoanna. Falou pensativamente, mas
propsito, por aqui no vais encontrar gnios.        com uma certa satisfao.        - disse eu severamente
        A Joanna ficou a pensar por um momento, com a cabea inclinada para                - Viemos para 
c para termos paz e sossego

1
um lado.        e tenciono fazer com que os tenhamos. coisas que iriam
        Receio que no - disse ela pesarosamente.                Mas paz e sossego eram as ltimas
        os ter.

        Vais ter de recorrer a Owen Griffith - disse eu. -  o nico homem disponvel da localidade. A 
menos que contes o velho coronel Appleton. Esteve a maior parte da tarde a olhar para ti como um co de 
caa esfomeado. A Joanna riu-se. - Esteve, no esteve? Foi muito embaraoso. - No finjas. Tu nunca ficas 
embaraada. Ajoanna conduziu o carro em silncio atravs do porto e at  garagem.

40        41
CAPTULO QUATRO

        Foi cerca de uma semana mais tarde, acho eu, que a Partridge me informou que Mrs. Baker 
gostaria de falar comigo por uns momentos, se eu tivesse a amabilidade de a receber.
        0 nome Mrs. Baker no me dizia absolutamente nada.
        - Quem  Mrs. Baker? - disse eu desorientado. - Ela no pode falar com Miss Joanna?
        Mas parecia que era a mim que ela desejava ver. Fiquei ainda a saber que Mrs. Baker era a me da 
empregada Beatrice.
        Tinha-me esquecido da Beatrice. H quinze dias que me apercebera de uma mulher de meia-idade 
com madeixas de cabelo grisalho, que estava geralmente de joelhos e que, quando eu aparecia, recuava 
como um caranguejo do quarto de banho, e das escadas, e dos corredores, e depreendi, suponho, que ela 
era a nossa nova Mulher a Dias. Fora isso, a complicao da Beatrice tinha-se desvanecido do meu 
esprito.
        No pude recusar receber a me da Beatrice, principalmente quando soube que a joanna tinha 
sado, mas fiquei, devo confessar, um pouco nervoso com a perspectiva. Esperava sinceramente no ser 
acusado de ter brincado com os sentimentos da rapariga. Amaldioei para comigo as actividades 
rancorosas dos autores de cartas annimas, ao mesmo tempo que, em voz alta, mandei que trouxessem a 
me da Beatrice  minha presena.
        Mrs. Baker era uma mulher grande, cheia e de tez tisnada, com uma rpida fluncia de discurso. 
Fiquei aliviado ao notar que no havia sinais de ira nem de acusao.
        - Espero, sir - disse ela, comeando logo que a porta se fechou atrs da Partridge -, que me perdoe 
a liberdade que tomei ao vir falar consigo. Mas pensei que o senhor era a pessoa certa a quem recorrer, e 
ficar-lhe-ia muito grata se me dissesse o que devo fazer nestas circunstncias, porque na minha

42

opinio, sir, alguma coisa tem que ser feita, e eu nunca fui pessoa de perder tempo, e o que eu digo  que 
no vale a pena lamentarmo-nos e gemermos mas sim ~<Levantarmo-nos e agirmos>~, como disse o 
vigrio ainda no sermo de h duas semanas.

        Fiquei levemente desorientado e pensei que me tinha escapado alguma coisa essencial da 
conversa.
        - Certamente - disse eu. - No quer... hum!... sentar-se, Mrs. Baker? Com certeza que terei muito 
prazer em... hum... a ajudar, se puder...
        Detive-me, expectante.
        - Obrigada, sir - Mrs. Baker sentou-se na beira de uma cadeira. -  muita bondade sua, com 
certeza. E ainda bem que vim falar consigo, eu disse  Beatrice, estava ela a gritar e a chorar na cama, Mr. 
Burton vai saber o que fazer, disse eu, por ser um cavalheiro de Londres. E alguma coisa tem que ser feita, 
com os rapazes novos to impetuosos e sem darem ouvidos  razo, e sem escutarem uma palavra que 
seja do que uma rapariga diz e, seja como for, se fosse comigo, disse eu  Beatrice, pagava-lhe na mesma 
moeda, e ento a rapariga l do moinho?

        Fiquei mais confuso do que nunca.

teceu?

        - Lamento - disse eu. - Mas no estou a perceber. 0 que  que acon-

        - So as cartas, sir. Cartas malvolas... indecentes tambm, a usarem palavras daquelas e tudo. 
Ainda piores do que as que j li na Bil:)Iia.
        Sem prestar muita ateno ao que aqui poderia ter sido um desvio interessante na conversa, disse 
desesperadamente:
        - A sua filha tem recebido mais cartas?
        - No, sir. Ela s recebeu aquela. Aquela na altura em que saiu daqui.
        - No havia razo absolutamente nenhuma... - comecei eu, mas Mrs. Baker interrompeu-me, firme 
e respeitosamente:
        - No precisa de me dizer, sir, que aquilo que escreveram eram tudo mentiras maldosas. Tenho a 
palavra de Miss Partridge quanto a isso, e de facto eu sabia por mim. 0 senhor no  esse tipo de 
cavalheiro, isso sei eu bem, e ainda por cima invlido e tudo. Eram mentiras maldosas e falsas, mas 
mesmo assim eu disse  Beatrice que era melhor ir-se embora, sabe como so os falatr-ios, sir. No h 
fumo sem fogo,  o que as pessoas dizem. E uma rapariga tem de ter muito cuidado. E alm disso a 
prpria rapariga sentiu

43
vergonha por causa do que foi escrito, por isso eu disse ((Muito bem~>  Beatrice quando ela disse que 
no voltava c, embora ambas lamentemos o incmodo to...

        Incapaz de encontrar uma sada para esta frase, Mrs. Baker respirou fundo e recomeou.
        - E isso, esperava eu, acabaria com os falatrios maldosos. Mas agora o George da garagem,  
com ele que a Beatrice anda, recebeu uma. A dizer coisas horrveis sobre a nossa Beatrice, e que ela anda 
com o Tom do Fred Ledbetter, e eu posso garantir-lhe, sir, que a rapariga s  delicada com ele e s lhe d 
os bons-dias, por assim dizer
        Fiquei com a cabea a andar  roda com esta nova complicao do Tom de Mr. Ledbetter
        - Deixe-me ver se percebi - disse eu. - 0 rapaz da Beatrice recebeu uma carta annima a fazer 
acusaes sobre ela e outro rapaz?
        - Isso, sir, e escrito de uma forma nada agradvel... usaram palavras horrveis e isso fez 
enlouquecer o George, fez mesmo, e ele veio dizer  Beatrice que no tolerava aquele tipo de coisas da 
parte dela, e que no ia permitir que ela andasse com outros homens nas costas dele, e ela disse que era 
tudo mentira, e ele disse que no h fumo sem fogo, disse ele, e saiu de roldo, furioso, e a Beatrice 
afligiu-se muito, pobre rapariga, e eu disse que ia pr o meu chapu e vim falar logo consigo, sir.
        Mrs. Baker fez uma pausa e olhou para mim, expectante, como um co  espera de recompensa 
depois de ter feito um truque particularmente inteligente.
        - Mas por que veio ter comigo? - perguntei.
        - Soube, sir, que tambm recebeu uma dessas cartas maldosas, e pensei, sir, que sendo um 
cavalheiro de Londres, saberia o que fazer sobre elas.
        - Se fosse a si - disse eu -, iria  Polcia. Tem de se acabar com este tipo de coisas.
        Mrs. Baker pareceu profundamente chocada.
        - Oh! no, sir. Eu no posso ir  Polcia.
        - Por que no?
        - Nunca estive envolvida com a Polcia, sir Nunca nenhum de ns esteve.
        - Provavelmente no. Mas s a Polcia pode resolver este tipo de coisas.  o seu trabalho.

44

polcia.

- Ir falar com Bert Rundle?

Eu sabia que Bert Rundle era o polcia.

- Deve haver, certamente, um sargento ou um inspector na esquadra de

- Eu, a entrar numa esquadra?

        A voz de Mrs. Baker exprimia censura e incredulidade. Comecei a ficar aborrecido.
        -  o nico conselho que posso dar-lhe.
        Mrs. Baker ficou calada, obviamente pouco convencida. Ansiosa e veemente, disse:
        -  preciso fazer parar estas cartas, sir,  preciso faz-las parar. Mais cedo ou mais tarde vo fazer 
estragos.
        - Pafece-me que j fizeram - disse eu.
        - Eu quero dizer, violncia, sir. Estes jovens ficam violentos nos seus sentimentos... e os mais 
velhos tambm.
        Perguntei:
        - H muitas destas cartas a circular?
        Mrs. Baker acenou que sim.
        - Est a ficar cada vez pior, sir. Mr. e Mrs. Beadle do Blue Boar, foram sempre to felizes, e agora 
esta carta chega e f-lo pensar em coisas... coisas que no so assim, sir.
        - Mrs. Baker - inclinei-me para a frente - tem alguma ideia, uma ideia que seja, de quem anda a 
escrever estas cartas abominveis?
        Para grande surpresa minha, ela acenou afirmativamente com a cabea.
        - Temos a nossa ideia, sir. Sim, temos todos uma ideia bastante clara.
        - Quem ?
        Eu supusera que ela teria relutncia em mencionar um nome, mas replicou prontamente:
        -  Mrs. Cleat,  o que todos achamos, sir.  Mrs. Cleat de certeza.

        Escutara tantos nomes nessa manh, que fiquei muito confuso. Pergun-

tei:

        - Quem  Mrs. Cleat?

        Descobri que Mrs. Cleat era a mulher de um jardineiro idoso. Vivia numa casa na estrada que ia dar 
ao Moinho. As minhas perguntas posteriores s tiveram respostas pouco satisfatrias. Quando lhe 
perguntei por que  que

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Mrs. Cleat escreveria estas cartas, Mrs. Baker s disse vagamente x~'T a dar com ela>~.
        Finalmente deixei-a ir-se embora, repetindo mais uma vez o conselho de que devia ir  Polcia, 
conselho que Mrs. Baker, pelo que vi, no iria seguir. Fiquei com a impresso de que a tinha desapontado.
        Pus-me a reflectir sobre o que ela tinha dito. Por muito vagas que fossem as provas, decidi que se 
a aldeia toda concordava que Mrs. Cleat era a culpada, isso era provavelmente verdade. Decidi ir consultar o 
Griffith sobre o assunto. Era de presumir que ele conhecesse a tal mulher Cleat. Se ele achasse 
aconselhvel, ele ou eu podamos sugerir  Polcia que era ela a causa desta contrariedade crescente.
        Decidi chegar mais ou menos na altura em que calculava que o Griffith estaria a acabar as 
consultas. Quando o ltimo doente saiu, entrei no consultrio.
        - Ol!  voc, Burton.
        Descrevi-lhe em linhas gerais a minha conversa com Mrs. Baker, e transmiti-lhe a convico de que 
Mrs. Cleat era a responsvel. Deixando-me um tanto desapontado, o Griffith abanou a cabea.
        - No  to simples como isso - disse ele.
        - No acha que essa tal Cleat  a responsvel?
        - Pode ser. Mas acho muito improvvel.
        - Ento, por que  que todos pensam que  ela?
        Ele sorriu.
        - Ob! - disse ele - no percebe? Mrs. Cleat  a bruxa local.
        - Credo! - exclamei eu.
        - Sim, parece muito estranho hoje em dia, mas no fundo  isso. Sabe ainda sobrevive o sentimento 
de que h certas pessoas, certas famlias, por exemplo, a quem no  prudente ofender. Mrs. Cleat veio de 
uma famlia de x~feiticeiras>>. E receio que ela se tenha esforado seriamente para cultivar a lenda.  uma 
mulher excntrica, com um sentido de humor sardnico e acutilante. Se uma criana fazia um golpe num 
dedo, ou caa, ou adoecia com papeira, bastava-lhe acenar afirmativamente com a cabea e dizer x~Sim, 
ele roubou-me mas a semana passada>> ou x~Puxou o rabo ao meu gato>~. Depressa as mes 
afastavam os filhos, e outras mulheres traziam mel ou um bolo feito por elas para darem a Mrs. Cleat, a fim 
de se manterem nas suas

46

boas graas e ela no lhes,~(desejar mal>>.  uma superstio e uma tolice, mas acontece. Por isso  
natural que agora pensem que ela est na origem disto.
- Mas no ?
- Oh, no! Ela no  o tipo. No ... no  to simples como isso.
- Tem alguma ideia? - olhei para ele com curiosidade.
Ele abanou a cabea, mas os seus olhos estavam ausentes.

        - No - disse ele. - No fao a mnima ideia. Mas no me agrada esta situao, Burton... algum 
mal h-de surgir disto.

II

        Quando voltei para casa, encontrei a Megan sentada nos degraus da varanda com o queixo 
pousado nos joelhos.
        Cumprimentou-me com a sua sem-cerimnia habitual.
        - Ol! - disse. - Acha que posso almoar c?
        - Com certeza - disse eu.
        - Se forem costoletas ou qualquer coisa embaraosa desse gnero e no chegar para todos, diga-
me e pronto - gritou a Megan quando eu me virei para ir avisar a Partridge de que seramos trs para 
almoar.
        Creio que a Partridge fungou. Sem dvida que conseguiu transmitir, sem dizer palavra de espcie 
nenhuma, que no tinha grande considerao por essa Miss Megan.
        Voltei para a varanda.
        - Pode ser? - perguntou a Megan ansiosamente.
        - Com certeza - disse eu. - Estufado de carneiro.
        - Oh! bem, isso  mais ou menos como um jantar de co, no ? Quero dizer,  principalmente 
batatas e aroma.
        - Pois  - disse eu.
        Peguei na cigarreira e ofereci um cigarro  Megan. Ela corou.
        - Que gentileza a sua!
        - No queres um?
        - No, acho que no, mas foi muito ntil da sua parte oferecer-mo... como se'eu fosse uma pessoa 
autntica.

        - No s uma pessoa autntica? - disse eu divertido.

47
        A Megan abanou a cabea; depois, mudando de assunto, estendeu uma perna comprida e 
poeirenta para eu inspeccionar.
        - Passajei as minhas meias - anunciou orgulhosamente.

        No sou uma autoridade em passajar, mas ocorreu-me que aquele estranho borro pregueado, de 
l violentamente constrastante, talvez no fosse um resultado muito bom.
 muito mais desconfortvel do que o buraco - disse a Megan.
Tem ar disso - concordei.
- A sua irm  boa a passajar?
        Tentei lembrar-me se alguma vez observara algum trabalho manual da joanna nesse mbito.
No sei - tive de confessar.
Bem, que faz ela quando tem um buraco nas meias?

        Acho - disse eu com relutncia - que as deita fora e compra outro

par.

        - Muito sensato - disse a Megan. - Mas eu no posso fazer isso. Agora tenho uma mesada: 
quarenta libras por ano. No d para grande coisa.
        Concordei.
        - Se ao menos eu usasse meias pretas, podia pintar as pernas - disse a Megan tristemente. - Era 
o que eu fazia sempre na escola. Miss Batworthy', a professora que verificava os nossos remendos, era 
como o nome: via mal como um morcego. Era muito til.
        - Devia ser - disse eu.
        Ficmos em silncio enquanto eu fumava o meu cachimbo. Era um silncio muito amistoso.
        A Megan quebrou-o para dizer, sbita e violentamente:
        - Suponho que me acha horrvel, como toda a gente?
        Fiquei to surpreendido que o cachimbo me caiu da boca. Era um espuma de mar que comeava a 
adquirir uma cor bonita, e partiu-se. Colericamente, disse  Megan:
        - Olha o que fizeste.

        10 nome Batworthy  composto de bat (morcego) e worffiy (digno); traduzido  letra seria ~,digno 
de um morcego~>. (N. da T)

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        Em vez de ficar incomodada, aquela mida incompreensvel limitou-se a sorrir de orelha a orelha.
        - Gosto de si - disse ela.

        Foi uma observao muito calorosa.  a observao que uma pessoa imagina, talvez 
erroneamente, que um co faria se pudesse falar Ocorreu-me que a Megan, apesar de se parecer com um 
cavalo, tinha o carcter de um co. Inteiramente humana no era de certeza.
        - Que disseste antes da catstrofe? - perguntei, apanhando cuidadosamente os fragmentos do meu 
querido cachimbo.
        - Disse que supunha que me achava horrvel - disse a Megan, mas no no mesmo tom em que 
falara antes.
        - Por que havia de achar?
        - Porque sou - disse a Megan solenemente.
        - No sejas estpida - disse-lhe com brusquido.
        A Megan abanou a cabea.
        -  precisamente isso. Na verdade, no sou estpida. As pessoas acham que sim. No sabem 
que, c dentro, eu sei exactamente como elas so e que as odeio o tempo todo.
        - Odeia~las?
        - Sim - disse a Megan.
        Os seus olhos, aqueles olhos melanclicos e muito pouco infantis, fitaram os meus a direito, sem 
pestanejarem. Foi um olhar longo e desolado.
        - Tambm odiaria as pessoas, se fosse como eu - disse ela. - Se no fosse desejado.
        - No achas que ests a ser um pouco mrbida? - perguntei.
        - Sim - disse a Megan. -  o que as pessoas dizem sempre quando dizemos a verdade. E  
verdade. No sou desejada e no percebo porqu. A mam no gosta de mim nem um bocadinho. Fao-lhe 
lembrar, acho eu, o meu pai, que foi cruel com ela e que, pelo que ouo dizer, era muito desagradvel. S 
que as mes no podem dizer que no querem os filhos e irenr-se embora, e pronto. Nem podem com-los. 
Os gatos comem as crias de que no gostam.  muitssimo sensato, acho eu. Sem desperdcios nem 
porcaria. Mas as mes humanas tm de ficar com os filhos e de cuidar deles. No foi muito mau enquanto 
puderam mandar-me para a escola, mas sabe, do que a mam gostava realmente era que fosse s ela e'o 
meu padrasto e os rapazes.

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        - Continuo a achar que ests a ser mrbida, Megan - disse devagar -, mas admitindo que uma parte 
do que disseste  verdade, por que no te vais embora para viveres a tua vida?
        Ela sorriu-me de um modo muito pouco infantil.
        - Quer dizer que devia seguir uma carreira? Ganhar a minha vida?
        - Sim.
        - Em qu?
        - Podias preparar-te para qualquer coisa, suponho eu. Estenodactilografia, contabilidade.

        No creio que conseguisse. Sou estpida para fazer coisas. E alm

disso...

- Ento?

        Ela virara o rosto, e agora voltava a vir-lo lentamente. Estava enrubescido e havia lgrimas nos 
seus olhos. Agora falava, de novo com toda a infantilidade na voz.
        - Por que haveria de partir? E ser forada a partir? Eles no me querem, mas eu vou ficar. Vou ficar 
e vou fazer com que se arrependam. Porcos odiosos! Detesto toda a gente de Lymstock- Acham todos que 
sou estpida e feia. Hei-de mostrar-lhes. Hei-de mostrar-lhes. Eu vou...
        Era uma fria infantil, singularmente pattica.
        Ouvi passos no cascalho, mesmo na esquina da casa.
        - Levanta-te - disse eu rudemente. - Entra em casa pela sala de visitas. Sobe ao primeiro andar e 
vai ao quarto de banho.  ao fundo do corredor Lava a cara. Depressa.
        Ela levantou-se desajeitadamente e desapareceu atravs da porta envidraada no momento em que 
a joanna contornava a esquina da casa.
        - UP estou cheia de calor - gritou ela. Sentou-se ao p de mim e refrescou-se com o leno tirols 
que antes trazia enrolado na cabea. - Contudo, acho que estou a amaciar estes malditos sapatos. Andei 
quilmetros. Aprendi uma coisa, os sapatos no deviam ter estes buracos de fantasia. Os picos das 
giestas entram por eles dentro. Sabes, jerry, devamos arranjar um co.
        - Tambm acho - disse eu. - A propsito, a Megan vem almoar.
        - Vem? Que bom!
        - Gostas dela? - perguntei.

so

        - Acho que  uma criana trocada ao nascer - disse a joanna. - Uma coisa que foi deixada numa 
soleira, sabes, enquanto as fadas levavam a genuna com elas.  muito interessante encontrar uma criana 
trocada. UP. tenho de ir l cima refrescar-me.
        - Ainda no - disse eu -, a Megan est l.
        - Oh! ela tambm foi caminhar?
        A Joanna pegou no espelho e observou o rosto, longa e cuidadosamente. - Acho que no gosto 
deste batom - anunciou pouco depois.
        A Megan saiu pela porta envidraada. Estava calma, medianamente limpa, e no mostrava sinais 
da tempestade recente. Olhou com hesitao para a joanna.
        - Ol! - disse a joanna, ainda preocupada com o rosto. - Ainda bem que vieste almoar. Meu Deus! 
tenho uma sarda no nariz. Tenho de fazer qualquer coisa. As sardas so to determinadas e escocesas!
        A Partridge veio c fora e disse com frieza que o almoo estava servido.
        - Vamos - disse a joanna, levantando-se. - Estou a morrer de fome.
        Deu o brao  Megan, e entraram juntas em casa.

51
900"

CAPTULO CINCO

        Estou a ver que houve uma omisso na minha histria. At agora, ainda quase no mencionei Mrs. 
Dane Caithrop, nem o Rev. Caleb Dane Calthrop.
        E, no entanto, tanto o vigrio como a mulher eram personalidades nicas. 0 prprio Dane Calthrop 
talvez fosse o ser mais alheado da vida de todos os dias que eu j conheci. A sua existncia centrava-se 
nos livros e no seu
g~l,
auinete de trabalho e nos seus extensos conhecimentos da histria da Igreja primitiva. Mrs. Dane Calthrop, 
por outro lado, estava aterradoramente a par de tudo. Talvez tenha adiado mencion-la intencionalmente, 
porque fiquei a tem-la um pouco desde o princpio. Ela era uma mulher de carcter e de conhecimentos 
quase olmpicos. No era, de modo nenhum, a esposa tpica de um vigrio - mas agora que escrevo isto, 
pergunto a mim prprio: que sei eu de esposas de vigrios?
        A nica de que lembro bem era uma criatura sossegada e apagada, dedicada a um marido grande 
e forte que pregava de um modo magntico. Tinha to pouca conversa geral, que era um enigma saber 
como manter uma conversao com ela.
        Fora isso, eu dependia da descrio de esposas de vigrios da fico, caricaturas de mulheres a 
meterem o nariz em tudo e a proferirem banalidades. Provavelmente,  um tipo que no existe.
        Mrs. Dane Caithrop nunca metia o nariz em lado nenhum, contudo, tinha um inquietante dom de 
saber coisas, e depressa descobri que quase toda a gente da aldeia a temia um pouco. No dava 
conselhos e nunca interferia, no entanto, para uma conscincia que no estivesse tranquila representava a 
Divindade personificada.
        Nunca vi mulher mais indiferente s coisas materiais que a rodeavam. Em dias quentes, andava de 
um lado para o outro a passos largos, vestida de tweed Harris, e debaixo de chuva e at de granizo, vi-a 
descer distraidamente

52

a rua da aldeia a toda a velocidade, com um vestido de algodo estampado com papodas. Tinha uma cara 
comprida e magra como um galgo, e uma sinceridade de discurso absolutamente devastadora.
        Fez-me parar na High Street no dia a seguir quele em que a Megan almoou connosco. Tive a 
habitual sensao de surpresa, porque a marcha de Mrs. Dane Calthrop mais parecia uma corrida do que 
uma caminhada e os seus olhos se fixavam sempre no horizonte distante, de forma que ficvamos com a 
certeza de que o seu objectivo real estava a cerca de dois quilmetros e meio de distncia.
        - Oh! - disse ela. - Mr Burton!
        Disse-o triunfalmente, como faria algum que tivesse resolvido um enigma especialmente 
inteligente.
        Admiti que era Mr. Burton, Mrs. Dane Calthrop deixou de se concentrar no horizonte e, em vez 
disso, pareceu tentar concentrar-se em mim.
        - Por que seria - disse ela - que eu queria falar consigo?
        Quanto a isso, no podia ajud-la. Ficou parada a franzir o sobrolho, profundamente perplexa.
        - Era qualquer coisa muito desagradvel - disse ela.
        - Lamento muito - disse eu, espantado.
        - Ali! - gritou Mrs. Dane Calthrop. - Odeio o meu amor com um H.  isso. Cartas annimas! Que 
histria  essa das cartas annimas que trouxe para c?
        - No fui eu que as trouxe - disse eu. - j c estavam.
        - Contudo, at o senhor chegar ningum recebera carta nenhuma disse Mrs. Dane Calthrop 
acusadoramente.
        - Receberam sim, Mrs. Dane Calthrop. 0 problema j tinha comeado.

        - Oh, meu Deus! - disse Mrs. Dane Calthrop. - Isto no me agrada

nada.

        Ficou ali parada, com os olhos ausentes e, mais uma vez, distantes. Disse:

        - No consigo deixar de pensar que est tudo errado. Aqui no somos assim. Inveja, claro, e 
malcia, todos os pecadilhos mesquinhos e malvolos, mas nunca pensei que houvesse algum que 
pudesse fazer isto... No, de facto, nu oca pensei. E isso aflige-me, porque eu devia saber.
        Os seus olhos bonitos regressaram do horizonte e encontraram-se com

53
os meus. Estavam preocupados e pareciam conter a perplexidade genuna de uma criana.
- Como  que havia de saber?
        - Em geral, sei. Sempre achei que  essa a minha funo. 0 Caleb prega uma boa e slida doutrina 
e administra os sacramentos.  essa a obrigao de um sacerdote, mas se se admite o casamento a um 
sacerdote, ento acho que  dever da esposa saber o que as pessoas sentem e pensam, ainda'que no 
possa fazer nada sobre o assunto. E eu no fao a menor ideia de quem  a mente que est...
        No acabou a frase, e acrescentou distraidamente:
        - E so cartas to absurdas!
        - Recebeu... hum... alguma?
        Hesitei em perguntar, mas Mrs. Dane Calthrop respondeu de forma perfeitamente natural, abrindo 
um pouco mais os olhos:
        - Oh! sim, duas... no, trs. Esqueci-me do que diziam exactamente. Qualquer coisa absurda 
sobre o Caleb e a professora, acho eu. Completamente absurdo, porque o Caleb no tem inclinao 
absolutamente nenhuma para a fornicao. Nunca teve. 0 que  uma sorte, sendo clrigo.
        - Certamente! - disse eu. - Certamente!
        - 0 Caleb seria um santo - disse Mrs. Dane Calthrop se no fosse um bocadinho intelectual de 
mais.
        No me senti qualificado para responder a esta crtica, e, seja como for, Mrs. Dane Calthrop 
continuou, saltando, de forma muito confusa, do marido para as cartas.
        - H tantas coisas que as cartas podiam dizer, mas no dizem!  isso que  to curioso.
        - S muito dificilmente eu acharia que elas pecavam por comedimento - disse eu amargamente.
        - Mas parece que no sabem nada. Nada sobre as coisas verdadeiras.
        - Que quer dizer?
        Os seus olhos bonitos e vagos encontraram-se com os meus.
        - Bem,  claro que h c bastante adultrio... e tudo o resto. Uma quantidade de segredos 
escandalosos. Por que  que o autor no os usa? - Fez uma pausa e depois perguntou abruptamente: - 
Que diziam na sua carta?
        - Sugeriam que a minha irm no  minha irm.

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- E ?
        Mrs. Dane Calthrop fez a pergunta com um interesse amigvel e despreocupado.
        - Sem dvida que a joanna  minha irm.
        Mrs. Dane Calthrop acenou que sim com a cabea.
        - Isso mostra-lhe o que eu quero dizer. Atrevo-me a dizer que h outras coisas...
        Os seus olhos claros e desinteressados fitaram-me pensativamente e, de repente, percebi por que 
 que Lymstock temia Mrs. Dane Calthrop.
        Na vida de todas as pessoas h captulos escondidos, que elas esperam nunca sejam conhecidos. 
Tive a impresso de que Mrs. Dane Calthrop os conhecia.
        Pela primeira vez na minha vida, fiquei positivamente encantado quando a voz cordial de Aime 
Griffith ressoou:
        - Ol, Maud! Ainda bem que te apanhei. Quero sugerir uma alterao da data para a Venda de 
Caridade. Bom dia, Mr. Burton.
        Continuou:
        - Tenho de entrar na mercearia para deixar a minha encomenda, depois vou ao Instituto. Convm-
te?
        - Sim, sim, est muito bem - disse Mrs. Dane Calthrop.
        Aime Griffith entmu na International Stores.
        - Coitada! - disse Mrs. Dane Calthrop.

        Fiquei perplexo. Com certeza que ela no podia estar com pena da

Aime!

        Seja como for, continuou:
        - Sabe, Mr. Burton, tenho muito medo...
        - Por causa deste assunto das cartas?

        - Sim, percebe, isto quer dizer... deve querer dizer... - Fez uma pausa, perdida em pensamentos, 
com os olhos semicerrados. Depois disse lentamente, como algum que resolve um problema. - Odio 
cego... sim, dio cego. Mas at um homem cego pode apunhalar no corao por mero acaso... E que 
aconteceria depois, Mr. Burton?
        Viramos a sab-lo antes que outro dia tivesse passado.

55
        li                - Oh! - disse a joanna.
                        Quando a Partridge saiu do quarto, ela bebeu o ch, vestiu um roupo e
        Foi a Partridge que trouxe as noticias da tragdia. A Partridge adora        foi ter comigo para me 
dar a notcia.
calamidades. 0 nariz dela contorce-se sempre estaticamente quando tem de                Pensei naquilo 
que Owen Griffith tinha dito. Mais cedo ou mais tarde, o
dar ms notcias de qualquer tipo.        tiro no escuro acertaria no alvo. Acontecera com Mrs. 
Symmington. Ela,
        Entrou no quarto da joanna com o nariz a trabalhar horas extraordi-        aparentemente a mais 
improvvel das mulheres, tivera um segredo        Era

nrias, os olhos brilhantes e a boca puxada para baixo numa tristeza exage-        verdade, reflecti, que 
apesar de toda a sua argcia no era uma mulher com
rada. - H notcias terrveis esta manh, miss - observou ela ao subir os        grande resistncia. Era do tipo 
anmico e possessivo que se vai abaixo facil
estores.        mente.
        Com os seus hbitos londrinos, a Joanna precisa de um minuto ou dois                A Joanna deu-
me uma cotovelada e perguntou-me em que estava a
para ficar completamente consciente de manh. Disse: - Hum! Ah! - e        pensar.
virou-se na cama sem mostrar muito interesse.                Repeti-lhe o que o Owen tinha dito.
                        -  claro - disse a joanna abespinhada - que ele tinha de saber tudo
        A Partridge pousou junto dela o tabuleiro com o ch matinal e reco-        sobre o assunto. Aquele 
homem pensa que sabe tudo.
meou: - Foi terrvel! Chocante! Nem queria acreditar quando soube.                - Ele  esperto - disse 
eu.
        - 0 que  que foi terrvel? - disse ajoanna, esforando-se por despertai:                -  pretensioso - 
disse a joanna. E acrescentou: - Abominavelmente
        - A pobre Mrs. Symmington. - Fez uma pausa dramtica. - Morta.        pretensioso!
        - Morta? - a joanna sentou-se na cama, agora completamente acor-                Passado um 
momento, disse:
dada.                - Que horror para o marido, e para a mida! 0 que achas que a Megan
        - Oh, no, Partridge!        vai sentir?
        A Joanna estava verdadeiramente chocada - Mrs. Symmington no era,                Eu no fazia a 
mnima ideia e disse-lho. Era curioso que nunca conse
nem de longe, o tipo de pessoa que se associa a tragdias.        gussemos calcular o que a Megan iria 
pensar ou sentir.
        - Sim, miss,  verdade. F-lo deliberadamente. Contudo, foi levada a                A joanna anuiu 
e disse:
isso, a pobrezinha.                - No, com crianas trocadas nunca se sabe.
        - Levada a isso? - nessa altura, ajoanna teve uma suspeita da verdade.                Um momento 
depois, disse:

        - No         ?        - Achas        gostarias        estava a pensar se ela gostaria de ficar connosco
        Os seus olhos interrogaram a Partridge, e a Partridge acenou afirma-        um dia ou dois.  um 
grande choque para uma rapariga daquela idade.
tivamente.                        - Podamos ir l sugerir isso - concordei.
        - Exactamente, miss. Uma daquelas cartas indecentes!                - As crianas ficam bem - disse 
a joanna. - Tm aquela preceptora.
        - Que dizia?                Mas parece-me que ela  o gnero de pessoa que faria enlouquecer 
algum
        Mas isso, para tristeza sua, a Partridge no conseguira saber        como a Megan.
        - So coisas abominveis - disse ajoanna. - Mas no percebo porque                Eu achava que 
era muito possvel. Era capaz de imaginar Elsie Holland a
fariam algum querer matar-se.                proferir banalidade atrs de banalidade e a sugerir inmeras 
chvenas de
        A Partridge fungou e depois disse intencionalmente:        ch. Umwcriatura amvel, mas no, 
pensava eu, a pessoa indicada para uma
        - A no ser que fossem verdadeiras, miss.        rapariga sensvel.
                56                        57
        Eu prprio tinha pensado em afastar a Megan, e fiquei satisfeito por a joanna ter pensado nisso 
espontaneamente, sem ser instada por mim.
        Depois do pequeno-almoo descemos at  casa dos Symmingtons.
        Estvamos ambos um pouco nervosos. A nossa chegada podia parecer pura curiosidade macabra. 
Felizmente, encontrmos Owen Griffith a sair pelo porto. Parecia preocupado e absorto.
        Cumprimentou-me, contudo, com algum entusiasmo.
        - Oh! ol, Burton. Ainda bem que o encontro. Aconteceu o que eu temia que, mais cedo ou mais 
tarde, acontecesse. Um caso terrvel!
        - Bom dia, Dr Griffith - disse a joanna, usando a voz que guarda para uma das nossas tias surdas.
        0 Griffith estremeceu e corou.
        - Oh... oh! bom dia, Miss Burton.
        - Pensei que talvez no me tivesse visto - disse a joanna.
        Owen Griffith ficou ainda mais corado. A sua timidez envolvia-o como uma capa.
        - Estou... estou to pesaroso... absorto, que no a v
        A joanna continuou implacavelmente: - No fim de contas, sou de tamanho natural.
        - Meramente um busto - disse-lhe eu num aparte severo. Depois continuei:
        - Griffith, eu e a minha irm estvamos a pensar se seria bom para a mida ficar connosco um dia 
ou dois. Que acha? No quero intrometer-me, mas deve ser muito dificil para a pobrezinha. Que acha que o 
Symminglon pensaria disto?
        0 Griffith considerou a ideia por uns momentos.
        -  uma excelente ideia - disse finalmente. - Ela  uma rapariga estranha e nervosa, e seria bom 
afast-la de tudo aquilo. Miss Holland est a fazer maravilhas, tem cabea, mas j tem muito que fazer 
com as duas crianas e o prprio Symmington. Ele est muito abatido, desnorteado.
        - Foi... - hesitei - suicdio?
        0 Griffith acenou que sim.
        - Oh! sim. Um acidente est fora de questo. Ela escreveu ~XNo posso continuar>> num pedao 
de papel. A carta deve ter chegado no correio da

58

tarde de ontem. 0 envelope estava cado no cho, junto  cadeira dela, e a carta foi amarfanhada numa bola 
e atirada  lareira.
- Que...
Parei, muito escandalizado comigo mesmo.
- Peo-lhe desculpa - disse eu.
0 Griffith deu um sorriso breve e infeliz.
        - Nem precisava de perguntar. A carta vai ter de ser lida no inqurito. No h como evitar, o que  
uma pena. Era o gnero de coisa habitual, expressa no mesmo estilo revoltante. A acusao especfica era 
que o segundo rapaz, o Colin, no  filho do Symmington.
        - Acha que  verdade? - exclamei com incredulidade.
        0 Griffith encolheu os ombros.
        - No tenho meios para formar uma opinio. S aqui estou h cinco anos. Pelo que pude ver, os 
Symmingtons eram um casal sereno e feliz, dedicados um ao outro e aos filhos.  verdade que o rapaz no 
se parece especialmente com os pais (para comear, tem cabelo ruivo claro), mas muitas vezes, uma 
criana parece-se a um av ou av.
        - Pode ter sido essa falta de semelhana que instigou a acusao especfica. Um tiro no escuro, 
revoltante e muito inoportuno.
        - Muito possivelmente. De facto,  muito provvel. No tem havido um conhecimento muito preciso 
por trs destas cartas annimas, s malevolncia e malcia descontroladas.
        - Mas acontece que acertaram no alvo - disse a joanna. - No fim de contas, no caso contrrio ela 
no se teria matado, pois no?
        Hesitante, o Griffith disse:
        - No tenho assim tanta certeza disso. Ela andava doente h algum tempo, neurtica, histrica. 
Estava a trat-la dos nervos.  possvel, acho eu, que o choque de receber uma carta assim, expressa 
naqueles termos, lhe tenha provocado um tal estado de pnico e desnimo que ela tenha decidido matar-
se. Pode ter-se convencido de que o marido talvez no acreditasse nela se negasse a histria, e a vergonha 
e o desgosto podem t-la dominado to intensamente que lhe desequilibraram temporariamente o juzo.
        - Suicdio num momento de desequilibrio mental - disse a joanna.
        - Exactamente. Justifica-se perfeitamente, acho eu, que eu apresente esse ponto de vista no 
inqurito.

59
- Estou a perceber - disse a joanna.
Houve qualquer coisa na voz dela que fez o Owen dizer:
        -  perfeitamente justificado! - e numa voz zangada acrescentou: No concorda, Miss Burton?
        - Oh! sim, concordo - disse a joanna. - No seu lugar, faria exactamente o mesmo.
        0 Owen olhou para ela hesitante, depois afastou-se devagar pela rua abaixo. Eu e a joanna 
seguimos e entrmos na casa.
        A porta da frente estava aberta e pareceu-nos mais fcil do que tocar  campainha, principalmente 
porque ouvimos a voz de Elsie Holland l dentro.
        Estava a falar com Mr Symmington que, encolhido numa cadeira, parecia completamente aturdido.
        - No, a srio, Mr Syrnmington, tem de comer qualquer coisa. No tomou o pequeno-almoo, 
aquilo a que eu chamo um pequeno-almoo decente, e no comeu nada ontem  noite, e com o choque e 
tudo isso, ainda adoece e vai precisar de todas as suas foras. Foi o que o doutor disse antes de se ir 
embora.
        0 Symmington disse numa voz aptica:
 muito amvel, Miss Holland, mas...
        Uma bela chvena de ch quente - disse Elsie Holland, impelindo com firmeza a beberagem na 
direco dele.
        Pessoalmente teria dado ao pobre diabo um whisky forte com soda. Parecia estar a precisar 
Contudo, ele aceitou o ch e disse, olhando para Elsie Holland:

        - No sei como agradecer-lhe o que
Holland. Tem sido absolutamente magnfica.
        A rapariga corou e pareceu satisfeita.
        -  muito amvel da sua parte dizer isso, Mr. Symmington. Tem de me deixar fazer tudo o que 
puder para ajudar No se preocupe com as crianas, eu cuido delas, e j acalmei as criadas, e se puder 
fazer alguma coisa, escrever cartas ou fazer telefonemas, no hesite em me pedir
        -  muito amvel - disse o Symmington de novo.
        Ao virar-se, Elsie Holland viu-nos e veio apressadamente at  entrada.
        - No  terrvel? - disse ela num sussurro.
        Olhando para ela, pensei que era de facto uma rapariga muito bonita.

fez e o que est a fazer, Miss

60

Amvel, competente, eficaz numa emergncia. Os seus magnficos olhos azuis estavam levemente orlados 
de cor-de-rosa, mostrando que tinha um corao suficientemente sensvel para chorar pela morte da patroa.
        - Podemos falar consigo um momento? - pediu ajoanna. - No queremos incomodar Mr. 
Symmington.
        Elsie Holland acenou que sim compreensivamente e conduziu-nos  sala de jantar no outro lado do 
hall.
        - Tem sido horrvel para ele - disse ela. - Foi um grande choque! Quem havia de pensar que podia 
acontecer uma coisa destas? Claro que agora me apercebo que ela andava estranha h j algum tempo. 
Muito nervosa e chorosa. Pensei que era por razes de sade, embora o Dr Griffith dissesse sempre que 
ela no tinha nada. Mas estava nervosa e irritadia, e havia dias em que uma pessoa no sabia como lhe 
agradar.
        - Na verdade - disse a joanna -, viemos c para saber se poderamos levar a Megan para passar 
uns dias connosco, isto , se ela quiser ir.
        Elsie Holland pareceu muito surpreendida.
        - A Megan? - disse hesitante. - Realmente, no sei. Quero dizer  muito amvel da vossa parte, 
mas ela  uma rapariga to estranha! Nunca se sabe o que vai dizer ou sentir sobre as coisas.
        A joanna disse de modo bastante vago:
        - Pensmos que talvez fosse uma ajuda.
        - Oh! sim, quanto a isso, era com certeza. Quero dizer, tenho de cuidar dos rapazes (neste 
momento esto com a cozinheira, e o pobre Mr. Symmington ... precisa tanto que cuidem dele como 
qualquer outra pessoa, e tenho tanto que fazer e de que me ocupar. De facto, no tenho muito tempo para 
tratar da Megan. Acho que ela est l em cima no antigo quarto das crianas, no ltimo andar. Parece 
querer afastar-se de toda a gente. No sei se...
        A joanna lanou-me um olhar vago. Esgueirei-me apressadamente do compartimento e subi as 
escadas.
        0 antigo quarto das crianas ficava l em cima de tudo. Abri a porta e entrei. A sala l de baixo 
dava para o jardim das traseiras, e os estores no tinham sido descidos. Mas neste quarto, virado para a 
rua, eles estavam decorosamente puxados para baixo.
        Na penumbra indistinta, vi a Megan. Estava encolhida num div

61
1
colocado contra a parede mais afastada, e fez-me lembrar imediatamente                Dei-lhe uma palmadinha 
amistosa nas costas e ela lanou-me um olhar
um animal aterrorizado a esconder-se. Parecia petrificada de medo.        agradecido e desapareceu num 
quarto. Desci as escadas.
        - Megan - disse eu.                        Encontrei a Megan - disse eu. - Ela vem.
                                Oh! ora, isso  muito bom - exclamou Elsie Holland. - Vai distrair
        Avancei e adoptei, inconscientemente o tom que adoptamos quando
queremos confortar um animal assustado. Na verdade, at me espanta no        -se.  uma rapariga 
muito nervosa, sabem. Muito dificd. Vai ser um alvio sen
lhe ter estendido uma cenoura ou um bocado de acar. Era o que me        tir que no tenho de me 
preocupar com ela, alm de tudo o resto. E muito
apetecia.        amvel da sua parte, Miss Burton. Oxal ela no seja um incmodo. Meu
        Ela fitou-me, mas no se mexeu, e a sua expresso no se alterou.        Deus!  o telefone. 
Tenho de ir atender. Mr Symmington no est em con
        - Megan - disse eu de novo. - Eu e a joanna viemos perguntar-te se        dies.
gostarias de ficar connosco algum tempo.                Precipitou-se para fora da sala.
        A voz dela veio abafada da penumbra indistinta.                        Um verdadeiro anjo auxfliador! - 
disse a joanna.
        - Ficar convosco? Na vossa casa?                        Disseste isso de uma maneira muito 
desagradvel - observei eu. -
        - Sim.        Ela  uma rapariga simptica, amvel e obviamente muito eficiente.
        - Quer dizer que vai levar-me daqui?                - Muito. E ela sabe-o.
        - Sim, minha querida.                - Isto  indigno de ti, joanna - disse eu.
        De repente, comeou a tremer toda. Era assustador e muito comovente.                - Queres dizer 
x~por que  que a rapariga no h-de fazer o que lhe com
        - Oh, leve-me daqui! Por favor.  horrvel estar aqui e sentir~me to m.        pete>>?
        Aproximei-me dela e as suas mos prenderam-me a manga do casaco.                - Exactamente.
        - Sou uma grande covarde. No sabia que era to covarde.                - Nunca suportei ver 
pessoas satisfeitas com elas mesmas - disse a
        - No faz mal, cara linda - disse eu. - Estas coisas abalam um pouco.        joanna. - Faz despertar 
todos os meus piores instintos. Como  que
Anda da.        encontraste a Megan?
        - Podemos ir j? Sem esperar um minuto?                - Encolhida num quarto escurecido, 
parecia uma gazela ferida.
        - Bem, tens de juntar algumas coisas, suponho.                - Pobre mida. Vem de bom grado?
        - Que tipo de coisas? Porqu?                - Aproveitou logo a oportunidade.
        - Minha querida - disse eu. - Podemos providenciar-te uma cama e                Uma srie de 
rudos surdos na entrada anunciaram a descida da Megan
uma banheira e tudo o resto, mas diabos me levem se te empresto a minha        e da mala. Fui l fora e 
tirei-lha. A Joanna, atrs de mim, disse insistente
escova de dentes.        mente:
        Deu uma risadinha fraca.                - Vamos l. j recusei duas vezes um chazinho quente.
        - Percebo. Acho que hoje estou estpida. No ligue. Vou pr umas coi-                Fomos para o 
carro. Aborreceu-me que tivesse de ser a joanna a atirar
        sas numa mala. No        no se vai embora? Espera por mim?        com a mala l para dentro. 
Agora j podia andar com uma bengala, mas no
        - Estarei na entrada.                conseguia fazer proezas atlticas.
        - Obrigada. Muito obrigada. Desculpe eu ser to estpida. Mas  horr-                - Entra - disse 
eu  Megan.
vel quando a nossa me morre.                        Ela entrou. Eu segui-a. A Joanna ps o carro em 
movimento e partimos.
        - Eu sei - disse eu.                        Chegamos a Little Furze e fomos para a sala de visitas.
                62                        63
A Megan deixou-se cair numa cadeira e desatou a chorar. Chorava com o        - Mas agora - disse eu - vamos 
poder ter todo o tipo de discusses
        fervor sentido de uma criana - berrava, acho que  a palavra certa. Sa da        interessantes        sobre a 
Goneril e a Regan e coisas no gnero.
sala, em busca de um remdio. A joanna olhava, sentindo-se bastante impo-                0 rosto da 
Megan iluminou-se.
tente, acho eu.                        Estive a pensar nisso e acho que j sei a resposta. Era por causa
        Passado pouco tempo, ouvi a Megan dizer numa voz rouca e sufocada:        daquele horrvel pai velho 
que elas tinham, sempre a insistir naquelas adula
        - Desculpe-me por fazer isto. Parece uma idiotice.        es todas. Quando tem de se estar 
sempre a dizer obrigada, e que amvel e
        A joanna disse amavelmente: - De modo nenhum. Toma outro leno.        essas tretas todas, 
deve-se ficar um bocado reles e esquisito c por dentro, e
        Deduzo que lho tenha fornecido. Reentrei na sala e dei  Megan um copo        ansiar por ser 
desagradvel, s para variar        e quando se tem uma oportuni-
cheio at  borda.                dade, provavelmente descobre-se que ela subiu  cabea e que se foi 
longe de
        - Que  isto?                mais. 0 velho Lear era horrvel, no era? Quero dizer, ele mereceu a 
afronta
        - Um cocktail - disse eu.                que a Cordelia lhe fez.
        - ? A srio? - as lgrimas da Megan secaram instantneamente. -                - Estou a ver 
que vamos ter muitas discusses interessantes sobre o
Nunca tomei um cocktail.                Shakespeare - disse eu.
        - H uma primeira vez para tudo - disse eu.                        Estou a ver que as vossas 
conversas vo ser muito intelectuais - disse
        A Megan beberricou cautelosamente; depois, um sorriso radiante espa-        a joanna. - Receio ter 
achado sempre o Shakespeare muito aborrecido.
lhou-se-lhe pelo rosto, ela inclinou a cabea para trs e engoliu a bebida de        Todas aquelas longas 
cenas em que est toda a gente bbeda e que  suposto
                        serem engraadas.
uma assentada.
                                                        -me para a Megan. - Como 
                                        Por falar em beber - disse eu, virando
        -  uma delcia - disse ela. - Posso tomar outro?
                        que te sentes?
        - No - disse eu.                        - Bastante bem, obrigada.
        - Por que no?                        - No sentes vertigens? No vs duas joannas ou coisa assim 
parecida?
        - Daqui a dez minutos j deves saber.                - No. S me apetece falar muito.
        - Oh!                        - Optimo - disse eu. -  bvio que s uma das nossas bebedoras
        A Megan transferiu a ateno para a joanna.        natas. Isto , se aquele foi realmente o teu 
primeiro cocktail.
        - Lamento muito se a incomodei ao berrar daquela maneira. No                - Oh! foi sim.
consigo imaginar por que o fiz. Parece uma idiotice, uma vez que estou to                - Uma cabea 
boa e forte  uma vantagem para qualquer ser humano
contente por estar aqui.                - disse eu.
        - No tem importncia - disse a joanna. - Estamos muito satisfeitos                A joanna levou a 
Megan para cima para desfazer a mala.
por te termos c.                        A Partridge entrou, parecendo mal disposta, e disse que s tinha 
feito
        - No podem estar a srio.  s amabilidade da vossa parte. Mas        duas taas de leite-creme para o 
almoo e que no sabia como resolver o
agradeo.                problema.
        - Por favor, no agradeas - disse a joanna. - Vou ficar embaraada.
Eu disse a verdade ao dizer que estvamos contentes por te termos c. Eu e o
Jerryj gastmos toda a nossa conversa. j no nos lembramos de mais nada
para dizermos um ao outro.
                64                                65
Por um momento, detestei Lymstocl a sua pequenez, e as suas mulheres

CAPFTULO SEIS

        0 inqurito teve lugar trs dias mais tarde. Foi tudo feito o mais decorosamente possvel, mas 
houve uma grande assistncia e, como ajoanna observou, deu motivo a muito falatrio.
        A hora da morte de Mrs. Symmington foi calculada entre as trs e as quatro horas. Ela estava 
sozinha em casa, o Symmington fora para o escritrio, as criadas estavam de folga, Elsie Hofiand e as 
crianas tinham ido dar um passeio, e a Megan fora dar uma volta de bicicleta.
        A carta deve ter chegado no correio da tarde. Mrs. Symmington deve ter pegado nela, lera-a, e 
depois, num estado de perturbao, deve ter ido  estufa buscar um pouco do cianeto que l estava 
guardado para destruir vespeiros, dfluindo-o em gua e bebendo-o, depois de escrever as suas ltimas 
palavras perturbadas: x~No posso continuar ... >~.
        Owen Griffith deu o seu depoimento mdico e insistiu no ponto de vista, que j nos descrevera em 
linhas gerais, do estado de nervos e da falta de resistncia de Mrs. Symmington. 0 juiz de instruo foi 
corts e discreto. Censurou friamente as pessoas que escrevem coisas despreziveis como cartas 
annimas. Quem quer que tivesse escrito aquela carta vil e mentirosa era moralmente culpado de 
homicdio, disse ele. Esperava que a Polcia descobrisse rapidamente o culpado e que tomasse medidas 
contra ele ou ela. Um exemplo to covarde e malicioso de malevolncia merecia ser castigado com o 
mximo rigor da lei. Orientado por ele, o jri trouxe o veredicto inevitvel. Suicdio num momento de loucura.
        0 juiz fizera o melhor que podia - Owen Griffith tambm, mas depois, comprimido no meio da 
multido de mulheres da aldeia ansiosas, escutei o mesmo sussuro sibilante e odioso que comeava a 
conhecer to bem: ~((No h fumo sem fogo,  o que eu digo!>> ~(Devia haver alguma coisa, de certeza. 
Caso contrrio, ela nunca faria aquilo...,~.

66

mexeriqueiras e maledicentes.

il

         difcil recordar as coisas na sua ordem cronolgica exacta. 0 acontecimento importante seguinte 
foi, claro, a visita do superintendente Nash. Mas foi antes disso, creio eu, que recebemos visitas de vrios 
membros da comunidade, cada um deles interessante  sua maneira o que lanou alguma luz sobre os 
temperamentos e personalidades das pessoas envolvidas.
        Aime Griffith veio na manh seguinte ao inqurito. Estava, como sempre, resplandecente de sade 
e energia e conseguiu, tambm como de costume, irritar-me quase imediatamente. Ajoanna e a Megan 
tinham sado, por isso fiz eu as honras.
        - Bom dia - disse Miss Griffith. - Constou-me que tm c a Megan Hunter?
        - Temos.
        - Muito generoso da vossa parte, com certeza. Deve ser um incmodo para vs. Vim c dizer que, 
se quiserem, ela pode ir para nossa casa. Creio bem que hei-de arranjar maneira de a tornar til l.
        Olhei para Aime Griffith com averso.
        - Que amabilidade a sua! - disse eu. - Mas ns gostamos de a ter c. Anda muito feliz a vaguear 
por a sem fazer nada.
        - Creio bem que sim. Gosta demasiado de desperdiar tempo, essa mida. Por outro lado, 
suponho que no pode evit-lo, j que  praticamente imbecil.
        - Eu acho que  uma rapariga muito inteligente - respondi.
        Aime Griffith lanou-me um olhar duro.
        -  a primeira vez que ouo algum dizer isso - observou. - Quando falamos com ela, atravessa-nos 
com o olhar como se no compreendesse o que estamos a dizer!
        - T~vez no esteja interessada, e pronto - disse eu.
        - Nesse caso,  muito malcriada - disse Aime Griffith.
        - Isso, talvez. Mas no imbecil.

67
Miss Griffith declarou rispidamente:
        - Na melhor das hipteses,  distrada. Do que a Megan precisa  de trabalho duro, uma coisa que 
lhe d um interesse na vida. No faz ideia da importncia que isso tem na vida de uma rapariga. Sei muita 
coisa sobre raparigas. Ficaria surpreendido se soubesse como e importante para elas o facto de se 
tornarem Guias. A Megan j  velha de mais para passar o tempo a vaguear por a sem fazer nada.
        - At agora, tem sido muito difcil para ela fazer qualquer outra coisa disse eu. - Mrs. Symmington 
deu-me sempre a impresso de que julgava que a Megan tinha cerca de doze anos.
        Mrs. Griffith bufou.
        - Eu sei. Essa atitude dela impacientava-me. Claro que agora est morta, pobre mulher, por isso 
no se deve falar muito, mas ela era um exemplo perfeito daquilo a que eu chamo o tipo domstico pouco 
inteligente. Bridge e mexeriquice e os filhos, e at desses era aquela rapariga Holland que cuidava. Receio 
nunca ter tido muita considerao por Mrs. Symmington, embora nunca tenha suspeitado da verdade.
        - A verdade? - disse eu bruscamente.
        Miss Griffith corou.
        - Tive muita pena do Dick Symmington, por tudo aquilo se ter tornado pblico no inqurito - disse 
ela. - Foi horrvel para ele.
        - Mas certamente que o ouviu dizer que no havia uma palavra verdadeira naquela carta, que ele 
tinha a certeza absoluta disso?
        -  claro que disse. Com toda a razo. Um homem tem de defender a mulher. Foi o que ele fez. - 
Fez uma pausa e depois explicou: - Sabe, conheo o Dick Symmington h muito tempo.
        Fiquei um pouco surpreendido.
        - A srio? - disse eu. - 0 seu irmo deu-me a entender que s tinha comprado a clnica h alguns 
anos.
        - Oh! sim, mas o Dick Symmington ia muitas vezes l para os nossos lados, no norte. Conheo-o 
h anos.
        As mulheres tiram concluses precipitadas que os homens no tiram. Contudo, o tom subitamente 
enternecido da voz de Aime Griffith ps-me, como diria a nossa velha ama, ideias na cabea.

68

        Olhei para Aime com curiosidade. Ela continuou - ainda naquele tom

suave:

        - Conheo muito bem o Dick...  um homem orgulhoso e muito reservado. Mas  o tipo de homem 
que pode ser muito ciumento.
        - Isso pode explicar - disse eu deliberadamente - por que  que Mrs. Symmington teve medo de lhe 
mostrar a carta ou de lhe falar nela. Temeu que ele, por ser um homem ciumento, no acreditasse nos 
desmentidos dela.
        Miss Griffith olhou para mim, irada e desdenhosamente.
        - Santo Deus! - disse ela - acha que alguma mulher engoliria uma data de cianeto de potssio por 
uma acusao que no fosse verdadeira?
        - Ao que parece, o juiz achou isso possvel. 0 seu irmo tambm...
        Aime interrompeu-me.
        - Os homens so todos iguais. Tudo para salvaguardar os bons costumes. Mas a mim no me 
apanha a acreditar nisso. Se uma mulher inocente recebe uma carta annima revoltante, ri-se e deita-a fora 
com desprezo. Eu... - fez subitamente uma pausa e depois rematou - faria isso.
        Mas eu reparei na pausa. Tive quase a certeza de que o que ela estivera prestes a dizer fora vEu fiz 
isso>>.
        Decidi atacar.
        - Estou a perceber - disse eu, jovialmente. - Ento, tambm recebeu

uma?

        Aime Griffith era 0 tPo de mulher que despreza a mentira. Hesitou por um instante, corou, e disse:
        - Bem, sim. Mas no deixei que me perturbasse.
        - Desagradvel? - perguntei por simpatia para com uma companheira de desdita.
        - Naturalmente. Estas coisas so sempre desagradveis. Delrios de um doido. Li umas palavras, 
apercebi-me do que era e deitei-a logo para o cesto dos papis.
        - No pensou em a levar  Polcia?
        - Nessa altura, no. Quanto menos se falar melhor, foi o que eu achei.
        Senti-me impelido a dizer solenemente: ~(No h fumo sem fogo!>~, mas contive-r'pe. Para evitar a 
tentao, regressei  Megan.
        - Faz alguma ideia da situao financeira da Megan? - perguntei.

69
- No  uma curiosidade v da minha parte. Gostava de saber se ela vai ter                - Francamente, 
no. Receio no me interessar por arte. A sua atitude,
realmente necessidade de ganhar a vida.                Mr. Burton,  tpica da maioria dos homens. No lhe 
agrada a ideia de as
        - No acho que seja absolutamente necessrio. A av paterna deixou-        mulheres trabalharem, 
de competirem
-lhe um pequeno rendimento, creio eu. E, seja como for o, Dick Symmington                , Fiquei 
surpreendido por me encontrar inesperadamente com a
                        enha
dar-lhe-ia sempre um lar e cuidaria dela, mesmo que a me no lhe tenha        Feminista.
deixado nada imediatamente. No,  o princpio da coisa.                        Aime ia lanada, tinha a face 
corada.
        - Que princpio?                                - Para vs,  inconcebvel que as mulheres queiram uma 
carreira. Era
        - 0 trabalho, Mr: Burton. No h nada como o trabalho, para homens e        inconcebvel para Os 
meus pais. Eu estava ansiosa por estudar medicina. Eles
mulheres. 0 nico pecado imperdovel  a ociosidade.                nem quiseram ouvir falar em pagarem as 
propinas. Mas pelo Owen pagaram
        - Sir Edward Grey - disse eu -, posteriormente nosso ministro dos                -nas prontamente. 
Contudo, eu teria dado uma mdica melhor do que o meu
Negcios Estrangeiros, foi expulso de Oxford por preguia incorrigvel. Ouvi        irmo.
dizer que o Duque de Wellington era mole e desatento nos estudos. E alguma                - Tenho muita 
pena - disse eu. - Deve ter sido duro para si. Se uma
vez lhe ocorreu, Miss Griffith, que talvez no pudesse apanhar um comboio        pessoa quer fazer uma 
coisa-. .
rpido para Londres se o pequeno Georgie Stephenson tivesse sado com o                Ela continuou 
muito depressa:
seu movimento de juventude, em vez de andar aborrecido de um lado Para o                - Oh! j superei 
isso. Tenho muita fora de vontade. A minha vida 
outro na cozinha da me at que o curioso comportamento da tampa da        atarefada e activa. Sou uma das 
pessoas mais felizes de Lymstock Tenho
chaleira atraiu a ateno da sua mente ociosa?                muito que fazer Mas revolto-me contra o 
preconceito antiquado e absurdo
        Aime limitou-se a bufar.                        de que o lugar das mulheres  sempre o lar
        - Tenho uma teoria - disse eu, entusiasmando-me com o tema - de                        - 
Lamento se a ofendi - disse eu. - De facto, no era a que eu queria
que devemos  ociosidade a maioria das nossas grandes invenes e a maior        chegar. No vejo, de 
modo nenhum, a Megan num papel domstico.
parte das refflizaes de gnio. A mente humana prefere ser alimentada                 - No, pobre miuda. 
Receio que seja uma inadaptada em qualquer
colher com os pensamentos dos outros, mas, privada de U alimento, come-        parte. - Aime acalmara-
se. Estava outra vez a falar normalmente. - Sabe,
a, relutantemente, a pensar por si mesma, e essa reflexo, no se esquea,         o pai dela
uma reflexo original e pode ter resultados preciosos.                        Hesitou, e eu disse 
abruptamente: - No sei. Todos dizem ~(o pai dela>> e
        ~(Alm disso - continuei, antes que Aime pudesse dar outra fungadela        baixam a voz, e pronto. 
Que  que o homemfez? Ainda est vivo?
        h o lado artstico.                                - Na verdade, no sei. E receio que o que eu 
prpria sei seja muito vago.
        Levantei-me e tirei da minha escrivaninha, onde sempre me acompa-        Mas ele era, 
decididamente, m rs. Priso, creio eu. E vestgios de anormali
nhava, uma fotografia da minha pintura chinesa preferida. Representa um        dade muito forte.  por isso que 
no me surpreenderia se a Megan no tivesse
velho, sentado debaixo de uma rvore, a brincar  cama do gato nos dedos        4(o juzo todo)~.
das mos e dos ps com um pedao de fio.                        - A Megan - disse eu - est em plena 
posse das suas faculdades, e,
        - Estava na exposio chinesa - disse eu. - Fascinou-me. Permita-me        como j disse antes, 
considero-a urna mida inteligente. A minha irm
que lha apresente. Chama-se ~xvelho a Desfrutar do Prazer da Ociosidade>>.        tambm pensa o 
mesmo. A joanna  muito amiga dela.
        Aime Griffith no se impressionou com a minha encantadora pintura.                Aime disse:
Disse: - Oh! bem, todos sabemos como so os chineses!                        - Receio que a sua irm ache 
isto aqui muito enfadonho.
        - No gosta? - perguntei.                                E quando ela disse aquilo, fiquei a saber 
outra coisa. Aime Griffith no
                70                                71
assunto.

gostava da minha irm. Era o que transparecia dos tons afveis e convencionais da sua voz.
        - Todos nos perguntmos como  que ambos suportaram enterrar-se num lugar to remoto.
        Era uma pergunta, e eu respondi.
        - Ordens do mdico. Eu devia ir para um stio muito sossegado, onde nunca acontecesse nada. - 
Fiz uma pausa e acrescentei: - Coisa que neste momento no  verdade em Lymstock.
        - No, realmente no.
        Parecia preocupada e levantou-se para se ir embora. Ento, disse:
        - Sabe, tem de se pr um fim a... toda esta bestialidade! No podemos deixar que continue.
        - A Polcia no est a fazer qualquer coisa?

        - Presumo que sim. Mas acho que devamos encarregar-nos ns do

        - No estamos to bem equipados como ela.

        - Disparate! Provavelmente, temos muito mais senso e inteligncia! S  preciso um pouco de 
det,erminaao.
        Despediu-se abruptamente e foi-se embora.
        Quando a joanna e a Megan voltaram do passeio, mostrei  Megan a minha pintura chinesa. 0 seu 
rosto animou-se. Disse: -  linda, no ?
        - Essa  a minha opinio.
        Estava a enrugar a testa daquela maneira que eu to bem conhecia.
        - Mas iria ser dificil, no iria?
        - Ser ocioso?
        - No, no  ser ocioso, mas gozar os prazeres de no ter que fazer Teramos de ser muito 
velhos...
        Fez uma pausa e eu disse: - Ele  um velho.
        - No quero dizer velho nesse sentido. No na idade. Quero dizer velho em... em...
        - Queres dizer - disse eu - que teramos de alcanar um estado de civilizao muito elevado para a 
coisa se nos apresentar dessa forma, um requintado momento de sofisticao? Acho que vou completar a 
tua educao, Megan, lendo-te cem poemas traduzidos do chins.

72

No mesmo dia, mas mais tarde, encontrei o Symmington na povoao.
        - Importa-se que a Megan fique connosco algum tempo? - perguntei. - Faz companhia  joanna, ela 
s vezes sente-se s sem nenhuma das suas amigas.
        - Oh!... hum... a Megan? Oh! sim,  muita amabilidade da vossa parte.
        Nessa altura fiquei com uma averso ao Symmington que nunca cheguei a superar. Era bvio que 
se esquecera completamente da Megan. No me teria importado, se ele antipatizasse activamente com a 
mida - s vezes um homem pode ter cimes do filho de um primeiro marido - mas ele no antipatizava 
com a Megan, pura e simplesmente, no reparava nela. Sentia por ela o que sente um homem, que no 
gosta muito de ces, por um co que est l em casa. Repara no co quando tropea nele e lhe roga 
pragas, e quando lhe d uma palmadinha vaga se ele pede para ser afagado. A completa indiferena do 
Symmington pela enteada aborreceu-me muito.
        - Que est a planear fazer com ela? - perguntei-lhe.
        - Com a Megan? - pareceu muito surpreendido. - Bem, vai continuar a viver l em casa. Quero 
dizer, naturalmente,  a casa dela.
        A minha av, de quem eu gostava muito, costumava cantar canes fora de moda acompanhada  
viola. Lembrei-me de que uma delas terminava assim:

x(Oh, donzela, muito amada, eu no estou aqui No tenho lugar, nem funo, j no moro junto ao mar 
nem  praia, Mas s no teu corao>>.

Fui para casa a cantarol-la entre dentes.

73
IV

Emily Barton chegou logo depois da mesa do ch ter sido levantada.
        Queria conversar sobre o jardim. Falmos do jardim durante cerca de meia hora. Depois voltmos 
para trs em direco a casa.
        Foi nessa altura que, baixando a voz, ela murmurou:
        - Espero que a mida ... que ela no tenha ficado muitoperturbada com todo este assunto horrvel.
        - Refere-se  morte da me?

        - Tambm, claro. Mas referia-me, de facto, aos... aos dissabores que

estoportrs.

        Fiquei curioso. Queria a reaco de Miss Barton.
        - Que pensa disso? Era verdade?

        - Oh! no, no, certamente que no. Tenho a certeza de que Mrs. Symmington nunca... de que ele 
no era... Emily Barton estava corada e confusa. - Quero dizer,  mentira, embora, claro, possa ter sido um 
castigo.
        - Um castigo? - disse eu, de olhos arregalados.
        Emily Barton estava muito corada, muito parecida com uma pastora de porcelana de Dresden.
        - No consigo deixar de sentir que todas estas cartas medonhas, a mgoa e o sofrimento que 
causaram, podem ter sido enviadas com uma finalidade.

        - Sem dvida que foram enviadas com

        uma finalidade - disse eu, som-

briamente.

        - No, no, Mr. Burton, compreendeu-me mal. No estou a falar da criatura desencaminhada que 
as escreveu, deve ser uma pessoa muito perversa. Quero dizer que elas foram permitidas ... pela 
Providncia! Para tomarmos conscincia das nossas imperfeies.
        - Certamente que o Todo-Poderoso podia escolher uma arma menos repugnante - disse eu.
        Miss Emily murmurou que Deus agia de forma misteriosa.
        - No - disse eu. - H uma tendncia demasiado grande para atribuir a Deus os males que o 
homem faz de sua livre vontade. 0 Diabo, ainda admito. Na verdade, Deus no precisa de nos punir, Miss 
Barton. Ns j estamos muito ocupados a punir-nos a ns mesmos.

74

        - 0 que no consigo perceber  o motivo por que algum h-de querer fazer uma coisa destas.
        Encolhi os ombros.
        - Uma mentalidade pervertida.
        - Parece muito triste.
        - A mim, no me parece triste. Parece-me apenas diablico. E no peo desculpa pela palavra.  
exactamente isso que penso.

        0 rubor desaparecera da face de Miss Barton. Estava agora branca como

a cal.

- Mas porqu, Mr. Burton, porqu? Que prazer pode algum tirar disso? - No  coisa que eu e a senhora 
possamos compreender, graas a Deus. Emy Barton baixou a voz.
- Falam na tal Mrs. Cleat, mas na verdade no consigo acreditar nisso. Abanei a cabea. Ela continuou, de 
modo excitado:

        - Nunca tinha acontecido nada deste gnero, nunca, que eu me lembre. Tem sido uma pequena 
comunidade to feliz! 0 que diria a minha querida m~e? Bem, temos de dar graas por ela ter sido poupada 
a isto.
        De tudo o que ouvira dizer sobre a velha Mrs. Barton, achava que ela teria sido suficientemente 
forte para suportar qualquer coisa, e que provavelmente se teria divertido com esta comoo toda.
        Emily continuou:
        - Isto aflige-me profundamente.
        - A senhora no... hum... recebeu nada?
        - Oh! no... oh! no, de verdade. Oh! isso seria horrvel.
        Pedi-lhe apressadamente desculpa, mas ela foi-se embora parecendo muito perturbada.
        Entrei em casa. A Joanna estava de p junto  lareira da sala de visitas, que acabara de acender, 
porque as noites ainda eram frias.
        Tinha uma carta aberta na mo.
        Virou rapidamente a cabea quando eu entrei.
        - Jerryl Encontrei isto na caixa do correio, metida l pessoalmente. Comea com,~(Sua rameira 
pintada...
        - Que mais diz?
        A Joanna fez uma grande careta.
        - A mesma porcaria do costume.

75
        Largou-a na lareira. Com um gesto rpido que me fez doer as costas,                - Obrigado, Mi: 
Burton, foi muito previdente.
puxei-a bruscamente antes de se incendiar                Fui at  minha escrivaninha e abri a gaveta onde 
a tinha fechado 
        - No faas isso - disse eu. - Podemos precisar dela.        chave. No era, achava eu, muito 
apropriada para os olhos da Partridge.
        - Precisar dela?                Entreguei-a ao Nash.
        - Para a Polcia.                        Ele leu-a at ao fim. Depois, ergueu o olhar e perguntou-me:
                                - Tem o mesmo aspecto da ltima?
        v                        - Acho que sim, tanto quanto me lembro.
                                - A mesma discrepncia entre o envelope e o texto?
                                - Sim - disse eu. - 0 envelope era dactilografado. A carta propria
        0 superintendente Nash veio falar comigo na manh seguinte. Simpa-        mente dita tinha palavras 
impressas coladas numa folha de papel.
tizei muito com ele logo que o vi. Era o prottipo do superintendente do                0 Nash acenou 
afirmativamente e meteu-a no bolso. Depois, disse:
C.I.D.' do condado. Alto, marcial, com olhos calmos e pensativos e uma                - Gostava de saber, Mr. 
Burton, se se importaria de ir at  esquadra co
conduta franca e despretensios&                migo. Podamos ter l uma reunio, o que pouparia uma grande 
quantidade
        - Bom dia, Mr. Burton, suponho que calcula o motivo por que vim falar        de tempo e de 
repeties.
consigo.                        - Certamente - disse eu. - Quer que v j?
        - Acho que sim. Este assunto das cartas.
        Ele acenou afirmativamente.                        - Se no se importa.
        - Parece que recebeu uma?                        Estava um carro da Polcia  porta. Fomos para 
baixo nele.
        - Sim, pouco depois de termos chegado c.                Eu disse:
        - Que dizia exactamente?                        - Acha que vai conseguir descobrir o 
responsvel?
        Fiquei um momento a pensar, depois, repeti-lhe conscienciosamente o                0 Nash acenou 
afirmativamente, com uma confiana natural.
enunciado da carta com o mximo rigor possvel.                - Oh! sim, vamos descobrir o responsvel, sem 
dvida.  uma questo
        0 superintendente escutou com um rosto impassvel, sem mostrar sinais        de tempo e de rotina. 
Estes casos so lentos, mas so muito seguros.  uma
de qualquer tipo de emoo. Quando acabei, disse:        questo de restringir as coisas.
        - Compreendo. No guardou a carta, Mr Burton?                        Eliminao? - disse eu.
        - Lamento. No a guardei. Pensei que era s um exemplo isolado de                        Sim. E 
rotina geral.
rancor contra recm-chegados  localidade.                        Vigiar caixas de correio, examinar 
mquinas de escrever, impresses
        0 superintendente inclinou a cabea compreensivamente.        digitais, e tudo isso?
        - Que pena! - disse laconicamente.                Sorriu. -  como diz.
        - Contudo - disse eu -, a minha irm recebeu uma ontem. Impedi-a                Na esquadra, 
descobri que o Symmington e o Griffith j l estavam. Fui
a tempo de a deitar  lareira.                apresentado a um homem  paisana, alto e de queixo saliente, o 
inspector
                        Graves.
                                        0 inspector Graves - explicou o Nash - veio de Londres para nos
        C.I.D. - C""nd Inv-tWatiOn DeP~ent - ramo de investigao criminal da Polcia do        ajudar. ~um 
perito em casos de cartas annimas.
Reino Unido. (N. da T)
                                0 inspector Graves sorriu pesarosamente. Fiquei a meditar que uma vida
                76                                77
passada na perseguio de autores de cartas annimas devia ser particularmente deprimente. 0 inspector 
Graves, contudo, revelava uma espcie de entusiasmo melanclico.
        - So todos iguais, estes casos - disse ele numa voz profunda e lgubre, como um sabujo 
desanimado. - Ficariam surpreendidos. A linguagem das cartas e as coisas que dizem.
        - Tivemos um caso precisamente h dois anos - disse o Nash. - 0 inspector Graves ajudou-nos 
nessa altura.
        Vi que algumas das cartas estavam espalhadas na mesa diante de Graves. Estivera, 
evidentemente, a examin-las.
        - A dificuldade - disse o Nash -  conseguirmos as cartas. As pessoas ou as deitam  lareira, ou 
no admitem ter recebido nada do gnero. So estpidas, percebe, e receiam envolver-se com a Polcia. 
Esta gente  retrgrada.
        - Contudo, j temos uma boa quantidade para darmos prosseguimento ao caso - disse Graves. 0 
Nash tirou do bolso a carta que eu lhe dera e atirou-a a Graves.
        Este deu-lhe uma vista de olhos, colocou-a junto s outras e observou, aprovador:
        - Muito boa, realmente muito boa.
        No seria essa a forma que eu escolheria para descrever a epstola em questo, mas os peritos, 
suponho eu, tm o seu prprio ponto de vista. Ainda bem que aquela ladainha de calnias injuriosas e 
obscenas dava prazer a algum.
        - Acho que temos material suficiente para prosseguirmos - disse o inspector Graves'-, e peo-lhes, 
meus senhores, que se recebererem mais algumas cartas as tragam c imediatamente. Se souberem de 
algum que tenha recebido uma (especialmente o doutor, entre os seus pacientes), tambm lhes peo que 
faam o possvel para convencer a pessoa a traz~la c. Tenho - escolheu com dedos hbeis entre as 
provas - uma do Mr. Symmington, recebida h dois meses, uma do Dr. Griffith, uma da Miss Ginch, uma 
escrita a Mrs. Mudge, a mulher do homem do talho, uma a jennifer Clark, empregada de bar no Three 
Crowns, a recebida por Mrs. Symmington, agora esta para Miss Burton... oh! sim, e uma do gerente do 
banco.
- Uma coleco muito representativa - observei eu.

78

        - E todas elas se assemelham s dos outros casos! Esta aqui  praticamente idntica a uma 
escrita por aquela modista de chapus. Esta  parecida com as de um surto em Northumberland, tinham 
sido escritas por uma estudante. Posso dizer-lhes, meus senhores, que s vezes gostava de ver qualquer 
coisa nova em vez do mesmo velho ramerro.
        - No h nada de novo debaixo do sol - murmurei.
        - Exactamente, sir. Saberia o que isso , se tivesse a nossa profisso.
        0 Nash suspirou e disse: - Sim,  verdade.
        0 Symmington perguntou:
        - Chegaram a alguma opinio definitiva quanto ao autor das cartas?
        0 Graves aclarou a voz e fez uma pequena preleco.
        - H certas semelhanas entre todas estas cartas. Vou enumer-las, meus senhores, para o caso 
de elas lhes sugerirem alguma coisa. 0 texto das cartas  composto por palavras feitas com letras 
individuais recortadas de um livro impresso.  um livro antigo, impresso, diria eu, por volta do ano de 1830. 
Isto foi obviamente feito para evitar o perigo de reconhecimento atravs da caligrafia que , como a maioria 
das pessoas sabe actualmente, uma questo muito simples... a chamada dissimulao da letra no tem 
grande significado quando submetida aos testes dos peritos. No h impresses digitais de carcter 
distintivo nem nas cartas, nem nos envelopes. Isto quer dizer que foram manuseadas pelas autoridades 
postais, pelo destinatrio, e que h outras impresses digitais acidentais mas nenhum conjunto comum a 
todas, o que mostra, por isso, que a pessoa que as montou teve o cuidado de usar luvas. Os envelopes 
foram dactilografados numa mquina Windsor 7, muito usada, com o a e o t fora do alinhamento. A maior 
parte delas foi posta no correio local, ou metida pessoalmente nas caixas de correio das casas.  por isso 
evidente que so de provenincia local. Foram escritas por uma mulher, em minha opinio de meia-idade ou 
mais velha, e  provvel, embora no certo, que no seja casada.
        Mantivemo-nos num silncio respeitoso durante uns momentos. Depois eu disse:
        - A mquina de escrever  a vossa melhor aposta, no ? No deve ser muito dificil num lugar 
pequeno como este.
        0 ingpector Graves abanou a cabea tristemente e disse:
- Ai  que se engana, sir

79
        - A mquina de escrever - disse o superintendente Nash -  infelizmente fcil de mais.  uma velha 
mquina do escritrio de Mr. Symmington, oferecida por ele ao Instituto das Mulheres onde, posso afirmar. 
ela  de muito fcil acesso. As senhoras daqui vo todas frequentemente ao Instituto.

        - No podem dizer nada de definitivo a partir do... hum ... do batimento das teclas, ou como lhe 
chamam?

        Mais uma vez, o Graves acenou afirmativamente.

        - Sim, isso pode fazer-se, mas estes envelopes foram todos dactilografados por uma pessoa a usar 
s um dedo.

        - Consequentemente,  uma pessoa que no est habituada a escrever  mquina?

        - No, no diria isso.  uma pessoa que sabe dactflografar, mas que no

oficio.

quer que saibamos disso.

        - Seja quem for, a pessoa que escreveu estas coisas  muito astuta disse eu lentamente.

        -  sim, sir,  sim - disse o Graves. -  capaz de todos os truques do

        - No imaginava que uma destas buclicas mulheres daqui tivesse inteligncia para isso - disse eu.

        0 Graves tossiu.

        - Receio no me ter explicado bem. Aquelas cartas foram escritas por uma mulher educada.
        - 0 qu? Por uma senhora?
        A palavra escapou-me involuntariamente. No usava o termo ~(senhora,~ h anos. Mas agora veio-
me automaticamente aos lbios, ecoando dias muito longnquos e a voz fraca e inconscientemente 
arrogante da minha av a dizer: ~xclaro que ela no  uma senhora, querido~>.
        0 Nash percebeu imediatamente. A palavra senhora ainda significava qualquer coisa para ele.
        - No necessariamente uma senhora - disse ele. - Mas sem dvida que no  uma alde. A 
mulheres daqui so, na sua maioria, bastante iletradas, no sabem soletrar, e certamente que no sabem 
exprimir-se com fluncia.

Fiquei calado, porque tinha tido um choque. A comunidade era to

so

pequena! Inconscientemente, tinha visualizado a autora das cartas como uma Mrs. Cleat ou uma mulher do 
gnero, uma idiota astuta e rancorosa.
        0 Symmington ps os meus pensamentos em palavras. Disse bruscamente:
        - Mas isso restringe as coisas a meia dzia ou a uma dzia de pessoas na localidade toda!
        - Exactamente.
        - No posso acreditar nisso.
        Depois, com um pequeno esforo, e olhando a direito para a frente como se o mero som das suas 
palavras fosse desagradvel, disse:
        - Escutaram o meu depoimento no inqurito. No caso de poderem ter pensado que esse 
depoimento foi movido por um desejo de proteger a memria da minha mulher, gostaria de repetir agora que 
estou firmemente convencido de que o contedo da carta que a minha mulher recebeu era absolutamente 
falso. Eu sei que era falso. A minha mulher era muito sensvel, e... hum... bem, sob alguns aspectos, 
podamos chamar-lhe pdica. Uma carta daquelas seria um grande choque para ela, e ela no estava bem 
de sade.
        0 Graves respondeu imediatamente.
        -  muito provvel que tenha razo, sir. Nenhuma destas cartas mostra quaisquer sinais de 
conhecimento ntimo. So apenas acusaes s cegas. No houve nenhuma tentativa de chantagem. E 
no parece tratar-se de qualquer preconceito religioso, como s vezes acontece.  apenas sexo e 
malevolncia! E isso vai dar-nos uma boa indicao da autora.
        0 Symmington levantou-se. Por muito seco e fleumtico que o homem fosse, tinha os lbios a 
tremer
        - Espero que encontrem em breve o diabo que as escreveu. Ela assassinou a minha mulher to 
seguramente como se lhe tivesse espetado uma faca. - Fez uma pausa. - Gostava de saber como se 
sentir agora.
        Saiu, deixando a pergunta sem resposta.
        - Como  que ela se sente, Griffith? - perguntei. Pareceu-me que a resposta era da competncia 
dele.
        - Sabe Deus! Talvez cheia de remorsos. Por outro lado, pode ser que esteja a gostar do poder que 
tem. A morte de Mrs. Symmington pode ter-lhe alimentado a loucura.

81
- Espero que no - disse eu, com um leve arrepio. - Porque nesse        - Oua, Griffith, eles sabem alguma 
coisa? Tm alguma ideia?

        caso,ir        - No sei. Tm uma tcnica maravilhosa, os polcias. So aparentemen
        Hesitei, e o Nash concluiu a frase por mim.
- Ir tentar de novo? Para ns, Mr Burton, isso seria a coisa melhor que        te muito francos e no nos 
dizem nada.

        podia acontecer Lembre-se de que tantas vezes vai o cntaro  fonte        - Sim. 0 Nash  um tipo 
simptico.
        - Seria louca, se continuasse com isto - exclamei.                - E muito competente.
        - Vai continuar - disse o Graves. - Continuam sempre.  um vcio,                - Se est algum louco 
nesta terra, voc devia saber - disse eu, acusa
sabe, no conseguem deix-lo.        doramente.
        Abanei a cabea com um estremecimento. Perguntei se ainda precisa-                0 Griffith abanou 
a cabea. Parecia desanimado. Mas parecia mais do
vam de mim, queria sair e apanhar ar. A atmosfera parecia impregnada de        que isso - parecia pre ocupado. 
Perguntei a mim prprio se ele no teria
mal.                uma ideia de qualquer tipo.
        - J acabmos, Mr. Burton - disse o Nash. - Mantenha os olhos aber-                Seguamos a p 
pela High Street fora. Parei  porta da agncia imobi
tos e faa o mximo de propaganda possvel, quero dizer, insista com as        liria.
        pessoas para que nos informem de qualquer carta que recebam.        Acho que vou pagar a segunda 
prestao da renda        antecipado.
        Acenei afirmativamente.        Estou decidido a pag-la e a fugir daqui com a joanna imediatamente. 
Perco
        - Suponho que, nesta altura, j toda a gente da terra recebeu uma des-        o direito ao resto do 
arrendamento.
sas coisas infames - disse eu.                - No v - disse o Owen.
        - Duvido - disse o Graves. Inclinou a sua cabea triste um pouco para                - Por que no?
o lado e perguntou: - No sabe, com toda a certeza, de algum que no                Ele no respondeu. 
Disse, devagar, uns momentos depois:
tenha recebido uma carta?                        No fim de contas - atrevo-me a dizer que tem razo. 
Neste exacto

        - Que pergunta extraordinria!  muito improvvel que a populao                momento Lymstock no 
est saudvel. Pode         pode fazer-lhe mal a si ou         ou
        em geral me conte os seus segredos.        1
                         sua irm.
        - No, no, Mr. Burton, no queria dizer isso. S gostava de saber se                        Nada 
faz mal joanna - disse eu. - Ela  forte. Eu  que sou o fraco.
sabe de qualquer pessoa que, ao que saiba, com alguma certeza, no tenha        De certo modo, este 
assunto d-me nuseas.
recebido uma carta annima.                - D-me nuseas a mm - disse o Owen.
        - Bem, na realidade - hesitei - de certo modo, sei.                Empurrei a porta da agncia 
imobiliria e entreabri-a.
        E repeti a minha conversa com Emdy Barton e o que ela me dissera.                        Mas 
no vou - disse eu. - A curiosidade vulgar  mais forte do que
        0 Graves recebeu a informao com um rosto inexpressivo e disse: -        a cobardia. Quero saber 
a soluo.
1
Bem, isso pode ser de utilidade, vou tomar nota.                Entrei.
        Sa para o sol da tarde com o Owen Griffith. Uma vez na rua, praguejei                Uma mulher que 
estava a escrever  mquina levantou-se e dirigiu-se a
em voz alta.
                mim. Tinha cabelo frisado e um sorriso afectado, mas achei-a mais inteli
        - Que terra  esta para um homem vir deitar-se ao sol a curar as feridas?:

ica e ino~
Est cheia de veneno contaminante, esta terra, e parece to pacfi        gente do que a jovem de culos 
que antes dirigia a recepo.
cente como um jardim do den.                Uns,instantes mais tarde tomei conscincia de alguma coisa de 
familiar
        - At l - disse o Owen secamente - havia uma serpente.        nela. Era Miss Ginch, at recentemente 
amanuense do Symmington.
Comentei o facto.

82
        83
        - Trabalhava na Galbraith, Galbraith & Symmington, no  verdade? -
disse eu.
        ~ Sim. Sim, de facto. Mas achei melhor sair. Este emprego  bastante
bom, embora no paguem to bem. Mas h coisas que valem mais do que o        9001'
dinheiro, no acha?                CAPTULO SETE
        - Sem dvida - disse eu.
        - Aquelas cartas horrveis - disse Miss Ginch num sussurro sibilante.
- Recebi uma medonha. Sobre mim e Mr. Symmington... oh!, era terrvel,

dizia coisas horrveis! Sabia qual era o meu dever e levei-a  Polcia, embora,                        Quando 
cheguei a casa, encontrei Mrs. Dane Calthrop sentada a falar
claro, isso no fosse exactamente agradvel para mim, pois no?                com a joanna. Parecia, pensei 
eu, plida e doente.
        - No, no, muito desagradvel.                                - Foi um choque terrvel para mim, Mr. 
Burton - disse ela. - Coitadi
        - Mas eles agradeceram-me e disseram que eu agira muito bem. Mas                nha, coitadinha!
depois daquilo, eu achei que se as pessoas falavam (e evidentemente deviam                        - Sim - 
disse eu. -  horrvel pensar que uma pessoa foi levada a sui
falar. ou de onde  que o autor das cartas tiraria a ideia?), ento eu devia                cidar-se.
evitar at a aparncia do mal, embora nunca tenha havido nada de errado                                Oh! 
refere-se a Mrs. Symmington?
entre mim e Mr. Symmington.
                                                A senhora no?
        Senti-me muito embaraado.
                        i
                                        Mrs. Dane Calthrop abanou a cabea.
        - No, no, claro que no.                                - Claro que  digna de pena, mas isso ia 
fatalmente acontecer, no ia?
        - Mas as pessoas tm espritos muito maldosos. Sim, ai de mim! Espri-        ~i
                                        - Ia? - disse a joanna secamente.
tos muito maldosos!
                                        Miss Dane Calthrop virou-se para ela.
        Tentei nervosamente evitar o olhar dela, mas apesar disso os meus olhos                        
        Oh! acho que sim, querida. Se o suicdio  a ideia que se tem para fugir
cruzaram-se com os seus, e fiz uma descoberta muito desagradvel.                aos problemas, no 
importa muito qual  o problema. Sempre que ela tivesse
        Miss Ginch estava a divertir-se muito.                de enfrentar um choque muito desagradvel, teria 
feito a mesma coisa. Tudo
        j hoje me cruzara com uma pessoa que reagira com prazer s cartas                se resume ao 
facto de ela ser esse tipo de mulher. No quer dizer que algum
annimas. 0 entusiasmo do inspector Graves era profissional. Achei a satis-                pudesse 
imaginar tal coisa. Ela sem re me pareceu uma mulher egosta e
fao de Miss Ginch meramente provocadora e repugnante.                                        p
        Pelo meu esprito surpreendido passou uma ideia sbita.                muito estpida, com muito 
apego  vida. No se pensaria que fosse do tipo
        Teria a prpria Miss Ginch escrito estas cartas?                que entra em pnico, mas comeo a 
aperceber-me de que realmente conhe
                                o pouco as pessoas.
                                                Ainda estou curioso sobre a quem se referia quando disse 
4xCoita
                                dinha* - observei.
                                        Ela olhou-me fixamente.
                                        -  mulher que escreveu as cartas, claro.
                                                No creio - disse eu secamente - que v desperdiar 
simpatia com
                                ela.
                84                                        85
joelho.

posso?

Mrs. Dane Calthrop inclinou-se para a frente. Pousou uma mo no meu

        - Mas no percebe... no sente? Use a imaginao. Pense em como uma pessoa deve sentir-se 
desesperada e violentamente infeliz para se sentar a escrever estas coisas. To solitria, to alienada da 
espcie humana! Completamente envenenada por uma escura torrente de veneno que encontra um escape 
desta forma.  por isso que me censuro a mim mesma. Uma pessoa da localidade tem sido torturada por 
esta infelicidade terrvel, e eu no fazia a mnima ideia. E devia fazer. No podemos interferir nos actos, eu 
nunca o fao. Mas essa negra infelicidade ntima, fisicamente como um brao septicmico todo negro e 
inchado... se pudssemos decep-la e deixar sair o veneno, ele correria para fora de modo inofensivo. Sim, 
pobre alma, pobre alma.
        Levantou-se para se ir embora.
        No me apetecia concordar com ela. No tinha qualquer simpatia pela nossa autora de cartas 
annimas. Mas perguntei com curiosidade:
        - Faz alguma ideia, Mrs. Calthrop, de quem  esta mulher?
        Ela virou para mim os seus belos olhos perplexos.

        - Bem, posso imaginar - disse ela. - Mas posso estar enganada, no

        Saiu rapidamente pela porta, espreitando outra vez para dentro para perguntar:
        - Diga-me, Mr Burton, por que  que nunca se casou?
        Noutra pessoa qualquer isto teria sido uma impertinncia, mas em Mrs. Dane Calthrop tinha-se a 
impresso de que a ideia lhe surgira subitamente e que ela queria realmente saber.

        - Digamos - disse eu, a zombar - que nunca encontrei a mulher

certa-

        - Podemos dizer isso - disse Mrs. Dane Calthrop -, mas no seria uma resposta muito boa, porque 
 bvio que muitos homens casaram com a mulher errada.
        Desta vez, foi-se mesmo embora.
        A Joanna disse:
        - Sabes, tenho a impresso de que ela  de facto louca. Mas gosto dela. As pessoas c da aldeia 
temem-na.

86

- Eu tambm, um pouco.
- Porque nunca se sabe o que vem a seguir?
- Sim. E porque h uma inteligncia descuidada nas suas suposies.
        - Achas realmente que a pessoa que escreveu as cartas  mui to infeliz?
- disse a joanna lentamente.
        - Ignoro o que essa maldita bruxa pensa ou sente! E no me interessa.  das vtimas dela que eu 
tenho pena.
        Neste momento, parece-me curioso que nas nossas especulaes sobre a disposio mental da 
Autora das Cartas Annimas tivssemos deixado passar a mais bvia. 0 Griffith descrevera-a como 
possivelmente exultante. Eu imaginava-a cheia de remorsos, aterrada com o resultado da sua obra. Mrs. 
Dane Calthrop via-a a sofrer.
        Contudo, no considermos a reaco bvia e inevitvel - ou talvez devesse dizer, eu no a 
considerei. Essa reaco era Medo.
        Porque com a morte de Mrs. Symmington, as cartas tinham passado de uma categoria para outra. 
Desconheo qual era a posio legal - o Symmington sabia, suponho, mas era evidente que, com uma 
morte como consequencia, a situao da autora das cartas era muito mais grave. Agora j no se punha a 
questo de deixar passar a coisa como uma brincadeira, se a identidade da autora fosse descobert& A 
Polcia estava activa, fora chamado um perito da Scotland Yard. Agora era vital para a autora annima 
permanecer anonima.
        E admitindo que o Medo era a reaco principal, outras coisas se seguiriam. Tambm no me 
apercebi dessas possibilidades. Contudo elas deviam, sem dvida, ter sido bvias.

        II

        Na manh seguinte, eu e a joanna descemos bastante tarde para o pequeno-almoo. Isto , tarde 
pelos padres de Lymstock- Eram nove e meia, hora em que, em Londres, ajoanna estaria a abrir uma 
plpebra, e as minhas, provavelmente, ainda se manteriam bem fechadas. Seja como for, quando a 
Partridgc-dissera xxpequeno-almoo s oito e meia ou s nove?>>, nem eu nem a joanna tiveramos 
coragem de sugerir uma hora mais tardia.

87
        Para aborrecimento meu, Aime Griffith estava de p na entrada a falar                - Agnes 
Waddle?
com a Megan.                - Exactamente.
        Quando nos viu, gritou com a sua habitual energia:                Resistindo  tentao de dizer 
~(Para si, Pato Donald>~, pousei o ausculta
        - Ol, seus preguiosos! Estou a p h horas.        dor e chamei para o cimo das escadas, onde 
podia ouvir o barulho das activi
        Isso, claro, era problema dela. Sem dvida que um mdico tem de tomar        dades da Partridge.
 pequeno-almoo cedo, e uma irm atenciosa est l para lhe servir o ch ou                - Partridge! 
Partridge!
 caf. Mas isso no  desculpa para ela se meter na vida de vizinhos mais                A Partridge 
apareceu ao cimo das escadas, com uma comprida esfre
sonolentos. Nove e meia da manh no so horas para uma visita matinal.        gona numa mo e um ar de 
~,Que foi agora?>> perfeitamente discernvel por
        A Megan escapou-se para dentro de casa e para a sala de jantar, onde,        trs da sua conduta 
invariavelmente respeitosa.
deduzi eu, tivera de interromper o pequeno-almoo.                - Sim, sir?
        - Eu disse que no entrava - disse Aime GrilTith, embora eu ignore o                - Agnes Waddle 
quer falar consigo ao telefone.
motivo por que  mais meritrio obrigar as pessoas a virem falar connosco                 - Desculpe, sir?
porta do que falar com elas dentro de casa. - S queria perguntar a Miss                Levantei a voz. - Agnes 
Waddle.
Burton se pode dispensar alguns legumes para a nossa barraca da Cruz                Escrevi o nome como 
ele se me apresentou ao esprito. Mas agora vou
Vermelha, na estrada principal. Se puder, mando o Owen busc-los no carro.        escrev-lo como se 
escreve realmente.
                Comea a sua actividade muito cedo - disse eu.                - Agnes Woddell, que ser que 
ela quer agora?
                Quem cedo madruga, Deus o ajuda - disse Aime. - H mais pro-                Muito 
desconcertada, a Partridge abandonou a esfregona e desceu as
habilidades de encontrar as pessoas a esta hora do dia. A seguir vou a casa de        escadas com um ruge-
ruge do vestido de chita que estalava com a agitao.
Mr Pye. Tenho de ir a Brenton esta tarde. Guias.                Bati discretamente em retirada para a sala de 
jantar, onde a Megan
        - A sua energia cansa-me muito - disse eu, e naquele momento tocou        devorava rins com 
toucinho fumado. A Megan, ao contrrio de Aime
o telefone e eu retirei-me para a parte de trs do hall para atender, deixando        Griffith, no exibia um 
x(glorioso rosto matutino~>. Na realidade, respondeu
a joanna a murmurar, hesitante, qualquer coisa sobre ruibarbo e feijo-verde        muito bruscamente s 
minhas saudaes matinais e continuou a comer em
e a revelar a sua ignorncia sobre a horta.        silncio.
        - Estou? - disse eu para o bocal do telefone.                Abri o jornal da manh e um momento 
mais tarde entrou a joanna,
        Um rudo confuso de respirao forte chegou do outro lado do fio, e uma        parecendo um pouco 
abalada.
hesitante voz feminina disse: - Oh!                - UP - disse ela. - Estou to cansada! E acho que revelei 
a minha
        - Estou? - disse outra vez, encorajadoramente.        absoluta ignorncia sobre as coisas que crescem 
e quando. No h feijes
        - Oh! - disse de novo a voz, e depois inquiriu, a falar pelo nariz: -        -carrapato nesta altura do ano?
        Fala        quero dizer        fala de Little Furze?        - Agosto - disse a Megan.

        - Aqui  Little Furze.                        - Bem, em Londres h em qualquer altura - disse a joanna 
na defen
        - Oh! - este era obviamente um incio j batido para todas as frases. A        siva.
voz inquiriu cautelosamente: - Posso falar um momento com Miss                - Enlatados, sua tonta - disse 
eu. - E guardados em frigorficos, em
Partridge?                navios dos confins remotos do imprio.
        - Com certeza - disse eu. - Quem devo anunciar?                - Corno marfim, macacos e paves? - 
perguntou a joanna.
        - Oh! diga-lhe que  a Agnes, por favor. Agnes Waddle.                        Exactamente.
                88                                89
Megan.

Preferia ter paves - disse a Joanna pensativamente.
Eu gostava de ter um macaco como animal de estimao - disse a

Descascando meditativamente uma laranja, a Joanna disse:

        - Pergunto a mim mesma qual seria a sensao de ser Aime Griffith, a rebentar de sade, e de 
energia, e de prazer pela vida. Achas que alguma vez se sente cansada, ou deprimida, ou... ou 
melanclica?
        Eu disse que tinha a certeza de que Aime Griffith nunca estava melanclica, e segui a Megan at 
 varanda atravs da porta envidraada.
        Estava l de p a encher o meu cachimbo, quando ouvi a Partridge entrar na sala de jantar e a voz 
dela dizer sombriamente:
        - Posso falar consigo um momento, miss?
        Valha-me Deus!, pensei. Oxal a Partridge no queira despedir-se. Emily Barton vai ficar muito 
aborrecida connosco, se isso acontecer
        A Partridge continuou: - Peo desculpa, miss, por me terem telefonado. Isto , a jovem que ligou 
tinha obrigao de saber comportar-se. Nunca tive o hbito de usar o telefone, nem de permitir que as 
minhas amigas me telefonem, e lamento muito, de verdade, que isto tenha acontecido, e por ter sido o 
patro a atender e tudo.
        - Ora, no faz mal, Partridge - disse a Joanna, brandamente. - Por que  que as suas amigas no 
ho-de usar o telefone, se querem falar consigo?
        Embora no o visse, senti que o rosto da Partridge ficou mais severo do que nunca, enquanto 
respondia friamente:
        - No  o tipo de coisa que alguma vez se tenha feito nesta casa. Miss Emily nunca o permitiria. 
Como disse, lamento que tenha acontecido, mas Agnes Woddell, a rapariga que telefonou, estava 
perturbada, e tambm  muito nova, e no sabe o que  prprio na casa de um cavalheiro.
        Toma l, que j almoaste, Joanna, pensei com satisfao.
        - Esta Agnes que me telefonou, miss - continuou a Partridge esteve c a servir sob as minhas 
ordens. Tinha dezasseis anos nessa altura e veio directa do orfanato. Como no tem casa, nem me, nem 
parentes que a aconselhem, tem o hbito de vir ter comigo, percebe? Eu digo-lhe como so as coisas, 
percebe?
        - Sim? - disse a joanna e esperou. Era bvio que havia mais.
        - Por isso tomo a liberdade de lhe pedir, miss, que permita que a Agnes

90

venha c esta tarde tomar ch na cozinha.  o dia de folga dela, percebe, e quer consultar-me, sobre uma 
preocupao qualquer que tem. No sonharia sugerir tal coisa em circunstncias normais.
A Joanna disse, desconcertada:
- Mas por que  que no h-de receber algum para tomar ch consigo?
        A Partridge empertigou-se, disse-me depois a joanna, e tinha de facto um ar formidvel ao replicar:
        - Nunca foi costume Desta Casa, miss. A velha Mrs. Barton nunca permitia visitas na cozinha 
excepto no nosso dia de folga, em que tnhamos licena para recebermos as amigas aqui em vez de 
sairmos, mas fora isso, nos dias normais, no. E Miss Emily segue os costumes antigos.
        A Joanna  muito simptica com as criadas, e a maioria gosta dela, mas nunca conseguiu 
impressionar a Partridge.
        - No serve de nada, mida - disse eu, quando a Partridge se foi embora e a joanna se juntou a 
mim l fora. - A tua simpatia e brandura no so apreciadas. Para a Partridge, bons e velhos costumes 
autoritrios e as coisas feitas como devem ser feitas na casa de um cavalheiro.
        - Nunca tinha ouvido tamanha tirania, no permitirem que as amigas as visitem - disse a joanna. - 
Est tudo muito bem, jerry, mas elas no podem gostar de ser tratadas como escravas negras.
        -  evidente que gostam - disse eu. - Pelo menos, as Partridges deste mundo gostam.
        - No consigo imaginar por que  que no gosta de mim. A maioria das pessoas gosta.
        - Provavelmente despreza-te por seres uma dona de casa inadequada. Nunca passas a mo por 
uma prateleira para ver se tem vestgios de p. No olhas para debaixo dos tapetes. No perguntas o que 
aconteceu aos restos do soup de chocolate, e nunca mandas fazer um bom pudim de po.
        - Ui! - disse a joanna.
        Prosseguiu tristemente. - Hoje, sou um fracasso completo. Desprezada pela nossa Aime devido  
minha ignorncia sobre o reino vegetal. Censurada pela Partridge por ser um ser humano. Agora vou para o 
jardim comer lagartas.
        - A Megan j l est - disse eu.
Porque a Megan tinha-se afastado havia uns minutos e estava agora de

91
p, sem objectivo, no meio de um pedao de relvado, parecendo um pssaro meditativo  espera de 
alimento.
Contudo, voltou para junto de ns e disse abruptamente:
- Olhem, tenho de voltar hoje para casa.
- Qu? - fiquei consternado.
        - Foram muito bons em me terem tido c, e devo ter causado imensos incmodos, mas gostei 
imenso, s que agora tenho de voltar, porque, no fim de contas, bem,  a minha casa, e no posso ficar c 
para sempre, por isso acho que vou esta manh.
        Tanto eu como a joanna tentmos faz-la mudar de ideias, mas ela foi inflexvel; por fim, a joanna 
tirou o carro da garagem e a Megan foi ao andar de cima e voltou uns minutos mais tarde com os seus 
pertences novamente emalados.
        A nica pessoa satisfeita parecia ser a Partridge, que quase tinha um sorriso na cara carrancuda. 
Nunca gostara muito da Megan.
        Eu estava de p no meio do relvado quando a joanna regressou.
        Perguntou-me se eu achava que era um relgio de sol.
        - Porqu?
        - Ests a de p como um ornamento de jardim. S que em ti, no se pode pr a legenda de que s 
marcas as horas de sol. Parecias uma trovoada!
        - Esgotei o meu humor Primeiro, Aime Griffith (~(Meu Deus!>~ murmurou ajoanna entre 
parnteses,,~(tenho de ir falar dos legumes!~>) e depois a Megan a desaparecer. Tinha pensado lev-la a 
passear at Legge Tor.
        - Com coleira e trela, suponho? - disse a joanna.
        - Qu?
        A Joanna repetiu alto e bom som, enquanto desaparecia na esquina da casa em direco  horta:
        - Disse ~xcom coleira e trela, suponho?~>. 0 dono perdeu o co,  isso que se passa contigo.

        Estava irritado, tenho de confessar, com a forma abrupta como a Megan nos deixara. Talvez se 
tivesse subitamente aborrecido de ns.

92

        No fim de contas, no era uma vida muito divertida para uma rapariga. Em casa, tinha os midos e 
Elsie Holland.
        Senti ajoanna voltar e mudei rapidamente de posio, no fosse ela fazer mais observaes 
ofensivas sobre relgios de sol.
        0 Owen Griffith apareceu de carro mesmo antes da hora do almoo, e o jardineiro estava  espera 
dele com os necessrios produtos hortcolas.
        Enquando o velho Adams os arrumava no carro, eu trouxe o Owen para dentro para tomarmos uma 
bebida. Ele no queria ficar para almoar.
        Quando entrei com o xerez, descobri que a joanna tinha comeado a fazer das dela.
        Agora no dava sinais de animosidade. Tinha-se enroscado num canto do sof e estava 
positivamente a ronronar, ao fazer perguntas ao Owen sobre o seu trabalho. Gostava de ser mdico de 
clnica geral? No preferia ter tirado uma especialidade? Ela achava que exercer medicina era uma das 
coisas mais fascinantes do mundo.
        Digam o que disserem da joanna, ela  uma ouvinte adorvel, excepcionalmente dotada. E depois 
de escutar tantos aspirantes a gnios dizerem que no eram reconhecidos, ouvir o Owen Griffith era fcil. 
Quando amos no terceiro copo de xerez, o Griffith falava-lhe, em termos to cientficos, de uma reaco ou 
leso obscura, que ningum, a no ser um colega mdico, teria percebido uma palavra.
        A Joanna estava com um ar inteligente e profundamente interessado.
        Senti uma apreenso momentnea. Era uma grande maldade da joanna. 0 Griffith era um indivduo 
bom de mais para brincarem com os seus sentimentos. As mulheres eram realmente uns demnios.
        Depois vislumbrei o perfil do Griffith, com o seu longo queixo resoluto e a atitude inflexvel dos 
lbios, e no tive tanta certeza de que, no fim de contas, a Joanna conseguisse o que pretendia. E seja 
como for, um homem no tem o direito de permitir que uma mulher o engane. Se permitir, isso  l com 
ele.
        Ento a joanna disse:
        - Mude de ideias e fique para almoar connosco, Dr. Griffith - e o Griffith corou um pouco e,disse 
que almoava, s que a irm estava  espera dele...

93
        - Vamos telefonar-lhe a explicar - disse a Joan"a rapidamente, e saiu para o hall para o fazer.
        Achei que o Griffith parecia um pouco inquieto, e passou-me pela cabea que, provavelmente, 
temia um pouco a irm.
        A Joanna voltou a sorrir e disse que estava tudo bem.
        E o Owen Griffith ficou para almoar, e parece que se divertiu. Falmos de livros, e de peas de 
teatro, e de poltica mundial, e de msica, e de pintura, e de arquitectura moderna.
        No falmos de Lymstock nem de cartas annimas, nem do suicdio de Mrs. Symmington.
        Evitmos tudo isso, e acho que Owen Griffith estava feliz. 0 seu rosto triste a'nimou-se, e ele 
revelou-se um esprito interessante.
        Quando se foi embora, eu disse  joanna:
        - Aquele tipo  bom de mais para os teus truques.
        A Joanna disse:
        - Isso  o que tu dizes! Vocs, homens, defendem-se sempre uns aos outros!
        - Por que te deste ao trabalho de lhe passar a mo pelo plo, Joanna? Vaidade ferida?
        - Talvez - disse a minha irm.

IV

        Nessa tarde amos tomar ch com Miss Emily Barton nos seus aposentos na aldeia.
        Deambulmos a p at l, porque j me sentia suficientemente forte para conseguir subir a colina 
no regresso.
        Devemos ter dado uma margem de tempo demasiado grande e chegmos l cedo, porque a porta 
foi aberta por uma mulher alta, muito magra e de aspecto feroz, que nos disse que Miss Barton ainda no 
tinha chegado.
        - Mas eu sei que os espera, por isso podem subir e esperar, por favor.
        Esta era evidentemente a Fiel Florence.
        Seguimo-la pelas escadas acima, e ela escancarou uma porta e mandou-

94

-nos entrar numa sala de estar muito confortvel, ainda que um pouco atravancada. Algumas coisas, 
suspeitei, tinham vindo de Little Furze.
A mulher estava obviamente orgulhosa da sua sala.
-  muito bonita, no ? - perguntou.
- Muito bonita - disse a joanna vivamente.
        - Dou-lhe o mximo conforto possvel. No que eu possa fazer por ela tudo aquilo que gostaria, e 
que ela devia ter. Ela devia estar na sua prpria casa, como deve ser, no exilada em aposentos alugados.
        A Florence, que era claramente um drago, olhou para cada um de ns acusadoramente. No era, 
senti, o nosso dia de sorte. A joanna fora repreendida por Aime Griffith e pela Partridge, e agora 
estvamos ambos a ser censurados pelo drago Florence.
        - Fui triada de sala l durante quinze anos - acrescentou ela.
        A Joanna, picada pela injustia, disse:

        - Bem, Miss Barton queria alugar a casa. Registou-a na agncia imobi-

liria.

        - Foi forada a isso - disse a Florence. - E ela levava uma vida to frugal e cuidadosa. Mas nem 
assim o governo a deixa em paz! Tem de ter a sua libra de carne na mesma.
        Abanei a cabea tristemente.
        - No tempo da velha senhora, havia muito dinheiro - disse a Florence. - E depois morreram todas, 
uma a uma, pobres meninas. Miss Emily tratou delas, umas a seguir s outras. Esfalfou-se, e sempre 
muito paciente e resignada. Mas isso afectou-a, e ainda por cima ter de se preocupar com dinheiro! As 
aces no rendem o que rendiam,  o que ela diz, e eu gostava de saber porqu. Deviam ter vergonha 
deles mesmos. Intrujar uma senhora como ela que no tem cabea para contas e que no pode fazer frente 
aos embustes deles.
        - Praticamente toda a gente foi atingida dessa forma - disse eu, mas a Florence permaneceu 
implacvel.
        - Est tudo bem para algumas pessoas que sabem cuidar delas mesmas, mas no para ela. 
Precisa de que cuidem dela, e enquanto estiver comigo no deixarei que abusem dela ou que a incomodem 
seja como for Faria qualquer coisa por Miss Emily.
        E olhando ferozmente para ns por uns momentos, para vincar bem o

95
que dissera, a indmita Florence saiu do compartimento, fechando cuidadosamente a porta atrs de si.

- Sentes-te como uma sanguessuga, Jerry?

        inquiriu ajoanna. - Por-

que eu sinto. Que se passa connosco?

        - Parece que no estamos a ser muito bem acolhidos - disse eu. - A Megan cansa-se de ns, a 
Partridge no gosta de ti, a fiel Florence no gosta de nenhum de ns.
        A Joanna murmurou - Por que ser que a Megan sefoi embora?
        - Aborreceu-se.
        - No me parece. Gostava de saber... jerry, achas que pode ter sido alguma coisa que Aime 
Griffith disse?
        - Referes-te a esta manh, quando estiveram a falar  porta?
        - Sim. No houve muito tempo, claro, mas...
        Eu acabei a frase.
        - Mas aquela mulher tem a subtileza de um elefante! Pode ter...
        A porta abriu-se e Miss Emily entrou. Estava corada, um pouco ofegante e parecia excitada. Tinha 
os olhos muito azuis e brilhantes.
        - Valha-me Deus! Lamento muito ter-me atrasado. Fui s fazer umas compras  vila, e os bolos da 
Blue Rose no me pareceram muito frescos, por isso fui  Mrs. Lygon. Gosto de comprar sempre os bolos 
em ltimo lugar porque assim apanhamo-los a sair do forno e no nos impingem os do dia anterior. Mas 
estou desolada por os ter feito esperar,  realmente imperdovel...
        A Joanna interrompeu-a.
        - A culpa foi nossa, Miss Barton. Ns  que chegmos cedo. Viemos a p, e o Jerry agora anda 
to depressa que chegamos a todo o lado cedo de mais.
        - Nunca  cedo de mais, querida. No diga isso. Sabe, quando uma coisa  boa nunca  de mais.
        E a velha senhora deu uma palmadinha afectuosa no ombro da joanna.
        A joanna animou-se. Finalmente, assim parecia, estava a ser um sucesso. Emily Barton alargou o 
sorriso para me incluir a mim, mas com uma leve timidez, um tanto como algum a aproximar-se de um 
tigre devorador de homens, que, por enquanto, afirmam ser inofensivo.
        -  muita bondade sua vir a uma refeio to feminina como o ch, Mr. Burton.

96

        Emily Barton, acho eu, imagina os homens a consumirem interminavelmente whiskies com soda e 
a fumarem charutos e, nos intervalos, a desaparecerem para seduzirem algumas donzelas de aldeia, ou 
para terem uma ligao amorosa com uma mulher casada.
        Quando mais tarde disse isto  joanna, ela respondeu que era provavelmente um desejo oculto, que 
Emily Barton teria gostado de encontrar um homem assim, mas que, ai dela!, nunca o encontrara.
        Entretanto, Miss Emily andava atarantada  volta da sala, a arranjar mesinhas pequenas para mim 
e para a joanna e a providenciar cuidadosamente cinzeiros, e um minuto mais tarde a porta abriu-se e a 
Florence entrou, trazendo um tabuleiro de ch com umas belas chvenas Crown Derby, que, imaginei eu, 
Miss Emfly trouxera consigo. 0 ch da China era delicioso, e havia pratos com sandes e finas fatias de po 
com manteiga e uma quantidade de bolinhos.
        A Florence estava agora sorridente, e olhava para Miss Emily com uma espcie de satisfao 
maternal, como se olhasse para uma filha preferida a divertir-se com um ch de bonecas.
        Eu e a joanna comemos muito mais do que queramos, j que a nossa anfitri insistia connosco 
com muita veemncia. Emily Barton estava claramente a divertir-se com o seu ch, e eu percebi que, para 
ela, eu e a joanna ramos uma grande aventura, duas pessoas do mundo misterioso de Londres e da 
sofisticao.
        Naturalmente, a nossa conversa depressa caiu nos temas locais. Miss Barton falou calorosamente 
do Dr. Griffith, da sua gentileza e da sua habilidade como mdico. Mr. Symmington tambm era um 
advogado muito esperto e tinha ajudado Miss Barton a reaver algum dinheiro do imposto sobre rendimentos, 
do qual ela nunca teria tido conhecimento. Ele era muito bom para os filhos, muito dedicado a eles e  
mulher - interrompeu-se. Pobre Mrs. Symmington,  to horrivelmente triste aquelas crianas to novas 
ficarem sem me. Nunca foi, talvez, uma mulher muito forte, e no andava bem de sade ultimamente. Um 
acesso de loucura momentneo, o que deve ter sido. Li sobre isso no jornal. As pessoas no sabem 
realmente o que fazem~ nessas circunstncias. E ela no podia saber o que estava a fazer, ou ter-se-ia 
lembrado de Mr. Symmington e das crianas.

97
joanna.

- Aquela carta annima deve t-la abalado muitssimo - disse a

Miss Barton corou. Com uns laivos de censura na voz, disse:

        - No  uma coisa muito bonita para se discutir, no acha, querida? Sei que tem havido... hum... 
cartas, mas no vamos falar sobre elas. Coisas desagradveis. Acho que  melhor ignor-las e pronto.
        Bem, talvez Miss Barton fosse capaz de as ignorar, mas para algumas pessoas no era to fcil. 
Contudo, mudei obedientemente de assunto e falmos sobre Aime Griffith.
        - Maravilhosa, absolutamente maravilhosa - disse Emily Barton. Tem uma energia e uma 
capacidade de organizao realmente magnifcas. Tambm  muito boa para as raparigas. E  to eficaz e 
actualizada em todos os aspectos!  muito bonito ver tanta dedicao entre irmo e irm.
        - Ele no a achar s vezes um pouco opressiva? - perguntou ajoanna.
        Emily Barton fitou-a de um modo surpreendido.
        - Ela sacrificou muita coisa por causa dele - disse, com um toque de dignidade reprovadora.
        Vislumbrei um Ai Sim? nos olhos da joanna e apressei-me a desviar a conversa para Mr. Pye.
        Emily Barton estava hesitante em relao a Mr. Pye.
        A nica coisa que conseguiu dizer, repetida com muita hesitao, foi que ele era muito amvel... 
sim, muito amvel. E tambm abastado e muito generoso. As vezes tinha visitas muito estranhas, mas por 
outro lado ele tinha via~ jado muito.
        Concordmos que viajar no s proporcionava largueza de esprito, como tambm tinha 
ocasionalmente como consequncia travarem-se conhecimentos estranhos.
        - Eu prpria desejei muitas vezes fazer um cruzeiro - disse Emily Barton ardentemente. - Lemos 
sobre eles nos jornais e parecem muito atractivos.
        - Por que no vai? - perguntou a joanna.
        Esta transformao de um sonho em realidade parecia alarmar Miss Emily. - Oh! no, no, isso 
seria absolutamente impossvel.
        - Mas porqu? So bastante baratos.

98

        - Oh! no  s a despesa. Mas no gostaria de ir s. Viajar sozinha ia parecer muito estranho, no 
acha?
        - No - disse a joanna.
        Miss Emily olhou para ela com hesitao.
        - E no sei como me arranjaria com a bagagem, e a desembarcar em portos estrangeiros, e com 
todas aquelas moedas estrangeiras...
        Um sem-nmero de perigos imprevistos pareciam surgir diante do olhar assustado da senhora, e 
ajoanna apressou-se a acalm-la com uma pergunta sobre uma festa ao ar livre e uma venda de caridade 
que se realizariam em breve. Isto conduziu-nos muito naturalmente a Mrs. Dane Calthrop.
        Um espasmo indistinto apareceu por um instante no rosto de Miss Barton.
        - Sabe, querida - disse ela -, ela  realmente uma mulher muito estranha. As coisas que diz s 
vezes!
        Perguntei que coisas.
        - Oh! no sei. Coisas muito inesperadas. E a forma como olha para nos, como se no fssemos 
ns que estivssemos l, mas sim outra pessoa ... estou a exprimir-me mal, mas  to dificil transmitir a 
impresso que tenho. E depois, ela no... bem, no interfere de modo nenhum. H tantos casos em que a 
mulher de um vigrio podia aconselhar e... talvez admoestar. Repreender as pessoas, sabe, e fazer com 
que se emendem. Porque as pessoas escut-la-iam, tenho a certeza, todas elas a temem. Mas ela insiste 
em ficar impassvel e distante, e tem um hbito muito curioso de ter pena das pessoas que menos 
merecem.
        - Isso  interessante - disse eu, trocando um olhar rpido com a joanna.
        - Contudo, ela  uma mulher muito bem-educada. Era uma Miss Farroway de Bellpath, uma famlia 
muito boa, mas estas velhas famlias s vezes so um pouco estranhas, creio eu. Mas ela  dedicada ao 
marido, que  um homem com um intelecto superior, receio que desperdiado, s vezes, nesta sociedade 
de provncia. Um homem bom e muito sincero, mas acho sempre um pouco confuso o seu hbito de citar 
em latim.
        - Apoiado! - disse eu ardentemente.
        - 0 Jerry teve uma dispendiosa educao de colgio particular, por isso nao reconhece latim 
quando o ouve - disse a joanna.

        99
Isto conduziu Miss Barton a um novo tpico.
        - A professora de ca e uma jovem muito desagradvel - disse ela. Receio que bastante Vermelha. - 
Baixou a voz na palavra #Vermelha>>.
        Mais tarde, ao voltarmos a p para casa pela colina acima, ajoanna disse-me:

        -  amorosa.

v

        Naquela noite, ao jantar, a joanna disse  Partridge que esperava que o ch dela tivesse sido um 
sucesso.
        A Partridge corou muito e empertigou-se ainda mais.
        - Obrigada, miss, mas a Agnes afinal no apareceu.
        - Oh! lamento.
        - Eu no me importei - disse a Partridge.
        Estava to indignada com a afronta que condescendeu em desabafar connosco.
        - No fui eu que tive a ideia de a convidar! Ela  que me telefonou a dizer que estava preocupada 
com uma coisa e se podia vir c, j que era o dia de folga dela. E eu disse que sim, dependendo da 
permisso dos senhores, que obtive. E depois disso nem sinal dela! E nem uma palavra de desculpa, 
embora espere receber um postal amanh de manh. Hoje em dia, estas raparigas no sabem qual  o seu 
lugar no fazem ideia de como devem comportar-se.
        A Joanna tentou acalmar os sentimentos feridos da Partridge.
        - Talvez no se sentisse bem. No telefonou a saber?
        A Partridge empertigou-se outra vez.
        - No, no telefonei, miss. De facto, no telefonei. Se a Agnes gosta de se comportar 
indelicadamente, isso  l com ela, mas quando nos virmos hei-de ralhar-lhe.

        A Partridge saiu da sala, ainda muito indignada, e eu e a joanna rimo-

-nos.

        - Provavelmente era um caso para os ~(Conselhos da Coluna da Tia Nancy* - disse eu. - x(O meu 
namorado anda muito frio comigo, que devo fazer?>~ Na falta da Tia Nancy, era a Partridge a consultada, 
mas em vez disso

100

deve ter havido uma reconciliao, e espero que, neste momento, a Agnes e o namorado sejam um 
daqueles pares silenciosos, unidos num abrao, que encontramos subitamente de p junto a uma sebe 
escura. Ficamos muito embaraados ao v-los, mas eles no se constrangem connosco.
A Joanna riu-se e disse que esperava que fosse isso.
        Comemos a falar das cartas annimas e a perguntarmo-nos se o Nash e o melanclico Graves 
estariam a fazer progressos.
        - Faz hoje exactamente uma semana - disse a joanna - que Mrs. Symmington se suicidou.  de 
crer que nesta altura j tenham descoberto alguma coisa. Impresses digitais, ou a letra, ou qualquer 
coisa.
        Respondi-lhe distraidamente. Algures no meu subconsciente crescia uma estranha inquietao. De 
certa forma, estava ligada  frase -Kexactamente uma semana>~ que a joanna usara.
        Atrevo-me a dizer que devia ter tirado concluses mais cedo. Talvez, inconscientemente, o meu 
esprito j estivesse desconfiado.
        Seja como for, o fermento estava a levedar. A inquietao estava a crescer, a chegar a um ponto 
crtico.
        A Joanna notou, subitamente, que eu no estava a prestar ateno ao seu relato animado de um 
encontro na aldeia.
        - Que se passa, Jerry~.?
        No respondi, porque o meu esprito estava ocupado a coordenar as coisas.
        0 suicdio de Mrs. Symmington... Estava sozinha em casa naquela tarde... Sozinha em casa, 
porque as criadas estavam defolga... H exactamente uma semana...
        - Jerry, que...
        Interrompi-a.
        - joanna, as criadas tm folga uma vez por semana, no ?
        - E domingos alternados - disse a joanna. - Que...
        - Deixa l os domingos. Elas saem no mesmo dia todas as semanas?
        - Sim. Costuma ser assim.
        A Joanna fitava-me com curiosidade. 0 seu esprito no seguira o mesmo caminho que o meu.
        Atravessei a sala e toquei  campainha. A Partridge veio.
- Diga-me uma coisa - disse eu. - Essa Agnes Woddell est a servir?

101
        - Sim, sin Em casa de Mrs. Symmington. Em casa de Mr Symmington,                Nessa altura, 
soube que a minha suspeita estava certa.
 assim que devo dizer agora.                Escutei vagamente um rudo de vozes no outro lado, depois o
        Respirei fundo. Olhei para o relgio. Eram dez e meia.
                Symmington em pessoa falou.
        - Acha que j ter voltado?                - Ol, Burion, que se passa?
        A Partridge tinha um ar reprovador.                - A sua criada Agnes ainda no voltou?
        - Sim, sir. As criadas tm de voltar por volta das dez. Eles so anti-                - No. Miss 
Hofiand foi agora ver Que se passa? No houve um aciden
quados.        te, pois no?
        Eu disse: - Vou telefonar                - Um acidente, no - disse eu.
        Sa para o hafi. A Joanna e a Partridge seguiram-me. A Partridge estava                - Quer dizer que 
tem razes para crer que aconteceu alguma coisa 
nitidamente furiosa. A Joanna estava perplexa. Enquanto eu tentava obter o        rapariga?
nmero, disse:                Eu disse sombriamente: - No me surpreendia nada.
        - Que ests a fazer. jerry9
        - Gostava de ter a certeza de que a rapariga chegou bem.
        A Partridge fungou. Fungou apenas, nada mais. Mas no me importei
nada com as fungadelas da Partridge.
        Elsie Holland atendeu o telefone do outro lado.
        - Desculpe estar a telefonar - disse eu. - Fala Jerry Burton. A... a... a vossa criada Agnes j est 
em casa?
        S depois de ter dito isto  que me senti um pouco tolo. Porque se a
i
rapariga tivesse chegado, e estivesse tudo bem, como iria explicar o tele-
fonema e a pergunta? Teria sido melhor ter deixado a Joanna fazer a pergun-        ~l
ta, embora mesmo assim fosse necessrio dar uma explicao. Previ o incio
de uma nova senda de mexericos em Lymstock tendo no centro a minha
pessoa e a desconhecida Agnes Woddell.
        Elsie HoHand pareceu, naturalmente, muito surpreendida.
        - A Agnes? Oh! a esta hora j deve estar em casa.
        Senti-me um tolo, mas prossegui.
        - Importa-se de ir ver se ela j chegou, Miss Hofiand?
        H uma coisa a dizer a favor de uma preceptora; est habituada a fazer
coisas quando a mandam. No lhe compete discutir os porqus! Elsie
Holland pousou o auscultador e foi-se embora.
        Dois minutos mais tarde, ouvi voz dela.
        - Est a, Mr. Burton?
        - Sim.
        - Na realidade, a Agnes ainda no chegou.

102        103
1 901!LF

CAPFTULO OITO

        Naquela noite dormi mal. Tenho a impresso de que, mesmo ento, havia peas do quebra-
cabeas a flutuarem no meu esprito. Creio que, se me tivesse dedicado a isso, podia ter resolvido tudo 
naquela altura. Seno, por que  que aqueles fragmentos me perseguiam to persistentemente?
        Que sabemos ns em qualquer momento? Muito mais, ou assim creio, do que aquilo que julgamos 
que sabemos! Mas no conseguimos penetrar nesse conhecimento subterrneo. Est l, mas no 
conseguimos alcan-lo.
        Fiquei deitado na minha cama, a remexer-me com inquietao, e s surgiam pedaos indefinidos 
do quebra-cabeas para me torturarem.
        Existia um padro, se ao menos eu conseguisse agarr-lo... Eu devia saber quem escreveu 
aquelas malditas cartas. Havia algures uma pista, se ao menos conseguisse segui-Ia...
         medida que adormecia, tinha palavras a danarem irritantemente no meu esprito sonolento.
        ~xno h fumo sem fogo.>> No h fogo sem fumo. Fumo... Fumo? Cortina de fumo... No, isso 
era na guerra, uma expresso da guerra. Guerra. Pedao de papel... S um pedao de papel. Blgica, 
Alemanha...
        Adormeci. Sonhei que levava Mrs. Dane Calthrop, que se transformara num galgo, a dar um 
passeio com coleira e trela.

II

        Foi o toque do telefone que me despertou. Um toque persistente.
        Sentei-me na cama, olhei para o relgio. Eram sete e meia. Ainda no me tinham acordado. 0 
telefone estava a tocar l em baixo no hall.
        Saltei da cama, vesti um roupo e corri l para baixo. Cheguei, por pouco,

104

antes da Partridge, que vinha da cozinha pela porta de servio. Levantei o auscultador - Estou? - Oh! - Era 
um suspiro de alvio. -  o senhor! - A voz da Megan. A voz da Megan indescritivelmente desamparada e 
assustada. - Oh! venha, por favor... venha. Oh! por favor, venha. Vem? - Vou imediatamente - disse eu. - 
Ests a ouvir? Imediatamente. Subi as escadas duas a duas e entrei no quarto da joanna. - Olha, Jo, vou a 
casa dos Symmingtons. A joanna levantou a cabea loura e encaracolada da almofada e esfregou os olhos 
como uma criana. - Porqu, que aconteceu? - No sei. Era a mida, a Megan, Parecia completamente 
exausta. - Que achas que aconteceu? - A criada Agnes, se no me engano. Quando ia a sair pela porta, a 
joanna chamou-me: - Espera. Eu levanto,-me e levo-te de carro. - No  preciso. Eu conduzo. - No podes 
conduzir o carro. - Posso sim. E podia. Provocava dores, mas no demasiadas. Lavei-me, barbeei-me, 
vesti-me, tirei o carro da garagem e conduzi-o at casa dos Symmingtons em meia hora. No foi nada mau. 
A Megan devia estar atenta  minha chegada. Saiu de casa a correr e agarrou-se a mim. 0 seu rostinho 
abatido estava plido e crispado. - Oh! veio... veio! - Coragem, cara linda - disse eu. - Vim, sim. 0 que foi? 
Comeou a tremer. Envolvi-a com o meu brao. - Eu... eu encontrei-a. - Encontraste a Agnes? Onde? 0 
tremor aumentou. - Debaixo das escadas. H l um armrio. Tem canas de pesca e tacos de golfe, e 
essas coisas. Sabe como . Acenei afirmativamente. Era o armrio habitual. A Megan continuou.

105
        - Ela estava l toda comprimida, e... eftia, horrivelmente fria. Estava... estava morta, sabe!
        Perguntei com curiosidade: - Que te levou a ver l?
        - No... no sei. 0 senhor telefonou ontem  noite. E comemos todos a perguntar-nos onde 
estaria a Agnes. Espermos a p durante algum tempo, mas ela no veio, e por fim deitmo-nos. No 
dormi muito bem e levantei-me cedo. S estava a Rose (a cozinheira, sabe) a p. Estava muito zangada por 
a Agnes no ter voltado. Disse que j antes tinha estado num stio qualquer onde uma rapariga fugiu assim. 
Bebi um pouco de leite e comi po com manteiga na cozinha... e de repente a Rose entrou com um ar 
esquisito e disse que as roupas de sair da Agnes ainda estavam no quarto dela. As roupas melhores, com 
que ela saa. E eu comecei a pensar se... se ela teria chegado a sair de casa, e comecei a procurar, e abri 
o armrio debaixo das escadas e... e ela estava l...
        - Algum telefonou  Polcia, suponho?
        - Sim, esto c agora. 0 meu padrasto telefonou logo. E depois, eu... eu achei que no aguentava e 
telefonei-lhe a si. No se importa?
        - No - disse eu. - No me importo.
        Olhei para ela com curiosidade.
        - Deram-te um pouco de conhaque, ou caf ou ch depois - depois de a teres encontrado?
        A Megan abanou a cabea.
        Amaldioei todo o mnage Symmington. 0 emproado do Symminglon no pensou em mais nada 
seno na Polcia. Nem Elsie Holland, nem a cozinheira pareciam ter pensado no efeito da terrvel 
descoberta numa mida sensvel.
        - Anda da, cara linda - disse eu. - Vamos  cozinha.
        Contornmos a casa at  porta das traseiras e entrmos na cozinha. Rose, uma mulher de 
quarenta anos, rechonchuda e com cara de lua-cheia, estava a beber ch forte junto  lareira da cozinha. 
Saudou-nos com uma torrente de palavras e com a mo no corao.
        Ficara muito indisposta, disse-me ela, com umas palpitaes horrveis! S de pensar que podia ter 
sido ela, podia ter sido qualquer uma delas a ser assassinada na cama, podia sim.

106

        - Sirva uma boa chvena desse ch a Miss Megan - disse eu. - Ela sofreu um choque, sabe. 
Lembre-se de que foi ela que encontrou o corpo.
        A mera aluso a um corpo quase disparou a Rose outra vez, mas eu pus fim a isso com um olhar 
duro e ela deitou o lquido escuro numa chvena.
        - Aqui tens, mida - disse eu  Megan. - Bebe tudo. Presumo que no tem um pouco de conhaque, 
Rose?
        A Rose disse, de modo hesitante, que tinha sobrado uma gota do conhaque para culinria dos 
pudins do Natal.
        - Serve - disse eu, e pus um bocado na chvena da Megan. Pelo olhar da Rose, vi que ela achara 
aquilo uma boa ideia.
        Disse  Megan que ficasse com a Rose.
        - Posso confiar em si para cuidar de Miss Megan? - disse eu, e a Rose replicou satisfeita: - Oh! 
sim, sir
        Entrei dentro de casa. Se eu bem conhecia a Rose e o seu tipo, em breve acharia necessrio 
revigorar as foras com um pouco de alimento, e isso tambm ia ser bom para a Megan. Que raio de gente! 
Por que  que no cuidavam da mida?
        Intimamente furioso, encontrei Elsie Holland na entrada. No pareceu surpreendida por me ver. 
Suponho que a terrvel excitao da descoberta fazia com que as pessoas no prestassem ateno a quem 
entrava e saa. 0 polcia, Bert Rundle, estava junto  porta da frente.
        Elsie Holland disse com voz entrecortada:
        - Oh! Mr. Burton, no  horrvep Quem pode ter feito uma coisa to medonha?
        - Ento,foi assassnio?
        - Oh! sim. Bateram-lhe na parte de trs da cabea.  s sangue e cabelo... oh!  horrvel, e 
enfiaram-na naquele armrio. Quem pode ter feito uma coisa to perversa? E porqu? Pobre Agnes, tenho a 
certeza de que ela nunca prejudicou ningum.
        - No - disse eu. - Algum cuidou prontamente para que isso no acontecesse.
        Ela olhou-me fixamente. No era, pensei eu, uma rapariga esperta. Mas tinha bons nervos. Como 
de costume, estava levemente corada com a excitao, e at imaginei que, de um modo macabro, e apesar 
de ter um corao naturalmente bondoso, ela estava a divertir-se com o drama.

107
        Disse apologeticamente: - Tenho de ir ver os midos. Mr Symmington no quer que eles tenham 
um choque. Quer que os mantenha afastados de tudo.
        - Soube que foi a Megan que encontrou o corpo - disse eu. - Espero que esteja algum a tratar 
dela.
        Devo dizer a favor de Elsie Holland que pareceu arrependida.
        - Oh! valha-me Deus - disse. - Esqueci-me completamente dela. Oxal esteja bem. Tenho estado 
to atarefada, sabe, e a Polcia e tudo... mas foi um descuido da minha parte. Coitada da mida, deve estar 
a sentir-se mal. Vou v-Ia imediatamente.
        Compadeci-me.
        - Ela est bem - disse eu. - A Rose est a olhar por ela. V ter com os midos.
        Ela agradeceu-me com um sorriso de dentes brancos como lpides e precipitou-se pelas escadas 
acima. No fim de contas, a obrigao dela eram os rapazes e no a Megan - a Megan no era obrigao de 
ningum. A Elsie era paga para cuidar dos malditos fedelhos do Symmington. Dificilmente se podia 
censur-la por fazer isso.
        Enquanto ela se precipitava pela curva das escadas, fiquei de respirao suspensa. Por um 
instante vislumbrei uma Vitria de Samotrcia, imortal e incrivelmente bela, em vez de uma preceptora 
conscienciosa.
        Nessa altura abriu-se uma porta e o superintendente Nash saiu para o hall com o Symmington 
atrs dele.
        - Oh! Mr Burton - disse ele. - Ia agora telefonar-lhe. Ainda bem que est aqui.
        No me perguntou - nessa ocasio - por que  que eu estava ali.
        Virou a cabea e disse ao Symmington:
        - Vou usar esta sala, se me der licena.
        Era uma saleta com uma janela para a frente da casa.
        - Com certeza, com certeza.
        0 Symmington estava bastante sereno, mas parecia desesperadamente cansado. 0 
superintendente Nash disse com amabilidade:
        - No seu lugar, ia tomar o pequeno-almoo, Mr Symmington. 0 senhor, Miss Holland e Miss Megan 
vo sentir-se muito melhor depois de tomarem

108

caf e comerem uns ovos com toucinho fumado. 0 assassnio  um assunto desagradvel com o estmago 
vazio.
Falou ao jeito confortador de um mdico de famlia.
0 Symmington fez uma tmida tentativa para sorrir e disse:
- Obrigado, superintendente, vou seguir o seu conselho.
Segui o Nash at  saleta e ele fechou a porta. Depois disse:
- Chegou aqui muito depressa. Como soube?
        Contei-lhe que a Megan me telefonara. Sentia-me bem disposto em relao ao superintendente 
Nash. Pelo menos no se tinha esquecido de que a Megan tambm tinha necessidade de tomar o 
pequeno-almoo.
        - Constou-me que telefonou para c a noite passada, Mr. Burton, a perguntar por esta rapariga? Por 
que fez isso?
        Suponho que parecia estranho. Contei-lhe o telefonema da Agnes para a Partridge e que ela no 
chegara a aparecer. Ele disse: - Sim, estou a perceber...
        Disse aquilo lenta e ponderadamente, a coar o queixo.
        Depois, suspirou:
        - Bem - disse ele. - Agora trata-se de assassinio, sem sombra de dvida. Aco fsica directa. A 
questo : que sabia a rapariga? Disse alguma coisa a essa Partridge? Alguma coisa definida?
        - No me parece. Mas pode perguntar-lhe.
        - Sim. Irei l falar com ela quando acabar aqui.
        - Que aconteceu exactamente9 - perguntei. - Ou ainda no sabe?
- Mais ou menos. Era o dia de folga das criadas...
        - De ambas?
        - Sim. Parece que estiveram c duas irms que gostavam de sair juntas, e por isso Mrs. 
Symmington planeou as coisas assim. Depois, quando vieram estas duas, ela seguiu o mesmo arranjo. 
Deixavam um jantar frio pronto na sala de jantar, e Miss Holland preparava o ch.
        - Percebo.
        - Est tudo muito claro at certo ponto. A cozinheira, Rose,  de Nether Mickford, e para ir l no 
dia de folga tem de apanhar o autocarro das duas e meia. Por isso a Agnes tinha de arrumar sempre as 
coisas do almoo. A Rose costumava lavar a loia do jantar  noite, para equilibrar as coisas.
~(Foi o que aconteceu ontem. A Rose saiu s duas e vinte e cinco para

109
apanhar o autocarro, o Symmington foi para o escritrio s trs menos vinte e cinco. Elsie Holiand e as 
crianas saram s trs menos um quarto. Megan Hunter saiu de bicicleta cerca de cinco minutos mais 
tarde. Nessa altura, a Agnes estaria sozinha em casa. Tanto quanto percebi, ela saa normalmente de casa 
entre as trs e as trs e meia.
- E nessa altura a casa ficava vazia?

        - Oh! aqui, no se preocupam corri isso. Nesta regio no se fecham as casas. Como digo, s trs 
menos dez a Agnes estava sozinha em casa.  bvio que no chegou a sair, porque ainda estava de touca 
e avental quando encontrmos o corpo.
        - Presumo que pode determinar a hora aproximada da morte.
        - 0 Dt Griffith no quer comprometer-se. Entre as duas horas e as quatro e meia  a sua opinio 
mdica oficial.
        - Como  que foi morta?
        - Primeiro foi atordoada por uma pancada na parte de trs da cabea. Depois, enfiaram-lhe um 
vulgar espeto de cozinha, com a ponta bem aguada na base do crnio, provocando morte instantnea.
        Acendi um cigarro. No era uma descrio agradvel.
        - Muito cruel - disse eu.
        - Oh! sim, sim, isso foi mencionado.
        Aspirei o ar profundamente.
        - Quem foi? - disse eu. - E porqu?
        - No creio - disse o Nash lentamente - que alguma vez saibamos exactamente porqu. Mas 
podemos adivinhar.
        - Ela sabia alguma coisa?
        - Ela sabia alguma coisa.
        - No deu a entender nada a ningum daqui?
        - Tanto quanto percebi, no. Estava nervosa,  o que diz a cozinheira, desde a morte de Mrs. 
Symmington, e segundo essa Rose foi ficando cada vez mais preocupada e dizia que no sabia o que havia 
de fazer.
        Deu um breve suspiro exasperado.
        -  sempre assim. No vo ter connosco. Tm um preconceito enraizado contra o facto de ~(se 
envolverem com a Polcia>>. Se ela tivesse vindo contar-nos o que a preocupava, hoje estaria viva.
- No deu a entender nada  outra mulher?

110

        - No, ou  o que a Rose diz, e estou inclinado a acreditar nela. Porque, se o tivesse feito, a Rose 
teria deixado escapar tudo imediatamente, com uma data de enfeites da sua autoria.
        - No saber - disse eu -  de enlouquecer.

        - Contudo, podemos conjecturar, Mr. Burton. Para comear, no pode ser nada de muito definido. 
Tem de ser o tipo de coisa sobre a qual se reflecte, e  medida que se reflecte sobre ela, vai crescendo a 
inquietao. Percebe o que quero dizer?
        - Sim.
        - Na verdade, acho que sei o que foi.
        Olhei para ele com respeito.
        - Bom trabalho, superintendente.
        - Bem, Mr. Burton, sei uma coisa que o senhor no sabe, compreende? Na tarde em que Mrs. 
Symmington se suicidou, ambas as criadas deviam ter sado. Era o dia de folga delas. Mas na verdade a 
Agnes voltou para casa.
        - Sabe isso?
        - Sim. A Agnes tinha um namorado, o jovem Rendell da peixaria. A quarta-feira  o dia em que ele 
fecha cedo, e vinha ter com a Agnes, e iam passear, ou ao cinema se estivesse a chover. Nessa quarta-
feira tiveram uma discusso praticamente logo que se encontraram. A nossa autora de cartas annimas 
tinha estado activa, sugerindo que a Agnes andava ocupada com coisas mais importantes, e o jovem Fred 
Rendell estava furioso. Discutiram violentamente e a Agnes voltou precipitadamente para casa. Disse que 
no saa, a no ser que o Fred pedisse desculpa.
        - E ento?
        - Ento, Mr. Burton, a cozinha d para as traseiras da casa, mas a copa est voltada para onde 
estamos a olhar agora. S h um porto. Entra-se por ele, tanto para se ir para a porta da frente como para 
se seguir pelo caminho ao lado da casa at  porta de servio.
        Fez uma pausa.
        - Agora vou dizer-lhe uma coisa. A carta que veio para Mrs. Symmington naquela tarde, no veio 
pelo correio. Tinha um selo colado nela, e o carimbo postal falsificado, muito convincentemente, com negro-
de-fumo para parecer que tinha sido entregue pelo carteiro com as cartas da tarde. Mas, na realidade, no 
passara pelo correio. Percebe o que isso quer dizer?
        Eu disse lentamente: - Quer dizer que foi deixadapessoalmente, metida na caixa do correio, algum 
tempo antes de a correspondncia da tarde ser entregue, para poder estar entre as outras cartas.

        - Exactamente. 0 correio da tarde chega por volta das quatro menos um quarto. A minha teoria  
esta: a rapariga estava na copa a olhar atravs da janela (est disfarada por arbustos, mas v-se bastante 
bem atravs deles) para ver se o namorado aparecia para pedir desculpa.
        - E viu apessoa que entregou o bilhete? - disse eu
        -  o que eu suponho, Mr Burton. Posso estar enganado, claro.
        - No creio que esteja...  simples, e convincente... e implica que a Agnes sabia quem era a 
autora de cartas ann~.
        - Sim.
        - Mas ento por que  que ela no...
        Hesitei, franzindo o sobrolho.
        0 Nash disse muito depressa:
        - Segundo me parece, a rapariga no se apercebeu do que tinha visto. No a princpio. Algum 
deixara uma carta em casa, sim, mas esse algum no era uma pessoa que ela sonhasse sequer ligar s 
cartas annimas. Era algum, desse ponto de vista, acima de qualquer suspeita.
        ~(Mas, quanto mais pensava nisso, mais inquieta ficava. Talvez devesse contar a algum. Na sua 
perplexidade, lembrou-se da Partridge de Miss Barton, que deve ser, imagino eu, uma personalidade um 
tanto dominadora, e cuja opinio a Agnes aceitaria sem hesitar. Decidiu perguntar  Partridge o que devia 
fazer.
        - Sim - disse eu pensativamente. - Encaixa tudo bastante bem. E seja como for, a Autora das 
Cartas Annimas descobriu. Como  que ela descobriu, superintendente?
        - No est habituado a viver no campo, Mr. Burton.  uma espcie de milagre a forma como as 
coisas se espalham. Antes de mais nada, h a chamada telefnica. Quem a escutou do seu lado?
        Pus-me a pensar
        - Fui eu que atendi o telefone. Depois, chamei a Partridge para o cimo das escadas.
        - Mencionou o nome da rapariga?
        - Sim... sim, mencionei.

112

- Algum ouviu?
- A minha irm ou Miss Griffith podem ter ouvido.
- Ah! Miss Griffith. Que fazia ela l?
Eu expliquei.
- Ela ia voltar para a aldeia?
- Primeiro ia a casa de Mr. Pye.
0 superintendente Nash suspirou.
- So dois meios para a coisa se ter espalhado por toda a povoao.
No quis acreditar.

        - Quer dizer que tanto Miss Griffith como Mr Pye se dariam ao trabalho de repetir uma informao 
absurda como essa?
        - Tudo  novidade num lugar como este. Ficaria surpreendido. Se di um calo  me da modista, 
toda a gente fica a saber! E depois h este lado. Miss Hofiand, a Rose, podiam ter escutado o que a Agnes 
disse. E h Fred Rendell. Pode ter sido ele a espalhar que a Agnes voltou para casa naquela tarde.
        Estremeci ligeiramente. Estava a olhar l para fora pela janela. Diante de mim havia um quadrado 
de relva bem arranjado, e um caminho, e o porto pequeno e vulgar.
        Algum abrira o porto, caminhara muito correcta e silenciosamente at  casa, e enfiara uma 
carta na caixa do correio. Vi, indistintamente, com os olhos do esprito, aquela vaga forma de mulher. A 
cara estava em branco, mas devia ser uma cara que eu conhecia...
        0 superintendente Nash estava a dizer:
        - Mesmo assim, isto restringe as coisas.  sempre assim que, no fim de contas, os apanhamos. 
Com uma eliminao perseverante e paciente. J no h assim muita gente que pudesse ter sido.
        - Quer dizer ... ?
        - Ficam postas de parte todas as mulheres empregadas que estiveram nos seus trabalhos toda a 
tarde de ontem. Fica posta de parte a professora.. Estava a dar aulas. E a enfermeira domiciliria. Sei onde 
ela estava ontem. No que alguma vez tivesse pensado que podia ser qualquer uma dekts, mas agora 
temos a certeza. Percebe, Mr. Burton, agora temos dois perodos de tempo s obre os quais podemos 
concentrar-nos: a tarde de ontem e a da semana anterior. No dia da morte de Mrs. Symmington, desde, 
digamos, as

113
trs e um quarto (no era possvel a Agnes ter voltado para casa mais cedo do que isso depois da 
discusso) e as quatro horas, hora a que o correio deve ter vindo (mas posso fixar isso com mais exactido 
atravs do carteiro). E ontem, das trs menos dez (altura em que Miss Megan Hunter saiu de casa) at s 
trs e meia ou, mais provavelmente, trs e um quarto, uma vez que a Agnes ainda no comeara a mudar 
de roupa.
- Que acha que aconteceu ontem?
0 Nash fez uma careta.
        - Que acho? Acho que uma certa senhora caminhou at  porta da frente e tocou  campainha, 
muito calma e sorridente, a visita da tarde... Talvez tenha perguntado por Miss Holland, ou por Miss Megan, 
ou talvez tenha trazido uma encomenda. Seja como for, a Agnes virou-se para ir buscar uma salva de prata 
para cartes-de-visita, ou para levar a encomenda, e a nossa distinta visitante bateu-lhe na parte de trs da 
sua cabea confiante.
        - Com qu?
        0 Nash disse:
        - Em geral, as senhoras daqui trazem sacos de mo enormes.  impossvel saber o que poder 
haver l dentro.
        - E depois apunhalou-a na nuca e enfiou-a dentro do armrio? No  um trabalho pesado para uma 
mulher?
        0 superintendente Nash olhou para mim com uma expresso bastante esquisita.
        - A mulher que perseguimos no  normal, longe disso, e esse tipo de instabilidade mental  
acompanhado de uma fora surpreendente. A Agnes no era uma rapariga grande.
        Fez uma pausa, depois perguntou: - Que levou Miss Megan Hunter a pensar em espreitar para 
dentro daquele armrio?
Mero instinto -.disse eu.
        Depois perguntei: - Porqu arrastar a Agnes para dentro do armrio? Que pretendiam?
        - Quanto mais tempo passasse antes de o corpo ser encontrado, mais difcil seria determinar a 
hora da morte com exactido. Se, por exemplo, Miss Holland descobrisse o corpo logo que entrou, um 
mdico poderia flx-la em menos de dez minutos, ou coisa assim, o que podia ser incmodo para a nossa 
amiga.

114

Eu disse, carrancudo:
- Mas se a Agnes suspeitava dessa pessoa...
0 Nash interrompeu-me:
        - No suspeitava. No chegava ao ponto de suspeita definitiva. Ela s achava aquilo x(esquisito>~. 
Era uma rapariga estpida, imagino eu, e s estava vagamente desconfiada, com uma sensao de que 
alguma coisa estava errada. Sem dvida que no suspeitava que estava a enfrentar uma mulher capaz de 
assassinar
        - 0 senhor suspeitava disso? - perguntei.
        0 Nash abanou a cabea.
        - Devia ter sabido. Aquela histria do suicdio, percebe, assustou a Autora das Cartas Annimas. 
Assustou-se. 0 medo, Mr. Burton,  uma coisa instvel - disse com emoo.
        - Sim, medo. Era essa a coisa que devamos ter previsto. Medo, num crebro luntico...
        - Percebe? - disse o superintendente Nash, e de certo modo as suas palavras fizeram com que 
tudo aquilo parecesse absolutamente horrvel. Estamos a enfrentar uma pessoa que  respeitada e 
estimada; de facto, a]gum de boa posio social!

        Passado pouco tempo, o Nash disse que ia interrogar a Rose mais uma vez. Perguntei-lhe, 
bastante acanhado, se tambm podia ir Para surpresa minha, ele concordou cordialmente.
        - Tenho muito prazer na sua cooperao, Mr. Burton, se assim me posso exprimir.
        - Isso parece suspeito - disse eu. - Nos livros, quando um detective aceita a ajuda de algum, esse 
algum  em geral o assassino.
        0 Nash deu uma gargalhada e disse: - Dificilmente o senhor seria o tipo de escrever cartas 
annimas, Mr. Burton.
        ~xsineramente, pode ser-nos muito til - acrescentou.
        - Ainda bem, mas no vejo como.
        -  um estranho aqui,  por isso. No tem ideias preconcebidas sobre as

115
pessoas de c. Mas ao mesmo tempo tem a oportunidade de ficar a saber coisas de um modo a que eu 
chamaria social.
- A assassina  uma pessoa de boa posio social - murmurei.
- Exactamente.
- Vou ser o espio dentro de portas?
- Tem alguma objeco?
Reflecti sobre o assunto.

        - No - disse eu -, para ser sincero, no. Se h por a uma doida perigosa a levar mulheres 
inofensivas a suicidarem-se e a dar pancadas na cabea de pobres criaditas, no me oponho a fazer um 
pouco de trabalho sujo para que essa doida seja internada.
        -  muito sensato da sua parte. E deixe-me que lhe diga, a pessoa que procuramos  perigosa. 
To perigosa como uma cascavel, e uma cobra-capelo, e uma mamba-preta combinadas numa s.
        Tive um leve arrepio. Disse:
        - De facto, temos de nos apressar.
        - Exactamente. No pense que estamos inactivos, na Polcia. No estamos. Estamos a trabalhar 
em vrias linhas diferentes.
        Disse isto sombriamente.
        Tive uma viso de uma teia de aranha fina e extensa...
        0 Nash queria voltar a ouvir a histria da Rose porque, como me explicou, ela j lhe tinha contado 
duas verses diferentes, e quantas mais verses obtivesse dela, mais provvel era que alguns gros de 
verdade fossem incorporados.
        Encontrmos a Rose a lavar a loua do pequeno-almoo, e ela parou imediatamente, e revirou os 
olhos, e agarrou-se ao corao, e explicou de novo que se sentira esquisita a manh toda.
        0 Nash foi paciente com ela, mas firme. Da primeira vez fora condescendente, como ele me 
contou, e da segunda peremptrio, e agora empregou uma combinao das duas coisas.
        A Rose alargou-se prazenteiramente sobre os pormenores da semana anterior, sobre como a 
Agnes tinha andado com um medo terrvel, e como tremera, e dissera x~No me pergunte~> quando a 
Rose a instara a dizer o que se passava. - Seria a morte, se me contasse, foi o que ela disse - acabou a 
Rose, revirando os olhos com satisfao.

116

A Agnes no dera nenhuma pista sobre o que a perturbava?
No, a no ser que temia pela sua vida.

        0 superintendente Nash suspirou e abandonou o assunto, contentando-se em extrair um relato 
exacto das actividades da Rose na tarde anterior.
        Este, descrito com simplicidade, foi que a Rose apanhara o autocarro das duas e trinta e passara a 
tarde e a tardinha com a famlia, tendo regressado no autocarro das oito e quarenta de Nether Mickford. 0 
relato complicou-se com os extraordinrios pressentimentos de mal que a Rose tivera toda a tarde, e com o 
facto de a irm ter comentado isso, e de ela nem sequer ter conseguido tocar num pedao de bolo de 
sementes.
        Da cozinha, fomos  procura de Elsie Holland, que superintendia as lies das crianas. Como 
sempre, Elsie Hofiand foi competente e prestvel. Levantou-se e disse:
        - Agora, Colin, tu e o Brian vo fazer estas trs somas e vo ter as respostas prontas quando eu 
voltar.
        Depois levou-nos para o quarto das crianas. - Pode ser aqui? Pensei que seria melhor no 
falarmos diante dos midos.
        - Obrigado, Miss Holland. Diga-me s, mais uma vez, se tem a certeza absoluta de que a Agnes 
nunca se referiu ao facto de estar preocupada com qualquer coisa... isto , depois da morte de Mrs. 
Symmington.
        - No, nunca me disse nada. Era uma rapariga muito calada, sabe, e no falava muito.
        - 0 oposto da outra, ento.
        - Sim, a Rose fala de mais. s vezes tenho de lhe dizer que no seja impertinente.
        - Pode dizer-me exactamente o que aconteceu ontem  tarde? Tudo aquilo de que se lembre.
        - Bem, almomos como de costume.  uma hora, e apressmo-nos um pouco. No deixo os 
rapazes mandriarem. Deixe-me ver Mr Symmington voltou para o escritrio, e eu ajudei a Agnes a pr a 
mesa para o jantar... os rapazes andaram a correr l fora no jardim at eu estar pronta para os levar.
        - Onde foram?
        - Na direco de Combeacre, pelo caminho do campo; os midos queriam pescar. Esqueci-me da 
isca e tive de voltar para vir busc-la.
        - A que horas foi isso?
        - Deixe ver, samos por volta das trs menos vinte, ou pouco depois. A Megan era para vir 
connosco, mas mudou de ideias. Ia sair de bicicleta. Tem uma paixo por andar de bicicleta.

        Quero dizer, que horas eram quando voltou pela isca? Entrou em

casa?

        - No. Tinha-a deixado na estufa, nas traseiras. No sei que horas eram nessa altura... deviam ser 
umas trs menos dez.
        - Viu a Megan ou a Agnes?
        - A Megan j devia ter sado, creio eu. No, no vi a Agnes. No vi ningum.
        - E depois disso, foram pescar?
        - Sim, seguimos junto do riacho. No pescmos nada. Quase nunca pescamos nada, mas os 
midos divertem-se. 0 Brian molhou-se muito. Tive de lhe trocar a roupa quando chegmos.
        - Serve o ch  quarta-feira, no ?
        - Sim. Est tudo pronto na sala de estar para Mr. Symmington. S fao o ch quando ele chega a 
casa. Eu e as crianas tomamos o nosso na sala de aulas... e a Megan, claro. Tenho o meu prprio servio 
de ch e tudo no armrio l da sala.
        - A que horas chegaram?
        - As cinco menos dez. Levei os rapazes para cima e comecei a pr a mesa do ch. Depois, 
quando Mr. Symmington chegou s cinco, desci para fazer o ch dele, mas ele disse que o tomava 
connosco na sala de aula. Os midos ficaram muito contentes. Depois jogmos s cartas. Parece to 
horrvel pensar nisso agora, com a pobre rapariga no armrio o tempo todo.
        - Normalmente iria algum quele armrio?
        - Oh! no, s  usado para guardar coisas velhas. Os chapus e casacos esto pendurados no 
pequeno guarda-roupa  direita de quem entra pela porta da frente. Podiam passar meses at algum ir ao 
outro armrio.
        - Percebo. E quando voltou, no notou nada de invulgar, nada de anormffl?
        Os olhos azuis abriram-se muito.
        - Oh! no, inspector, absolutamente nada. Estava tudo exactamente como de costume.  isso que 
 horrvel.
        - E na semana anterior?

118

Refere-se ao dia em que Mrs. Symmington... Sim.

Oh! isso foi terrvel, terrvel!
Sim, sim, eu sei. Tambm esteve fora a tarde toda?
        Oh! sim, saio sempre com os midos  tarde, se o tempo est razovel. Temos as aulas de 
manh. Lembro-me de que fomos at  charneca, fica bastante longe. Ao voltar, tive medo de estar a 
chegar atrasada, porque quando cheguei ao porto avistei Mr Symmington na outra extremidade da rua, a 
voltar do escritrio, e eu nem sequer tinha posto a chaleira ao lume, mas s eram cinco menos dez.
- No subiu para ver Mrs. Symmington?
        - Oh! no. Nunca o fazia. Ela descansava sempre depois do almoo. Tinha ataques de nevralgia, 
que costumavam sobrevir depois das refeies. 0 Dr. Griffith dera-lhe umas cpsulas para tomar Costumava 
deitar-se e tentar dormir.
        0 Nash disse numa voz casual:
        - Ento ningum lhe levou o correio ao andar de cima?
        - 0 correio da tarde? No, eu via a caixa do correio e punha as cartas na mesa da entrada quando 
chegava. Mas muitas vezes Mrs. Symmington descia e ia ela busc-las. No dormia a tarde toda. Em 
geral, estava a p por volta das quatro.
        - No pensou que acontecera alguma coisa, por ela no estar levantada naquela tarde?
        - Oh! no, nunca pensei em tal coisa. Mr. Symmington estava a pendurar o casaco na entrada, e 
eu disse ~(O ch ainda no est pronto, mas a chaleira est quase a ferver~>, e ele acenou 
afirmativamente e chamou: ~,Mona, Mona!>>, e depois, como Mrs. Symmington no respondeu, foi ao 
andar de cima, ao quarto dela, e deve ter tido um choque terrvel. Chamou-me, e eu fui ter com ele, e ele 
disse ~(Mantenha as crianas afastadas>~, e depois telefonou ao Dr. Griffith, e esquecemo-nos da 
chaleira, e o fundo queimou-se! Meu Deus! Foi horrvel, e ela tinha estado to feliz e animada ao almoo.
        0 Nash disse abruptamente: - Qual  a sua opinio sobre a carta que Mrs. Symmington recebeu, 
Miss Holland?
        - Ob! acho que era perversa... perversa!
        - Sim, sim, no me refiro a isso. Acha que era verdadeira?

119
Elsie Holland disse, indignada:        Ela  a segunda pessoa - disse eu. - H Emily Barion, no se
        - No, de facto, no acho. Mrs. Symmington era muito sensvel        real-        esquea.
mente muito sensvel. Tinha de tomar todo o gnero de coisas para os nervos.        0 Nash soltou um risinho 
abafado.
        E era muito        bem, miudinha. - Elsie corou. - Qualquer coisa daquele g-        - No devia 
acreditar em tudo o que lhe dizem, Mr. Burton. Miss Barton
        nero        desagradve4 quero eu dizer, seria um grande choque para ela.        recebeu uma, mais do 
que uma.
        0 Nash ficou calado por um momento, depois perguntou:                        - Como sabe?
        - Recebeu alguma carta dessas, Miss Holland?                        - Foi aquele drago dedicado 
onde ela est hospedada que me disse, a
        - No, no recebi nenhuma.                antiga criada de sala ou cozinheira. Florence Elford. 
Estava muito indignada
        - Tem a certeza? Por favor - levantou uma mo - no responda                com isso. Gostaria de 
beber o sangue da autora.
apressadamente. No so coisas agradveis de receber, eu sei. E s vezes as                        - Por 
que  que Miss Emily disse que no tinha recebido nenhuma?
pessoas no gostam de admitir que as receberam. Mas neste caso  muito                        - Pudor. 
A linguagem das cartas no  bonita. Miss Barton passou a
importante que saibamos. Estamos conscientes de que as afirmaes feitas                vida a evitar as 
coisas grosseiras e vulgares.
nelas so apenas um amontoado de mentiras, por isso no precisa de se                        - Que diziam as 
cartas?
sentir constrangida.                        - 0 habitual. No caso dela, era muito ridculo. E incidentalmente 
insi
        - Mas eu no recebi nada, superintendente. Na verdade, no recebi.                nuavam que ela 
envenerara a velha me e a maioria das irms!
Nada do gnero.        ; 1                Incrdulo, disse:
        Estava indignada, quase a chorar, e os seus desmentidos pareciam bas-                        
        Quer dizer que na verdade temos uma doida perigosa  solta e que
tante genunos.
                        no podemos descobri-Ia imediatamente?
        Quando ela voltou para junto das crianas, o Nash ficou a olhar l para                        
        Havemos de a descobrir - disse o Nash, e a sua voz era ameaadora.
fora pela janela.                - Ela vai escrever uma carta a mais.
        - Bem - disse ele -, acabou-se! Ela diz que no recebeu nenhuma                                Mas, 
meu Deus, homem, ela no vai continuar a escrever estas coisas,
carta destas. E parece que est a dizer a verdade.                no agora.
        - Com certeza que disse. Tenho a certeza de que disse.                        Ele olhou para mim.
        - Hum! - disse o Nash. - Ento, o que eu quero saber  por que diabo                        
        Oh! sim, vai escrever. Agora ela no consegue parar, compreende? 
no recebeu?
                        um desejo mrbido. As cartas vo continuar, no tenha dvidas.
        Prosseguiu com impacincia enquanto eu o fitava.
        -  uma rapariga bonita, no ?
        - Bastante mais do que bonita.
        - Exactamente. Na realidade,  invulgarmente bonita. E  jovem. De
facto, ela  exactamente a vtima de que um autor de cartas annimas gos
taria. Ento, porque foi deixada de fora?
        Abanei a cabea.
        -  interessante, sabe. Tenho de falar disto ao Graves. Ele perguntou se
podamos inform-lo com toda a certeza de algum que no tivesse recebido
uma.

120        121
,ir

                estava preocupada com qualquer coisa, e que no sabia o que fazer, e que
                gostava que Miss Partridge a aconselhasse.
                        - A Partridge mencionou esse facto a algum? - perguntou ajoanna.
9#ilm"                0 Nash acenou afirmativamente, com um ar carrancudo.
        CAPfTULo NovE                - Sim, pelo que pude deduzir disse a Mrs. Emory (a vossa mulher a dias)
                qualquer coisa deste gnero: que havia algumas jovens que estavam dispos
                tas a pedir conselhos aos mais velhos e que no pensavam que podiam
                resolver logo tudo sozinhas! A Agnes podia no ser muito inteligente, mas era
        Fui procurar a Megan antes me ir embora. Estava no jardim e parecia        uma rapariga boa e 
respeitosa e que sabia comportar-se.
quase recuperada. Saudou-me, bastante animada.                - Na verdade,  a Partridge a vangloriar-
se - murmurou ajoanna. - E
        Sugeri que voltasse para nossa casa por algum tempo, mas depois de        Mrs. Emory pode ter 
espalhado isso pela cidade?
uma hesitao momentnea abanou a cabea.                - Exactamente, Miss Burton.
        -  muita gentileza da sua parte, mas acho que vou ficar aqui. No fim de                - H uma coisa 
que me surpreende bastante - disse eu. - Por que 
        contas,         bem, suponho que  a minha casa. E atrevo-me a dizer que posso        que eu 
e a minha irm fomos includos entre as pessoas que receberam cartas
ajudar um pouco com os midos.        annimas? ramos estranhos aqui, ningum podia ter m vontade 
contra
        - Bem - disse eu -, como queiras.        ns.
        - Ento, acho que fico. Posso        posso        - No est a tomar em considerao a mentalidade de 
uma Autora de
- Sim? - instiguei.        Cartas Annimas: tudo lhe serve. Pode dizer-se que a m vontade  contra a
        - Se        se acontecer alguma coisa horrvel posso telefonar-lhe, no pos-        humanidade.
so, e o senhor vem?                                Suponho que era isso que Mrs. Dane Calthrop queria 
dizer - disse a
        Fiquei enternecido. - Claro. Mas que coisa horrvel achas que pode        Joanna pensativamente.
acontecer?                        0 Nash olhou para ela de modo interrogador, mas ela no o esclareceu.
        - Oh! no sei. - Pareceu indecisa. - Neste momento, parece que as        0 superintendente disse:
coisas esto assim, no parece?                                No sei se por acaso olhou com ateno 
para o envelope da carta que
        - Por amor de Deus! - disse eu. - No descubras mais corpos! No te        recebeu, Miss Burton. 
Se olhou, deve ter notado que, na verdade, ele estava
faz bem.                endereado a Miss Barton, e que o a foi depois alterado para um u.
        Ela deu-me um sorrisinho.                        Esta observao, devidamente interpretada, devia 
ter-nos dado uma
        - No, no faz. Fez-me sentir muito mal.        pista sobre todo este assunto. Mas na verdade nenhum 
de ns viu qualquer
        No me agradava muito deix-la l, mas, no fim de contas, como ela        significado nela.
dissera, era a sua casa. E eu imaginava que agora Elsie Holland iria sentir-se                0 Nash foi-se 
embora e eu fiquei com ajoanna. - No achas que aquela
mais responsvel por ela.                carta estava destinada a Miss Emily, pois no? - disse ela.
        Eu e o Nash fomos juntos para Little Furze. Enquanto eu fazia um relato                - Dificilmente 
podia comear por ~,Sua rameira pintada>> - salientei, e
dos acontecimentos da manh  joanna, o Nash dedicou a sua ateno         a joanna concordou.
Partridge. Reuniu-se a ns, com um ar desanimado.                Depois ela sugeriu-me que fosse  
cidade. - Devias ouvir o que as pes
        - No foi de grande ajuda. Segundo esta mulher, a rapariga s disse que        soas dizem. Deve ser o 
assunto da manh!
                122                                123
        Sugeri-lhe que viesse tambm, mas para grande surpresa minha ajoanna recusou. Disse que ia 
dedicar-se ao jardim.
        Hesitei na entrada e disse, baixando a voz:
        - Suponho que a Partridge est inocente?
        - A Partridge!
        0 espanto na voz da joanna fez com que me envergonhasse da minha ideia. Disse 
apologeticamente: - S estava a pensar comigo mesmr Ela  bastante ~xesquisita>~ em certos aspectos; 
uma solteirona mal-humorada, o tipo de pessoa que pode ter uma obsesso religiosa.
        - Isto no  obsesso religiosa, ou pelo menos foi o que me disseste que o Graves disse.
        - Bem, obsesso sexual. Parece que esto intimamente ligadas. Ela  reprimida e respeitvel, e 
esteve aqui fechada anos a.flo com uma data de mulheres idosas.
        - Que  que te ps essa ideia na cabea?
        Eu disse lentamente:
        - Bem, s temos a palavra dela sobre o que a Agnes lhe disse, no  verdade? Supe que a Agnes 
perguntou  Partridge por que foi deixar um bilhete naquele dia... e que a Partridge lhe disse que aparecia  
tarde para lhe explicar.
        - E depois camuflou a coisa, vindo ter connosco e perguntando se a rapariga podia vir c?
        - Sim.
        - Mas a Partridge no saiu naquela tarde.
        - No sabemos isso. Ns samos, lembras-te?
        - Sim,  verdade.  possvel, suponho. - A Joanna meditou sobre o assunto. - Mas mesmo assim 
acho que no. No me parece que a Partridge tenha inteligncia para ocultar as pistas das cartas. Para 
limpar impresses digitais e tudo isso. No se trata s de astcia, mas de conhecimento. No me parece 
que ela o tenha. Suponho - a joanna hesitou, depois disse lentamente - que eles tm a certeza de que  
uma mulher, no tm?
        - Ests a pensar que  um homem?! - exclamei incredulamente.
        - No, no um homem comum... mas um certo tipo de homem. Na verdade estou a pensar em Mr. 
Pye.
        - Ento o Pye  a tua escolha?

        - No achas que  uma possibilidade?  o tipo de pessoa que pode sentir-se s, e infeliz... e 
rancorosa. Toda a gente se ri dele, percebes? No consegues v-lo a odiar secretamente toda a gente 
normal e feliz, e a ter um estranho e perverso prazer artstico no que andava a fazer?
        - 0 Graves falou numa solteirona de meia-idade.
        - Mr. Pye - disse a joanna -  uma solteirona de meia-idade.
        - Um inadaptado - disse eu lentamente.
        - Precisamente.  rico, mas o dinheiro no ajuda. E tenho a impresso de que pode ser 
desequilibrado. Na verdade,  um homenzinho bastante assustador.
        - Ele prprio recebeu uma carta, no te esqueas.
        - No sabemos isso - realou a joanna. - S pensmos que sim. E, seja como for, ele podia estar a 
fingir.
        - Para nos enganar?
        - Sim.  suficientemente esperto para pensar nisso, e para no exagerar.
        - Deve ser um ptimo actor.
        - Mas  claro, Jerry, que quem anda a fazer isto tem de ser um ptimo actor. At certo ponto,  a 
que entra o prazer
        - Por amor de Deus, Joanna, no fales com tanta compreenso! Fazes-me ter a impresso de 
que... de que compreendes a mentalidade.
        - Acho que compreendo. Consigo mesmo entrar nesse estado de espirito. Se eu no fosse a 
joanna Burton, se no fosse jovem e razoavelmente atraente e capaz de me divertir, se eu estivesse... 
como hei-de dizer?... atrs de grades, a observar as outras pessoas a gozarem a vida, subiria em mim uma 
obscura tendncia maldosa que me faria querer magoar, torturar... at destruir?
        - joanna! - peguei-lhe pelos ombros e sacudi-a. - Ela deu um pequeno suspiro, e estremeceu, e 
sorriu-me.
        - Assustei-te, no foi, Jerry? Mas tenho a impresso de que  esta a maneira certa de resolver este 
problema. Temos de ser a pessoa, saber como sente e o que a faz agir, e depois... e depois talvez 
saibamos o que ela vai fazer a seguir.
        - Ob! que diabo! - disse eu. - E vim eu para c para vegetar e me interessar por todos os pequenos 
e encantadores escndalos locais! Pequenos e

125
encantadores escndalos locais! Calnia, difamao, linguagem obscena e        palavra ~(cedo>~. Eu 
no ia dizer-lhe que a Megan me tinha telefonado. Em vez
assassnio!        disso, disse:
                        - Sabe, fiquei um pouco inquieto a noite passada. A rapariga devia ter
                ido tomar ch a nossa casa e no apareceu.
                        - E por isso temeu o pior? Foi muito inteligente!
                        - Sim - disse eu. - Sou um autntico sabujo humano.
        A Joanna tinha razo. A High Street estava cheia de grupos interessados.                - Foi o primeiro 
assassnio que tivemos em Lymstock H uma agitao
Eu estava decidido a obter,  vez, as reaces de toda a gente.        enorme. Oxal a Polcia saiba tratar 
deste assunto como deve ser.
        Primeiro encontrei o Griffith. Parecia terrivelmente doente e cansado.                - Eu no me 
preocupava - disse eu. -  um grupo de homens eficien
De tal maneira, que fiquei intrigado. Certamente que assassnio no  tudo        tes. - Nem sequer me 
lembro de como era a rapariga, embora suponha que
no dia de trabalho de um mdico, mas a sua profisso prepara-o para enfren-        ela me abriu a porta 
dzias de vezes. Uma coisinha sossegada e insignifi
tar a maioria das coisas, incluindo sofrimento, o lado feio da natureza huma
na e o facto da morte.        cante. Agredida na cabea e depois apunhalada na nuca, foi o que o Owen
        - Parece exausto - disse eu.        me disse. Parece coisa de namorado. Que acha?
        - Pareo? - foi vago. - Oh! Tive alguns casos preocupantes ultima-                -  essa a sua soluo?
mente.                - Parece a mais provvel. Tiveram uma desavena, imagino eu. Por estes
        Incluindo a nossa doida  solta?        lados as pessoas so muito consanguneas        m 
hereditariedade, muitas

        Isso, sem dvida. - Desviou o olhar de mim para o outro lado da rua.        delas. - Fez uma pausa, 
e depois prosseguiu: - Consta que a Megan Hunter
Vi um nervo fino contrair-se-lhe na plpebra.        encontrou o corpo? Deve ter sido um choque para ela.

        - No tem suspeitas sobre        quem ?        - Foi - respondi laconicamente.
        - No. No. Quem me dera ter                - Imagino que no lhe deve ter feito muito bem. Na minha 
opinio, ela
        Perguntou abruptamente pela Joanna e disse, hesitante, que tinha umas        no  muito boa da 
cabea, e uma coisa dessas pode deix-la completamente
fotografias que ela devia gostar de ver.        pateta.
        Ofereci-me para lhas levar.                Tomei uma deciso repentina. Tinha de saber uma coisa.
        - Oh! no tem importncia. Na verdade vou passar por aqueles lados ao                - Diga-me, Miss 
Griffith, foi a senhora que persuadiu a Megan a regres
fim da manh.        sar a casa ontem?
        Comecei a recear que o Griffith estivesse apaixonado. Maldita Joanna!                - Bem, no diria 
exactamente que persuadi.
0 Griffith era um homem bom de mais para ser brandido como um trofu.                No cedi.
        Deixei-o partir, porque vi a irm dele aproximar-se e queria, s por esta                - Mas disse-lhe 
alguma coisa?
vez, falar com ela.                Aime Griffith assentou bem os ps no cho e fitou-me nos olhos. Estava
        Aime Griffith comeou, por assim dizer, no meio de uma conversa.        um pouco na defensiva. 
Disse:
        - Absolutamente chocante! - gritou. - Ouvi dizer que esteve l        - No  bom que essa jovem se 
esquive s suas responsabilidades. 
muito cedo?        nova e no sabe como so as ms-lnguas, por isso senti-me na obrigao de
        Havia uma pergunta implcita, e os seus olhos brilharam ao realar a        lhe fazer uma sugesto.
        126                127
continuar.

- Ms-lnguas ... ? - Parei de falar porque estava irritado de mais para

        Aime Griffith prosseguiu com aquela autoconflana exasperantemente complacente que era a sua 
caracterstica principal:
        - Oh! atrevo-me a dizer que o senhor no ouve os mexericos todos que correm por a. Eu ouo! Sei 
o que as pessoas andam a dizer. Repare, nem por um momento acredito que haja alguma coisa, nem por 
um momento! Mas sabe como as pessoas so: se puderem dizer alguma coisa maldosa, dizem-na! E  
uma pouca sorte para a rapariga, que precisa de ganhar a vida.
        - De ganhar a vida? - disse eu, confuso.
        Aime prosseguiu:
        -  uma situao dificil para ela, naturalmente. E eu acho que ela fez o que devia. Quero dizer, no 
podia ir-se embora sem aviso previo e deixar as crianas sem ningum para cuidar delas. Ela tem sido 
esplndida, absolutamente esplndida. Digo isso a toda a gente! Mas a tem,  uma situao desagradvel 
e as pessoas falam.
        - Est a referir-se a quem? - perguntei.
        - A Elsie Holland, claro - disse Aime Griffith com impacincia. Em minha opinio, ela  uma 
rapariga muito simptica que s tem estado a cumprir o seu dever.
        - E que andam as pessoas a dizer?
        Aime Griffith riu-se. Foi, pensei eu, um riso muito desagradvel.
        - Andam a dizer que ela j est a pensar na possibilidade de se tornar na Mrs. Symmington 
Nmero Dois, que est desejosa de consolar o vivo e de se tornar indispensvel.
        - Mas, santo Deus! - disse eu chocado - Mrs. Symmington s morreu h uma semana!
        Aime Griffith encolheu os ombros.
        - Claro.  absurdo! Mas sabe como as pessoas so! Elsie Hofiand  nova e bonita,  quanto basta. 
E'repare, ser preceptora no  um grande futuro para uma rapariga. No a censurava se ela quisesse um lar 
seguro, e um marido, e se explorasse a situao do modo adequado.
        ~x claro que - continuou ela - o coitado do Dick Symmington no faz a menor ideia de tudo isto! 
Ainda est completamente arrasado com a morte da Mona Symminglon. Mas sabe como so os homens! 
Se uma rapariga est

128

sempre ali, a tratar do seu conforto, a cuidar dele, a mostrar-se dedicada aos filhos... bem, ele acaba por 
ficar dependente dela.
Eu disse calmamente:
- Ento acha que Elsie Holland  uma mulher leviana e astuta?
Aime Griffith corou.
        - De maneira nenhuma. Tenho pena da rapariga, com as pessoas a dizerem coisas desagradveis! 
Foi por isso que eu disse mais ou menos  Megan que devia ir para casa. Parece melhor do que ter o Dick 
Symmington e a rapariga sozinhos em casa.
        Comecei a perceber as coisas.
        Aime Griffith deu uma gargalhada divertida.
        - Est chocado, Mr Burton, com o que a nossa pequena vila mexeriqueira pensa. Posso dizer-lhe 
isto: pensam sempre o pior!
        Riu-se, e acenou com a cabea, e afastou-se a passos largos.

        Encontrei Mr. Pye junto  igreja. Estava a falar com Emily Barton, que parecia corada e excitada.
        Mr Pye saudou-me com todas as demonstraes de prazer.

- Ah! Mr Burton, bom dia, bom dia! Como est a sua encantadora

.        A9
irm.~

        Disse-lhe que a joanna estava bem.

        - Mas no se junta ao nosso parlamento da aldeia? Estamos todos perturbados com as notcias. 
Assassnio! Um verdadeiro assassnio de jornal de domingo entre ns! Receio que no tenha sido o mais 
interessante dos crimes. Um tanto srdido. 0 assassnio brutal de uma criadinha de servir. No h subtileza 
no crime, mas ainda assim  indiscutivelmente uma novidade.
        Miss Barton disse timidamente:
        -  chocante, muito chocante.
        Mr. Pye virou-se para ela.
        - Iv tas a senhora est a gostar, minha querida senhora, est a gostar
        Confesse l. Desaprova, lamenta, mas h a excitao. Insisto, h a excitao!

129
        - To boa rapariga - disse Emily Barton. - Veio para minha casa do St. Clotilde Home. Era bastante 
inexperiente. Mas aprendia com muita facilidade. Transformou-se numa criadinha muito boa. A Partridge 
estava muito satisfeita com ela.
        Eu disse muito depressa:
        - Ela ia tomar ch com a Partridge ontem  tarde. - Virei-me para o Pye. - Suponho que Aime 
Griffith lhe contou.
        Falei num tom muito casual. 0 Pye respondeu, aparentemente sem suspeitar de nada: - Falou 
nisso, sim. Disse, estou a lembrar-me, que era uma novidade as criadas fazerem telefonemas dos telefones 
dos patres.
        - A Partridge nunca sonharia em fazer uma coisa dessas - disse Miss Emily -, e surpreende-me 
muito que a Agnes o tenha feito.
        - Est desactualizada, minha querida senhora - disse Mr. Pye. - Os meus dois terrores usam 
constantemente o telefone e fumavam na casa toda at eu me opor Mas uma pessoa nem se atreve a falar 
de mais. 0 Prescott e um excelente cozinheiro, embora temperamental, e Mrs. Prescott  uma criada 
admirvel.
        - Sim, de facto, todos achamos que tem muita sorte.
        Intervim, uma vez que no queria que a conversa se tornasse puramente domstica.
        - A notcia do assassnio espalhou-se muito depressa - disse eu.
        - Claro, claro - disse Mr. Pye. - 0 homem do talho, o padeiro, o fabricante de castiais. Entra em 
cena o Rumor, abundantemente colorido pelas ln as! Lvmstock ai de mim! est a estragar-se. Cartas 
annimas, assassgu
nios, uma grande quantidade de tendncias criminosas.
        Emily Barton disse nervosamente: - Eles no acham, no consta que... que as duas coisas 
estejam relacionadas?
        Mr. Pye apoderou-se da ideia.
        - Uma conjectura interessante. A rapariga sabia alguma coisa, por conseguinte, foi assassinada. 
Sim, sim, muito promissora. Que inteligente da sua parte pensar nisso!
        - Eu... eu no aguento isto!
        Emily Barton falou abruptamente e afastou-se, a andar muito depressa.
        0 Pye ficou a olhar para ela. 0 seu rosto de querubim estava zombeteiramente franzido.

130

Virou-se para mim e abanou a cabea devagar
        - Uma alma sensvel. Uma criatura encantadora, no acha? Absolutamente uma pea de poca. 
Sabe, ela no  da gerao dela,  da gerao anterior. A me deve ter sido uma mulher com um carcter 
muito forte. Eu diria que manteve o tempo da famflia a rolar por volta de 1870. A famlia toda conservada 
dentro de uma redoma. Gosto de encontrar este gnero de coisas.
        Eu no queria falar sobre peas de poca.
        - Que pensa realmente de todo este assunto? - perguntei.
        - A que se refere?
- s cartas annimas, ao assassnio...
        - A nossa vaga de crimes locais? Que pensa o senhor?
        - Perguntei primeiro - disse eu jocosamente.
        Mr. Pye disse devagar:
        - Sabe, sou um estudioso de anormalidades. Interessam-me. Pessoas aparentemente improvveis 
a fazerem as coisas mais fantsticas. Veja o caso de Lizzie Borden. No h, de facto, uma explicao 
razovel para aquilo. Neste caso, o meu conselho para a Polcia seria: estudem o carcter. Deixem as 
impresses digitais e a comparao de caligrafia e os microscpios. Em vez disso, reparem no que as 
pessoas fazem com as mos, e nos seus pequenos artifcios de comportamento, e na forma como comem, 
e se s vezes se riem sem razo aparente.
        Fiquei desconcertado. - Uma louca? - disse eu.
        - Completamente louca - disse Mr. Pye e acrescentou -, mas ningum diria.
        - Quem?
        Os seus olhos encontraram-se com os meus. Ele sorriu.
        - No, no, Burton, isso seria difamao. No podemos acrescentar difamao a tudo o mais.
        Fugiu literalmente pela rua abaixo.

IV

        Enqua nto eu o seguia com o olhar, a porta da igreja abriu-se e o Rev. Caleb Dane Calthrop saiu.

131
Dirigiu-me um sorriso vago.
- Bom ... bom dia, Mr... hum... hum!...
Ajudei-o. - Burton.
        -  claro, claro, no pense que no me lembro de si. 0 seu nome escapou-se-me 
momentaneamente da memria. Lindo dia.
        - Sim - disse eu laconicamente.
        Ele observou-me.
        - Mas alguma coisa... alguma coisa... ah! sim, aquela pobre criana que estava a servir nos 
Symmingtons. Custa-me a acreditar, confesso, que tenhamos uma assassina entre ns, Mr... hum... 
Burton.
        - Parece um pouco incrvel - disse eu.
        - Chegou-me outra coisa aos ouvidos. - Inclinou-se na minha direco. - Fiquei a saber que tm 
circulado por a umas cartas annimas. Ouviu rumores de coisas dessas?
        - Ouvi - disse eu.
        - Coisas covardes e ignbeis. - Fez uma pausa e citou uma enorme torrente de latim. - Estas 
palavras de Horcio so muito apropriadas, no acha? - disse ele.
        - Absolutamente - disse eu.

v

        Parecia no haver mais ningum com quem valesse a pena falar, por isso fui para casa, comprando 
de passagem tabaco e uma garrafa de xerez, para conseguir algumas opinies mais humildes sobre o 
crime.
        ~xUm vagabundo maldoso~> parecia ser o veredicto.
        ,~( ... Aparecem  porta, aparecem mesmo, e lastimam-se e pedem dinheiro, e depois, se h uma 
rapariga sozinha em casa, tornam-se desagradveis. A minha irm Dora, l para os lados de Combreacre, 
teve uma experiencia desagradvel um dia. Bbado, era o que ele estava, e a vender aqueles pequenos 
poemas impressos.,.>~
        A histria prosseguiu, acabando com a intrpida Dora a bater com a porta na cara do homem, e a 
refugiar-se, e a barricar-se num esconderijo

132

incerto que, pelo pudor com que foi mencionado, eu conclui que devia ser o lavabo. E l ficou at a patroa 
voltar para casa.
        Cheguei a Little Furze apenas uns minutos antes da hora do almoo. A Joanna estava  janela da 
sala de visitas sem fazer absolutamente nada e com ar de quem tem os pensamentos a quilmetros de 
distncia.
        - Que estiveste a fazer? - perguntei.
        - Oh! no sei. Nada de especial.
        Sa para a varanda. Havia duas cadeiras junto a uma mesa de ferro e dois clices de xerez vazios. 
Noutra cadeira estava um objecto para o qual olhei com perplexidade durante algum tempo.
        - Que diabo  isto?
        - Oh! - disse ajoanna - acho que  uma fotografia de um bao doente ou coisa assim. Parece que o 
Dr. Griffith achou que eu-estaria interessada em a ver.
        Examinei a fotografia com algum interesse. Cada homem tem os seus proprios meios de cortejar o 
sexo feminino. Eu no escolheria faz-lo com fotografias de baos doentes ou sos. Contudo, sem dvida 
que a joanna procurara sarna para se coar! -
        - Tem um aspecto muito desagradvel - disse eu.
        A joanna disse que sim, que tinha.
        - Como estava o Griffith? - perguntei.
        - Parecia cansado e muito infeliz. Acho que est preocupado com qualquer coisa.
        - Um bao que no cede ao tratamento?
        - No sejas tolo. Refiro-me a uma coisa real.
        - Eu diria que o homem te tem a ti na cabea. Quem me dera que o deixasses em paz, Joanna.
        - Oh! cala-te. Eu no fiz nada.
        - As mulheres dizem sempre isso.
        A joanna deu meia-volta e saiu da sala furiosa.
        0 bao doente estava a comear a encaracolar ao sol. Peguei-lhe por uma ponta e levei-o para a 
sala de visitas. Pessoalmente, no lhe tinha qualquer afecto, tuas parti do princpio de que era um dos 
tesouros do Griffith.
        Inclinei-me e puxei um livro grosso da prateleira inferior da estante para

133
achatar de novo a fotografia entre as suas pginas. Era um pesado volume de sermes.
        0 livro abriu-se-me nas mos de uma forma muito surpreendente. Num instante, percebi porqu. Do 
meio dele, tinham sido cuidadosamente cortadas uma quantidade depginas.

vi

        Fiquei a olhar para aquilo. Examinei o frontispcio do livro. Tinha sido publicado em 1840.
        No podia haver qualquer dvida. Eu estava a olhar para o livro de cujas pginas tinham sido 
formadas as cartas annimas. Quem as cortara?
        Bem, para comear, podia ter sido a prpria Emily Barton. Ela talvez fosse a pessoa bvia a 
considerar. Ou podia ter sido a Partridge.
        Mas havia outras possibilidades. As pginas podiam ter sido cortadas por qualquer pessoa que 
tivesse ficado s nesta sala, uma visita, por exemplo, que tivesse ficado  espera de Miss Emily. Ou at 
uma pessoa que tivesse vindo em trabalho.

        No, isso no era to provvel. Tinha reparado que numa ocasio em que um empregado do banco 
viera falar comigo, a Partridge o levara para o gabinete pequeno nas traseiras da casa. Era esse obviamente 
o hbito da casa.

        Uma visita, ento? Algum de ~(boa posio social>>. Mr Pye? Aime Griffith? Mrs. Dane 
Calthrop?

        0 gongo soou, e fui almoar Mais tarde, na sala de visitas, mostrei  joanna o meu achado.

        Debatemo-lo sob todos os aspectos. Depois levei-o  esquadra de polcia.

        Ficaram entusiasmados com a descoberta, e eu recebi palmadinhas nas costas por uma coisa que 
foi, no fim de contas, o mais puro golpe de sorte.

        0 Graves no estava l, mas o Nash sim e telefonou ao inspector. Iriam

134

examinar o livro em busca de impresses digitais, embora o Nash no tivesse grandes esperanas de 
encontrar alguma coisa. Posso dizer que no encontrou. Havia as minhas, as da Partridge e as de mais 
ningum, o que provava apenas que a Partridge limpava o p conscienciosamente.

, 0 Nash foi a p comigo pela colina acima. Perguntei-lhe se estava a fazer progressos. - Estamos a 
restringir os suspeitos, Mr Burton. Eliminmos as pessoas que no podiam ter sido.
- Ali! - disse eu. - E quem resta?
        - Miss Ginch. Ela tinha combinado encontrar-se com um cliente numa casa, ontem  tarde. A casa 
no fica longe da Combeacre Road, que  a rua que passa pelos Syrnmingtons. Ela teria de passar pela 
casa, tanto  ida como  vinda... na semana anterior, o dia em que a carta annima foi entregue e Mrs. 
Symmington se suicidou, foi o seu ltimo dia no escritrio do Symmington. A princpio, Mr. Syrnmington 
pensava que ela no sara do escritrio a tarde toda. Ele teve Sir Henry Lushington consigo toda a tarde, e 
tocou vrias vezes a chamar Miss Ginch. Contudo, descobri que ela saiu do escritrio entre as trs e as 
quatro. Foi comprar uma srie de selos caros de que tinham falta. 0 paquete podia ter ido, mas Miss Ginch 
preferiu ir ela, dizendo que tinha uma dor de cabea e que gostaria de apanhar ar. No se demorou muito.
        - Mas o tempo suficiente?
        - Sim, o tempo suficiente para se apressar at ao outro lado da aldeia, enfiar a carta na caixa do 
correio e regressar depressa. Contudo, devo dizer que no consigo encontrar ningum que a tivesse visto 
perto da casa do Symmington.
        - Algum notaria?
        - Talvez sim, ou talvez no.
        - Quem mais tem no saco?

        0 Nash olhou para a frente bem a direito.

gum.

- Compreende que no podemos excluir ningum, absolutamente nin-

- Sim - disse eu. - Compreendo.

        Ele disse gravemente: - Miss Griffith foi ontem a Brenton para uma reunio das-Guias. Chegou 
bastante tarde.
- No acha...

135
        - No, no acho. Mas no seL Miss Griffith parece uma mulher eminentemente saudvel e de 
esprito so, mas eu no sei.
        - E na semana anterior? Ela podia ter enfiado a carta na caixa do correio?
        -  possvel. Andou s compras na vila nessa tarde. - Fez uma pausa. - 0 mesmo se aplica a Miss 
Emily Barton. Saiu para fazer compras no incio da tarde de ontem, e na semana anterior foi dar um 
passeio para visitar uns amigos na rua que passa pela casa dos Symmingtons.
        Abanei a cabea incredulamente. A descoberta do livro cortado em Little Furze, sabia-o bem, 
voltaria fatalmente as atenes para a proprietria daquela casa, mas quando me lembrei de Miss Emily a 
chegar ontem, to animada e feliz e excitada...
        Que diabo... excitada... Sim, excitada, faces coradas, olhos brilhantes, certamente no porque... 
no porque...
        - Este assunto  mau para uma pessoa. Vem-se coisas, imaginam-se coisas... - disse eu 
lentamente.
        - Sim, no  muito agradvel considerar os nossos semelhantes como possveis loucos 
criminosos.
        Fez uma pausa por um momento, depois prosseguiu:
        - E h Mr Pye...
        Eu disse bruscamente: - Ento tomou-o em considerao?
        0 Nash sorriu.
        - Oh! sim, tommo-lo em considerao, sim. Um carcter muito curioso, um carcter no muito 
simptico, devo dizer No tem alibi. Estava no jardim, sozinho, nas duas ocasies.
        - Ento no suspeita s de mulheres?
        - Penso que no foi um homem que escreveu as cartas, de facto, tenho a certeza, e o Graves 
tambm... isto , contando sempre com o nosso Mr. Pye, que tem um trao anormalmente feminino no seu 
carcter Mas investigamos toda agente em relao  tarde de ontem. Trata-se de um caso de assassnio, 
percebe. 0 senhor est livre de suspeitas - sorriu -, e a sua irm tambm, e Mr. Symmington no saiu do 
escritrio depois de l ter chegado, e o Dr. Griffith andava a fazer a ronda dos doentes na outra direco, e 
eu investiguei as visitas dele.
        Fez uma pausa, voltou a sorrir, e disse: - Como v, somos minuciosos.

136

        Eu disse lentamente: - Ento o seu caso est reduzido queles quatro: Miss Ginch, Mr Pye, Miss 
Griffith e a pequena Miss Barton?
        - Oh! no, no, temos mais alguns... alm da mulher do vigrio.
        - Pensaram nela?
        - Pensmos em toda agente, mas Mrs. Dane Calthrop  ostensivamente um pouco doida de mais, 
se e que percebe o que quero dizer. Contudo,podia t-lo feito. Estava numa mata a observar pssaros 
ontem  tarde... e os pssaros no podem falar a favor dela.
        Virou-se bruscamente quando o Owen Griffith entrou na esquadra.
        - Ol, Nash. Constou-me que andou a perguntar por mim esta manh. Alguma coisa importante?
        - Inqurito na sexta-feira, se lhe convier, Dr. Griffith.
        - Est bem. Eu e o Moresby vamos fazer a autpsia esta noite.
        0 Nash disse:
        - H s mais uma coisa, Dr. Griffith. Mrs. Symmington andava a tomar umas cpsulas, ps ou 
coisa assim, que lhe receitou...
        Deteve-se.
- Sim? - disse o Owen Griffith em tom inquiridor
        - Uma dose excessiva dessas cpsulas seria fatal?

        0 Gritfith disse secamente:

e cinco!

- Certamente que no. A no ser que ela tivesse tomado cerca de vinte

        - Mas uma vez o senhor preveniu-a de que no devia exceder a dose, foi o que Miss Holland me 
disse.
        - Oh! isso, sim. Mrs. Symmington era o tipo de mulher que exagerava em tudo o que lhe davam: 
imaginava que se tomasse o dobro lhe faria o dobro do bem, e no quero que ningum exagere, nem sequer 
com fenacetina ou aspirina, faz mal ao corao. E seja como for no h dvida absolutamente nenhuma 
quanto  causa da morte. Foi cianeto.
        - Oh! eu sei isso, no percebeu o que eu quis dizer. S pensei que quando algum se suicida  
prefervel tomar uma dose excessiva de um suporfero do que to mar cido prssico.
        - Oh! absolutamente. Por outro lado, o cido prssico  mais dramtico,

137
e  quase certo que  bem sucedido. Com os barbitricos, por exemplo, pode reanimar-se a vtima, se o 
espao de tempo decorrido for curto.
- Estou a ver, obrigado, Dr. Griffith.
        0 Griffith saiu e eu despedi-me do Nash. Segui vagarosamente pela colina acima em direco a 
casa. A Joanna tinha sado - pelo menos, no havia sinal dela, e estava um memorando enigmtico 
rabiscado no bloco do telefone, provavelmente para orientao da Partridge ou minha.
        Se o Dr Griffith telefonar no posso continuar na tera, mas consigo na quarta ou na quinta
        Ergui o sobrolho e fui para a sala de visitas. Sentei-me na poltrona mais confortvel - (nenhuma 
delas era muito confortvel, tendiam a ter costas direitas e faziam lembrar a falecida Mrs. Barton) - estendi 
as pernas e tentei reflectir em todo este assunto.
        Com um sbito aborrecimento, lembrei-me de que a chegada do Owen interrompera a minha 
conversa com o inspector, e que ele acabara de mencionar mais duas pessoas como sendo possibilidades.
        Gostava de saber quem eram.
        Talvez a Partridge, para comear? No fim de contas, o livro cortado foi encontrado nesta casa. E a 
Agnes pode ter sido agredida, sem suspeitar, pela sua conselheira e mentora. No, no se podia eliminar a 
Partridge.
        Mas quem era a outra?
        Talvez algum que eu no conhecia? Mrs. Cleat? A suspeita local original?
        Fechei os olhos. Considerei quatro pessoas, pessoas estranhamente improvveis, uma de cada 
vez. A Emily Barton, frgil e delicada? Que pontos havia realmente contra ela? Uma vida carente? 
Dominada e reprimida desde a mais tenra infncia? Terem-lhe exigido demasiados sacrificios? 0 seu 
curioso horror a discutir qualquer coisa ~(no muito agradvel>>? Seria isso de facto um sinal de 
preocupao interior precisamente com esses temas? Estaria eu a ficar freudiano de mais? Lembrei-me de 
um mdico me ter dito uma vez que, sob o efeito de uma anestesia, os murmrios das senhoras solteiras 
eram uma revelao. - Ningum imaginaria que elas conhecessem semelhantes palavras!
        Aime Griffith?
Sem dvida que no havia nada de reprimido ou x~inibido>~ em relao a

138

ela. Alegre, masculinizada, bem sucedida. Uma vida cheia e atarefada. Contudo, Mrs. Dane Calthrop tinha 
dito: - Coitada!
        E havia qualquer coisa - qualquer coisa - uma recordao... Ah! lembrei-me. 0 Owen Griffith dissera 
qualquer coisa como x~Tivemos um surto de cartas annimas l no norte, onde eu exercia medicina>~.
        Tambm teria sido obra de Aime Griffith? Certamente que era uma coincidncia e tanto. Dois 
surtos da mesma coisa.
        Pra a um instante, tinham descoberto a autora dessas cartas. 0 Griffith assim o dissera. Uma 
estudante.
        Subitamente, arrefeceu - devia ser uma corrente de ar, da janela. Virei-me desconfortavelmente na 
minha cadeira. Por que  que me sentia de repente to esquisito e to nervoso?
        Continua a pensar... Aime Griffith? Teria sido Aime Griffith e no a outra rapariga? E Aime viera 
para c e recomeara as suas proezas. E era por isso que o Owen Griffith parecia to infeliz e 
atormentado. Ele suspeitava. Sim, suspeitava...
        Mr. Pye? No era, de certo modo, um homenzinho muito simptico. Conseguia imagin-lo a 
encenar esta situao toda ... a rir-se...
        Aquela mensagem no bloco do telefone, no hafl ... porque continuava eu a pensar nela? 0 Griffith e 
a joanna - ele estava a apaixonar-se por ela... No, no era por isso que a mensagem me preocupava. Era 
outra coisa...
        Os meus sentidos flutuavam, o sono estava muito prximo. Repeti estupidamente para comigo: 
No h fumo sem fogo. No h fumo sem fogo...  isso ... tudo se conjuga...
        E depois ia a descer a rua com a Megan e Elsie Holland passou. Estava vestida de noiva, e as 
pessoas murmuravam:
        4~Vai finalmente casar-se com o Dr Griffith.  claro que h anos que esto secretamente noivos ... 
.
        L estvamos ns, na igreja, e Dane Calthrop estava a realizar a cerimnia religiosa em latim.
        E no meio da cerimnia Mrs. Dane Calthrop levantou-se de um salto e gritou energicamente:
        - Tem de ser pr fim a isto,  o que lhe digo. Tem de se pr fim a isto!
        Por uns momentos fiquei sem saber se estava acordado ou a dormir. Depois o meu crebro 
desanuviou-se e eu apercebi-me de que estava na sala

139
de visitas de Little Furze, e que Mrs. Dane Calthrop tinha acabado de entrar pela porta envidraada e estava 
diante de mim a dizer com uma violncia nervosa:
- Tem de se pr fim a isto,  o que lhe digo.
        Levantei-me de um salto. Disse: - Perdo. Receio ter adormecido. Como disse?
        Mrs. Dane Calthrop bateu furiosamente com um punho na palma da outra mo.
        - Isto tem de acabar. Estas cartas! Assassnio! No podemos continuar a deixar que matem pobres 
criancinhas inocentes como a Agnes Woddell!
        - Tem toda a razo - disse eu. - Mas como se prope atacar a situao?
        Mrs. Dane Calthrop disse:
        - Temos de fazer qualquer coisa!
        Eu sorri, talvez de uma maneira arrogante.
        - E que sugere que faamos?
        - Fazer com que tudo isto se esclarea! Eu disse que esta terra no era m. Estava enganada.  
sim.
        Fiquei aborrecido. No muito educadamente, disse:
        - Sim, minha querida senhora, mas que  que vaifazer?
        Mrs. Dane Calthrop disse: - Pr um ponto final nisto tudo,  claro.
        - A Polcia est a fazer o melhor que pode.
        - Se a Agnes pde ser morta ontem, o melhor deles no basta.
        - Ento a senhora sabe mais do que eles?
        - De maneira nenhuma. Eu no sei absolutamente nada.  por isso que vou chamar um 
especialista.
        Abanei a cabea.
        - No pode fazer isso. A Scotland Yard s se encarrega do caso a pedido do chefe da polcia do 
condado. Na verdade, mandaram o Graves.
        - No me refiro a esse tipo de especialista. No me refiro a uma pessoa que saiba de cartas 
annimas ou at de assassnio. Refiro-me a algum que conhea as pessoas. No percebe? Queremos 
algum que saiba muito sobre maldade!
Era um ponto de vista singular. Mas, de certo modo, estimulante.

140

        Antes de eu poder dizer mais alguma coisa, Mrs. Dane Calthrop acenou-me afirmativamente com a 
cabea e disse num tom de voz despachado e confiante:
        - Vou tratar disso imediatamente.
        E saiu de novo pela porta envidraada.

141
CAPFTULO DEZ

        A semana seguinte, acho eu, foi um dos perodos mais esquisitos por que j passei. Teve uma 
estranha qualidade onrica. Nada parecia real.
        Realizou-se o inqurito sobre Agnes Woddeli, e os curiosos de Lymstock compareceram en 
masse. No vieram a lume factos novos, e foi pronunciado o nico veredicto possvel: ~((Assassnio por 
pessoa ou pessoas desconhecidas~.
        Por conseguinte, a pobrezinha da Agnes Woddell foi devidamente sepultada no velho e tranquilo 
adro da igreja, depois de ter tido a sua hora de noto~ riedade e a vida em Lymstock prosseguiu como 
antes.
        No, esta ltima afirmao no  verdadeira. No como antes...
        Havia um brilho meio-assustado, meio-ansioso no olhar de quase toda a gente. 0 vizinho olhava 
para o vizinho. Uma coisa ficara bem clara no inquerito - era muito improvvel que tivesse sido um estranho 
a matar Agnes Woddell. No tinham sido notados, nem referidos, vagabundos, nem homens desconhecidos 
no distrito. Portanto, algures em Lymstock~ a descer a High Street, a fazer compras, a dar os bons-dias, 
havia uma pessoa que esmagara o crnio de uma rapariga indefesa e lhe cravara um espeto afiado no 
crebro.
        E ningum sabia quem era essa pessoa.
        Como digo, os.dias passavam numa espcie de sonho. Olhava para toda a gente que encontrava 
sob uma nova luz, sob a luz de um Possvel assassino. No era uma sensao agradvel!
        E  noite, com o cortinado corrido, eu e a joanna sentvamo-nos a falar, a falar, a discutir, a 
examinar detalhadamente, uma a uma, as vrias possibilidades que ainda pareciam to fantsticas e 
incrveis.
        A Joanna mantinha-se inabalvel na sua teoria de Mr. Pye. Eu, depois de hesitar um pouco, voltara 
 minha suspeita original, Miss Ginch. Mas e.~aminvamos repetidamente os nomes possveis.

142

Mr. Pye?
Miss Ginch?
Mrs. Dane Calthrop?
Aime Griffith?
Emily Barton?
Partridge?
        E durante o tempo todo espervamos, nervosa e apreensivamente, que acontecesse alguma coisa.
        Mas no acontecia nada. Ningum, tanto quanto sabamos, recebera mais cartas. 0 Nash aparecia 
periodicamente na vila, mas eu no fazia ideia do que ele andava a fazer, nem das armadilhas que a Polcia 
estava a montar 0 Graves tinha partido de novo.
        Emily Barton veio tomar ch. A Megan veio almoar. 0 Owen Griffith ocupava-se da clnica. Fomos 
tomar um xerez com Mr. Pye. E fomos tomar ch ao vicariato.
        Fiquei satisfeito ao descobrir que Mrs. Dane Calthrop no exibia nenhuma da ferocidade militante 
que demonstrara por ocasio do nosso ltimo encontro. Acho que se esquecera dele.
        Parecia agora principalmente preocupada com a destruio das borboletas brancas, para preservar 
as couves-flores e os repolhos.
        A nossa tarde no vicariato foi, na verdade, uma das mais tranquilas que passmos. Era uma casa 
antiga e atraente e tinha uma grande sala de visitas, confortvel e em mau estado, com cretone rosa-plido. 
Os Dane Calthrops tinham com eles uma visita, uma amvel senhora idosa que tricotava qualquer coisa 
com uma l branca felpuda. Para o ch tivemos scones quentes muito bons, o vigrio chegou, e sorria 
placidamente enquanto prosseguia com a sua afvel conversao erudita. Foi muito agradvel.
        No quero dizer com isto que fugimos do tpico do assassnio, porque no fugimos.

        Miss Marple, a visita, estava naturalmente entusiasmada com o assunto. Como disse 
apologeticamente: - Temos to pouco de que falar no campo! - Tinha decidido que a rapariga morta devia 
ser exactamente como a Edith dela.

        - U Uria criadinha to simptica, e to solcita, mas s vezes um pouco lenta a compreender as 
coisas.

143
        Miss Marple tambm tinha uma prima que tinha uma sobrinha cuja cunhada tivera muitos 
aborrecimentos com cartas annimas, por isso as cartas tambm interessavam muito  encantadora 
velhota.
        - Mas diz-me, querida - disse ela a Mrs. Dane Calthrop -, que dizem as pessoas da aldeia, quero 
dizer, as pessoas da vila? Que pensam elas?
        - Ainda em Mrs. Cleat, suponho eu - disse a joanna.
        - Oh! no - disse Mrs. Dane Calthrop. - Agora no.
        Miss Marple perguntou quem era Mrs. Cleat.
        A Joanna disse que ela era a bruxa da aldeia.
        -  verdade, no , Mrs. Dane Cfflthrop?
        0 vigrio murmurou uma longa citao em latim sobre, acho eu, a perniciosa influncia das bruxas, 
que todos escutmos num silncio respeitoso e ignorante.
        - Ela  uma mulher muito tola - disse a mulher - Gosta de se exibir. Vai apanhar ervas e coisas 
assim na lua cheia e tem o cuidado de fazer com que toda a gente fique a saber.
        - E as raparigas tontas vo constdt-la, suponho? - disse Miss Marple.
        Vi o vigrio preparar-se para descarregar mais latim sobre ns, e perguntei abruptamente: - Mas por 
que  que as pessoas j no suspeitam dela em relao ao assassnio? Achavam que as cartas eram obra 
dela.
        Miss Marple disse: - Oh! Mas a rapariga foi morta com um espeto, foi o que me constou (muito 
desagradvel!). Bem, naturalmente, isso afasta todas as suspeitas dessa Mrs. Cleat. Porque, percebe, ela 
podia deitar-lhe mau-olhado, para que a rapariga definhasse e morresse de causas naturais.
        -  estranho como as velhas crenas perduram - disse o vigrio. Nos tempos primitivos do 
Cristianismo, as supersties locais foram, sensatamente, incorporadas nas doutrinas crists e os seus 
atributos mais desagradveis gradualmente eliminados.
        - No  a superstio que temos de enfrentar aqui - disse Mrs. Dane Calthrop -, mas osfactos.
E factos muito desagradveis - disse eu.
         como diz, Mr. Burton - disse Miss Maiple. - Agora, o senhor (perdoe-me se estou a ser muito 
pessoal)  um estranho c ria terra, e tem conhecimento do mundo e de vrios aspectos da vida. Parece-
me que devia ser capaz de descobrir uma soluo para este desagradvel problema.

144

        Eu sorri. - A melhor soluo que descobri foi num sonho. No meu sonho, tudo se encaixava e 
resultava maravilhosamente. Infelizmente, quando acordei aquilo era tudo um disparate!
        - Que interessante, apesar disso. Conte-me esse disparate!
        - Oh! Tudo comeou com uma frase idiota. 4(No h fumo sem fogo.~> As pessoas tm dito isso 
ad nauseam. E depois misturei-a com expresses de guerra. Cortinas de fumo, pedao de papel, 
mensagens telefnicas... No, isso foi outro sonho.
        - E como foi esse sonho?
        A velhota estava to ansiosa por saber, que tive a certeza de que ela era uma leitora secreta do 
Livro de Sonhos de Napoleo, que fora o arrimo da minha velha ama.
        - Oh! era s Elsie Holland, a preceptora dos Symmingtons, sabe, a casar-se com o Dr Griffith, e 
aqui o vigrio estava a realizar a cerimnia em latim (~xmuito apropriado, querido>~, sussurrou Mrs. Dane 
Caithrop ao marido) e depois Mrs. Dane Calthrop levantou-se e impediu o casamento e disse que tinha de 
se pr termo qudo!
        - Mas essa parte - acrescentei com um sorriso - era verdade. Acordei e descobri-a de p debruada 
sobre mim a dizer isso.
        - E eu tinha toda a razo - disse Mrs. Dane Calthrop, mas muito amenamente, notei com prazer.
        - Mas onde entrava a mensagem telefnica? - perguntou Miss Marple, franzindo o sobrolho.
        - Receio estar a ser muito estpido. Isso no estava no sonho. Foi imediatamente antes dele. 
Entrei no hall e reparei que ajoanna tinha escrito,uma mensagem para ser transmitida a uma pessoa, se ela 
telefonasse...
        Miss Marple inclinou-se para a frente. Tinha uma mancha cor-de-rosa em cada bochecha. - Achar-
me-ia muito indiscreta e muito indelicada se lhe perguntasse o que dizia a mensagem? - Lanou uma 
olhadela  joanna. Peo-lhe desculpa, minha querida.
        A Joanna, contudo, estava muito divertida.
        - Oh! no me importo - garantiu ela  velhota. - No me lembro de nada disso, mas talvez ojerry se 
lembre. Deve ter sido uma coisa muito ban .
        Solenemente, repeti a mensagem o melhor que pude, muitssimo divertido com a profunda ateno 
da velhota.

145
        Eu receava que as palavras verdadeiras a desapontassem, mas talvez ela tivesse uma ideia 
sentimental de um romance, porque acenou afirmativamente com a cabea, e sorriu, e pareceu satisfeita.
        - Percebo - disse ela. - Estava a pensar que devia ser uma coisa desse gnero.
        Mrs. Dane Caithrop disse bruscamente: - De que gnero, Jane?
        - Uma coisa bastante vulgar - disse Miss Maiple.
        Olhou pensativamente para mim por uns instantes; depois disse inesperadamente:
        - Estou a ver que  um jovem muito inteligente... mas no tem muita confiana em si prprio. Devia 
ter!
        A Joanna deu uma gargalhada.
        - Por amor de Deus, no o encoraje a sentir-se assim. Ele j se tem em muito boa conta.
        - Cala-te, Joanna - disse eu. - Miss Marple compreende-me.
        Miss Maiple retomara o seu tricot felpudo. - Sabe - observou ela pensativamente -, cometer um 
assassnio bem sucedido deve ser mais ou menos como levar a cabo um truque de prestidigitao.
        - A rapidez da mo ilude o olho?
        - No  s isso.  preciso fazer com que as pessoas olhem para a coisa errada e no lugar errado. 
Orientao errada,  como lhe chamam, creio eu.
        - Bem - observei -, at agora, parece que toda a gente tem procurado a nossa doida  solta no 
lugar errado.
        - Pela minha parte - disse Miss Marple -, inclinava-me a procurar uma pessoa muito s de esprito.
        - Sim - disse eu pensativamente. - Foi o que o Nash disse. Lembro-me de que tambm realou a 
respeitabilidade.
        - Sim - concordou Miss Marple. - Isso  muito importante.
        Bem, parecia que estvamos todos de acordo.
        Dirigi a palavra a Mrs. Caithrop. - 0 Nash acha que vai haver mais cartas annimas - disse eu. - 
Que pensa disso?
        Ela disse devagar: - Pode haver, suponho.
        - Se a Polcia pensa isso, ter de haver, sem dvida - disse Miss Marple.
        Eu continuei obstinadamente a falar com Mrs. Dane Caithrop.
        - Ainda tem pena da autora de cartas annimas?

146

Ela corou. - Por que no?
        - No me parece que concorde contigo, querida - disse Miss Marple. - No neste caso.
        Eu disse calorosamente: - Levaram uma mulher ao suicdio e provocaram angstia e 
ressentimentos incalculveis.
        - Recebeu uma, Miss Burton? - perguntou Miss Marple  joanna.
        A Joanna deu um gritinho gutural - Oh! sim. Dizia coisas tremendas.
        - Receio - disse Miss Marple - que as pessoas novas e bonitas sejam mais susceptveis a serem 
escolhidas pela autora.
        - E por isso que eu acho estranho que Elsie Holland no tenha recebido nenhuma - disse eu.
        - Deixe-me ver - disse Miss Marple. - Essa  a preceptora dos Symmingtons... a tal com quem 
sonhou, Mr. Burton?
        - Sim.
        - Provavelmente recebeu uma e no diz - disse a joanna.
        - No - disse eu -, acredito nela. E o Nash tambm.
        - Valha-me Deus! - disse Miss Maiple. - Isso  muito interessante.  a coisa mais interessante que 
ouvi at agora.

II

        Ao voltarmos para casa, a joanna disse-me que eu no devia ter repetido o que o Nash dissera 
sobre a chegada de mais cartas.
        - Porqu?
        - Porque Mrs. Dane Calthrop pode ser a responsvel.
        - No acreditas realmente nisso!
        - No tenho a certeza. Ela  uma mulher esquisita.
        Mais uma vez, comemos a nossa discusso sobre as pessoas provveis.
        Foi duas noites mais tarde que eu voltei de carro de Exhampton. Tinha jantado l e depois meti-me 
ao caminho para regressar e j estava escuro quando cheguei a Lymstock
        Os fa " *s do carro no estavam a funcionar devidamente, e depois de
        rql abrandar e de os acender e apagar, sa finalmente do carro para ver o que

147
podia fazer Remexi neles durante um pedao, mas por fim consegui consert-l os.
        A rua estava completamente deserta. Em Lymstock, ningum sai depois de escurecer. As 
primeiras casas estavam logo adiante, entre elas, o feio edificio com fronto do Institudo das Mulheres. 
Avultava-se  luz indistinta das estrelas, e alguma coisa me impeliu a ir dar uma vista de olhos. No sei se 
vi de relance uma figura furtiva a fugir atravs do porto - sendo assim, deve ter sido uma coisa to vaga que 
no se fixou no meu consciente, mas senti, subitamente, uma espcie de curiosidade exagerada pelo 
local.
        0 porto estava ligeiramente entreaberto e eu empurrei-o e entrei. Um caminho curto e quatro 
degraus levavam  porta.
        Fiquei l um momento, hesitante. Que fazia eu ali realmente? No sabia, e ento, de repente, 
muito prximo, ouvi um ruge-ruge. Parecia o som de um vestido de mulher. Contornei rapidamente a 
esquina da casa e dirigi-me para o stio de onde vinha o som.
        No vi ningum. Continuei e contornei outra esquina. Estava agora nas traseiras da casa e, 
repentinamente, vi uma janela aberta a dois passos de mim.
        Aproximei-me silenciosamente e pus-me  escuta. No consegui ouvir nada, mas estava 
plenamente convencido de que havia algum dentro de casa.
        As minhas costas ainda no estavam boas para acrobacias, mas consegui iar-me e saltar para 
dentro por cima do peitoril. Infelizmente, fiz barulho.
        Fiquei quieto junto  janela,  escuta. Depois, avancei, de braos estendidos. Foi ento que ouvi 
um som indistinto  minha frente,  direita.
        Tinha uma lanterna no bolso e acendi-a.
        Imediatamente, uma voz baixa e autoritria disse:
        - Apague isso.
        Obedeci logo, j que nesse mesmo instante reconhecera a voz do supe~ rintendente Nash.
        Ele pegou-me pelo brao e levou-me para um corredor, atravs de uma porta. Aqui, onde no havia 
nenhuma janela que trasse a nossa presena para algum que estivesse no exterior, ele acendeu uma luz 
e olhou-me mais pesaroso do que irritado.
- Tinha de aparecer neste preciso momento, Mr. Burton.

148

        - Peo desculpa - disse eu. - Mas tive um palpite de que ia descobrir alguma coisa.
        - E provavelmente ia. Viu algum?
        Hesitei. - No tenho a certeza - disse eu, devagar. - Tive uma vaga sensao de ter visto algum 
esgueirar-se atravs do porto da frente, mas na realidade, no vi ningum. Em seguida ouvi um ruge-ruge 
do outro lado da casa.
        0 Nash acenou afirmativamente.
        -  verdade. Algum contornou a casa  sua frente. Hesitou  janela e depois prosseguiu muito 
depressa; deve t-lo ouvido a si, suponho.
        Pedi desculpa de novo. - Qual  a ideia? - perguntei.
        0 Nash disse:
        - Estou a apostar no facto de que uma autora de cartas annimas no pode parar de as escrever. 
Pode saber que  perigoso, mas tem de o fazer.  como um desejo insacivel por lcool ou drogas.
        Anu.
        - Percebe agora, Mr. Burton, a autora, seja ela quem for, vai tentar que as cartas tenham um 
aspecto o mais idntico possvel ao das outras. Ela tem as pginas cortadas daquele livro e pode continuar 
a recortar delas as letras e as palavras. Mas os envelopes apresentam uma dificuldade. Vai querer bat-los 
na mesma mquina de escrever No pode arriscar-se a usar outra, ou a sua prpria caligrafia.
        - Acha realmente que ela vai continuar o jogo? - perguntei incredulamente.
        - Acho que sim. E aposto o que quiser em como est confiante. Estas pessoas so vaidosas como 
uns paves! Da, pensei que a autora, seja ela quem for, viria ao Instituto depois de escurecer para chegar  
mquina de escrever.
        - Miss Ginch - disse eu.
        - Talvez.
        - Ainda no sabe?
        - No sei.
        - Mas suspeita?
        - Suspeito. Mas  algum muito astuto, Mi: Burton. Algum que conhece todos os truques.

149
        Podia imaginar uma parte da rede espalhada pelo Nash em diferentes                        A 
Megan murmurou qualquer coisa, passou por ele e entrou em casa.
direces. No tinha dvidas de que todas as cartas escritas por um suspeito                0 Symmington 
suspirou.
e postas no correio, ou entregues pessoalmente, eram imediatamente                        - Uma rapariga 
crescida  uma grande responsabilidade quando no h
inspeceionadas. Mais cedo ou mais tarde, a criminosa cometeria um deslize,                uma me para 
olhar por ela. J ultrapassou a idade de ir para a escola,
tomar~se-ia cada vez mais imprudente.        i        suponho eu.
        Pedi desculpa pela terceira vez pela minha presena zelosa e indesejada.                        Olhou-
me com desconfiana.
        - Oh! bem - disse o Nash filosoficamente. - No se pode remediar.                        - Suponho que a 
tenha levado a passear?
Melhor sorte da prxima vez.                        Achei melhor deixar as coisas nesse p.
        Sa para a noite. Uma figura indistinta estava de p junto ao meu carro.
Para grande espanto meu, reconheci a Megan.
        - Ol! - disse ela. - Tive a impresso de que era o seu carro. Que an
dou a fazer?
        - Que andas tu a fazer  o que interessa - disse eu.
        - Vim dar um passeio. Gosto de passear  noite. Ningum nos faz parar
e diz imbecilidades, e gosto das estrelas, e as coisas cheiram melhor, e as
coisas banais parecem misteriosas.
        - Concordo sinceramente com tudo isso - disse eu. - Mas s os gatos
e as bruxas passeiam no escuro. L em casa devem estar ansiosos por saber
onde ests.
        - No esto nada. Nunca querem saber onde estou ou o que estou a
fazer
        - Como tens passado? - perguntei.
        - Bem, suponho.
        - Miss Holland tem cuidado de ti e tudo isso?
        - A Elsie  boa pessoa. No pode evitar o facto de ser completamente
idiota.

        - Pouco amvel... mas provavelmente verdade - disse eu. - Salta c para dentro, que eu levo-te a 
casa.
        No era bem verdade que no tivessem dado pela falta da Megan.
        0 Symmington estava  porta, quando nos aproximmos.
        Espreitou para dentro do carro. - Ol, a Megan est a?
        - Sim - disse eu. - Trouxe-a a casa.
        0 Symmington disse rispidamente:
        - No devias desaparecer sem dizer nada, Megan. Miss Holland tem estado muito preocupada 
contigo.

150        151
CAPTULO ONZE

        No dia seguinte, enlouqueci. Olhando para trs em retrospectiva,  essa, de facto, a nica 
explicao que encontro.
        Tinha de ir  minha visita mensal a Mareus Kent... Fui de comboio. Para grande surpresa minha, a 
joanna preferiu ficar Geralmente estava ansiosa por ir, e costumvamos ficar uns dias.
        Desta vez, contudo, tencionava voltar no mesmo dia no comboio da noite, mas ainda assim fiquei 
espantado com a Joanna. Disse apenas, enigmaticamente, que tinha muito que fazer, e por que razo iria 
passar horas num comboio desagradvel e abafado se estava um dia lindo no campo?
         claro que isso era inegvel, mas no parecia nada prprio da joanna.
        Ela disse que no queria o carro, por isso eu iria nele at  estao e deix-lo-ia l estacionado at 
ao meu regresso.
        Por alguma razo obscura, s conhecida das companhias de caminhos-de-ferro, a estao de 
Lymstock est situada a uns bons oitocentos metros de Lymstock propriamente dita. A meio do caminho 
ultrapassei a Megan, que se arrastava pela estrada fora sem objectivo. Parei o carro.
        - Ol, que andas a fazer?
        - S vim dar um passeio.
        - Mas no aquilo a que eu chamo um bom passeio energico, presumo. Vinhas a rastejar pela 
estrada fora como um caranguejo desanimado.
        - Bem, no ia a lado nenhum em especial.
        - Ento  melhor vires despedir-te de mim  estao.
        Abri a porta do carro e a Megan entrou.
        - Aonde vai? - perguntou.
        - A Londres. Vou ao meu mdico.
        - No est pior das costas, pois no?

152

        - No, j esto praticamente boas outra vez. Estou a contar que ele fique muito satisfeito com isso.
        A Megan acenou afirmativamente.
        Abrandmos na estao. Estacionei o carro, entrei e comprei o meu bilhete na bilheteira. Havia 
pouca gente na plataforma, e ningum que eu conhecesse.
        - No quer emprestar-me um penny, por favor? - disse a Megan. -  para comprar um chocolate na 
maquina.
        - Aqui tens, querida - disse eu, entregando-lhe a moeda em questo. - De certeza que no queres 
tambm gomas transparentes ou pastilhas para a garganta?
        - Gosto mais de chocolate - disse a Megan sem desconfiar do sarcasmo.
        Foi at  mquina e eu fiquei a olhar para ela com um sentimento de irritao crescente.
        Trazia uns sapatos muito usados, e meias grosseiras e pouco atraentes, e uma camisola e uma 
saia especialmente disformes. No sei por que  que tudo aquilo me enfurecia, mas enfurecia.
        Quando ela voltou, eu disse zangado:
        - Por que usas essas meias nojentas?
        - Que mal tm?
        - Tm tudo mal. So repugnantes. E por que usas uma camisola que parece uma couve podre?
        -  perfeita, no ? Tenho-a h anos.
        - Devia imaginar. E por que  que tu...

        Nesse momento chegou o comboio, interrompendo o meu sermo irri-

tado.

        Entrei numa carruagem vazia de primeira classe, baixei o vidro da janela e debrucei-me para fora, 
para continuar a conversa.
        A Megan estava abaixo de mim, com o rosto virado para cima. Perguntou-me por que estava to 
zangado.
        - No estou zangado - disse eu falsamente. - S me enfurece ver-te to descuidada e to pouco 
preocupada com a tua aparncia.
        - Seja,como for, no conseguiria ficar bonita, por isso que  que importa?

153
        - Meu Deus! - disse eu. - Gostava de te ver convenientemente vestida. Gostava de te levar a 
Londres e de te vestir da cabea aos ps.
        - Quem me dera que pudesse - disse a Megan.

        0 comboio comeou a deslocar~se. Olhei para baixo para o rosto ansioso da Megan, virado para 
cima.
        E depois, como disse, tive um ataque de loucura.
        Abri a porta, agarrei a Megan com um brao e cei-a, positivamente, para dentro da carruagem.
        Ouviu-se um grito ultrajado de um carregador, mas a nica coisa que ele pde fazer foi voltar a 
fechar habilmente a porta. Levantei a Megan do cho, onde aterrara com o meu gesto impetuoso.
        - Para que diabo fez isto? - perguntou ela, esfregando um joelho.
        - Cala-te - disse eu. - Vens comigo a Londres, e quando eu acabar de tratar de ti, nem te vais 
reconhecer. Vou mostrar-te o aspecto que podes ter, se tentares. Estou farto de te ver a vadiar por a toda 
desmazelada e de qualquer maneira.
        - Oh! - disse a Megan, num sussurro extasiado.
        Veio o revisor e eu comprei um bilhete de ida e volta para a Megan. Ela sentou-se no seu canto a 
olhar para mim com uma espcie de respeito temeroso.
        - Olhe c! - disse ela, quando o homem se foi embora. - 0 senhor  intempestivo, no ?
        - Muito - disse eu. -  de famlia.
        Como  que ia explicar-lhe o impulso que sentira subitamente? Ela parecera um co triste a ser 
abandonado. Agora tinha no rosto o prazer ncrdulo do co que afinal fora levado a passear.
        - Suponho que no conheces Londres muito bem? - disse eu.
        - Conheo sim - disse a Megan. - Passava sempre por l  ida para a escola. E fui l ao dentista e 
a uma pantomima.
        - Esta - disse eu - vai ser uma Londres diferente.
        Chegmos meia hora antes da minha consulta em Harley Street.
        Apanhei um txi e fomos directos  Mirotin, a costureira da Joanna. A Mirotin , em pessoa, uma 
mulher de quarenta e cinco anos, viva e pouco convencional, Mary Grey.  uma mulher esperta e uma 
ptima companhia. Sempre gostei dela.

154

- Eu disse  Megan: - s minha prima.
- Porqu?
- No discutas - disse eu.

        Mary Grey estava a ser inflexvel com uma judia corpidenta que se encantara por um coleante 
vestido de noite azul de esmalte. Chamei-a e puxei~ -a para um lado.
        - Oua - disse eu. - Trouxe uma priminha comigo. A Joanna era para vir, mas surgiu um 
impedimento. Mas disse que eu podia deixar tudo nas suas mos. Est a ver a aparncia que a mida tem 
agora?
        - Meu Deus! estou sim - disse Mary Grey com emoo.
        - Bem, quero-a conveniente e minuciosamente arranjada da cabea aos ps. Carte blanche. Meias, 
sapatos, roupa interior, tudo! A propsito, o homem que arranja o cabelo da joanna  perto daqui, no ?
        - 0 Antoine? Ao virar da esquina. Eu tambm trato disso.
        -  uma mulher como h poucas.
        - Oh! vou gostar de fazer isto; sem falar no dinheiro, que hoje em dia no  para se desprezar... 
metade das minhas malditas clientes nunca pagam as contas. Mas como digo vou gostar, - Lanou um 
olhar rpido e profissional  Megan que estava um pouco afastada. - Tem uma figura encantadora.
        - Deve ter olhos de raios X - disse eu. - A mim, parece-me completamente disforme.
        Mary Grey riu-se.
        - So estas escolas - disse ela. - Parece que se orgulham de transformarem raparigas que se 
vestem bem em raparigas com um aspecto inverosmd. Chamam a isso ser-se amorosa e pouco 
sofisticada. As vezes  precisa uma estao inteira para elas se recomporem e parecerem humanas. No 
se preocupe, deixe tudo comigo.
        - Est bem - disse eu. - Venho busc-la por volta das seis.

11

        Marc us Kent ficou satisfeito comigo. Disse-me que eu tinha superado todas as suas expectativas.

155
        - Meu Deus! - disse eu. - Gostava de te ver convenientemente vestida. Gostava de te levar a 
Londres e de te vestir da cabea aos ps.
        - Quem me dera que pudesse - disse a Megan.
        0 comboio comeou a deslocar-se. Olhei para baixo para o rosto ansioso da Megan, virado para 
cima.
        E depois, como disse, tive um ataque de loucura.
        Abri a porta, agarrei a Megan com um brao e icei-a, positivamente, para dentro da carruagem.
        Ouviu-se um grito ultrajado de um carregador, mas a nica coisa que ele pde fazer foi voltar a 
fechar habilmente a porta. Levantei a Megan do cho, onde aterrara com o meu gesto impetuoso.
        - Para que diabo fez isto? - perguntou ela, esfregando um joelho.
        - Cala-te - disse eu. - Vens comigo a Londres, e quando eu acabar de tratar de ti, nem te vais 
reconhecer. Vou mostrar-te o aspecto que podes ter, se tentares. Estou farto de te ver a vadiar por a toda 
desmazelada e de qualquer maneira.
        - Oh! - disse a Megan, num sussurro extasiado.
        Veio o revisor e eu comprei um bilhete de ida e volta para a MegarL Ela sentou-se no seu canto a 
olhar para mim com uma espcie de respeito temeroso.
        - Olhe c! - disse ela, quando o homem se foi embora. - 0 senhor  intempestivo, no ?
        - Muito - disse eu. -  de famlia.
        Como  que ia explicar-lhe o impulso que sentira subitamente? Ela pa~ recera um co triste a ser 
abandonado. Agora tinha no rosto o prazer incrdulo do co que afinal fora levado a passear.
        - Suponho que no conheces Londres muito bem? - disse eu.
        - Conheo sim - disse a Megan. - Passava sempre por l  ida para a escola. E fui l ao dentista e 
a uma pantomima.
        - Esta - disse eu - vai ser uma Londres diferente.
        Chegmos meia hora antes da minha consulta em Harley Street.
        Apanhei um txi e fomos directos  Mirotin, a costureira da Joanna. A Mirotin , em pessoa, uma 
mulher de quarenta e cinco anos, viva e pouco convencional, Mary Grey.  uma mulher esperta e uma 
ptima companhia. Sempre gostei dela.

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- Eu disse  Megan: - s minha prima.
- Porqu?
- No discutas - disse eu.
        Mary Grey estava a ser inflexvel com uma judia corpulenta que se encantara por um coleante 
vestido de noite azul de esmalte. Chamei-a e puxei-a para um lado.
        - Oua - disse eu. - Trouxe uma priminha comigo. A Joanna era para vir, mas surgiu um 
impedimento. Mas disse que eu podia deixar tudo nas suas mos. Est a ver a aparencia que a mida tem 
agora?
        - Meu Deus! estou sim - disse Mary Grey com emoo.
        - Bem, quero-a conveniente e minuciosamente arranjada da cabea aos ps. Carte blanche. Meias, 
sapatos, roupa interior, tudo! A propsito, o homem que arranja o cabelo da joanna  perto daqui, no ?
        - 0 Antoine? Ao virar da esquina. Eu tambm trato disso.
        -  uma mulher como h poucas.
- Oh! vou gostar de fazer isto; sem falar no dinheiro, que hoje em dia

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nao e para se desprezar... metade das minhas malditas clientes nunca pagam as contas. Mas como digo 
vou gostar. - Lanou um olhar rpido e profissional  Megan que estava um pouco afastada. - Tem uma 
figura encantadora.
        - Deve ter olhos de raios X - disse eu. - A mim, parece-me completamente disforme.
        Mary Grey riu-se.
        - So estas escolas - disse ela. - Parece que se orgulham de transformarem raparigas que se 
vestem bem em raparigas com um aspecto inverosmil. Chamam a isso ser-se amorosa e pouco 
sofisticada. As vezes  precisa uma estao inteira para elas se recomporem e parecerem humanas. No 
se preocupe, deixe tudo comigo.
        - Est bem - disse eu. - Venho busc-la por volta das seis.

II

        Marcus - Kent ficou satisfeito comigo. Disse-me que eu tinha superado todas as suas expectativas.

155
        - Deve ter a constituio de um elefante - disse ele -, para ter recuperado desta maneira. Oh! bem, 
 maravilhoso o que o ar do campo e a ausncia de noitadas e de agitao fazem por um homem, se ele 
conseguir aguentar.
        - Concedo-lhe as duas primeiras - disse eu. - Mas no acho que o campo esteja livre de agitao. 
Pela parte que me toca, temos tido muita.
        - Que espcie de agitao?
        - Assassnio - disse eu.
        Marcus Kent franziu os lbios e assobiou.
- Uma buclica tragdia amorosa? 0 agricultor que mata a namorada? - De maneira nenhuma. Um 
assassino luntico, astuto e determinado. - No li nada sobre isso. Quando  que o prenderam?
- Ainda no prenderam, e  uma mulher!
- Safa! Duvido que Lymstock seja o lugar adequado para si, meu velho. Eu disse com firmeza:
-  sim. E no vai conseguir afastar-me de l.
Marcus Kent tem uma mente obscena. Disse imediatamente:
- Ento  isso! Encontrou uma loura?

        - De maneira nenhuma - disse eu, com a conscincia pesada por causa de Elsie Holland. -  
simplesmente a psicologia do crime que me interessa muito.
        - Oh! est bem. At agora ainda no lhe fez mal nenhum, mas veja l se o seu assassino luntico 
no o faz desaparecer a si.
        - No h perigo - disse eu.
        - Quer jantar comigo esta noite? Podia contar-me tudo acerca do seu assassnio repugnante.
        - Lamento, mas estou comprometido.

        - Um encontro com uma senhora, no ? Sim, est decididamente a

recuperar-se.

        - Suponho que lhe pode chamar isso - disse eu, muito divertido com a ideia da Megan nesse papel.
        Cheguei  Mirotin s seis da tarde, quando o estabelecimento estava oficialmente a fechar. Mary 
Grey veio receber-me ao cimo das escadas, do lado de fora do salo de desfiles. Levou o dedo aos lbios.

156

- Vai ter um choque! Embora seja eu a dizer isto, fiz um bom trabalho. Entrei no grande salo de desfiles. A 
Megan estava de p, diante de um espelho comprido, a olhar para o seu reflexo. Garanto que quase no a 
reconheci! Por um instante, fiquei sem respirar. Alta e esbelta como um salgueiro, com tornozelos e ps 
delicados realados por meias de seda e sapatos bem feitos. Sim, ps e mos adorveis, ossos pequenos, 
qualidade e distino em cada trao. 0 cabelo fora aparado e moldado  cabea e brilhava como uma 
castanha polida. Tinham tido o bom senso de no lhe tocar no rosto. No estava maquilhada, ou se estava, 
era uma maquilhagem to leve e delicada que no se notava. A boca no precisava de batom.

        Alm disso, havia qualquer coisa nela que eu nunca vira antes, um orgulho novo e inocente na 
curva do pescoo. Olhou para mim com um ar srio e um sorrisinho tmido.
        - Estou... muito bonita, no estou? - disse a Megan.
        - Bonita? - disse eu. - Bonita no  a palavra. Vamos jantar fora, e se um em cada dois homens 
no se virar para te olhar, vou ficar muito surpreendido. Vais meter todas as outras raparigas num chinelo.
        A Megan no era bonita, mas tinha uma aparncia atraente e invulgan Tinha personalidade. Entrou 
no restaurante  minha frente, e, quando o chefe de mesa se precipitou para ns, senti o orgulho idiota que 
um homem sente quando tem com ele algum fora do vulgar.
        Primeiro, tommos cocktails e fizemo-los render. Depois jantmos. E mais tarde danmos. 
A'Megan gostava de danar e eu no quis desapont-la, mas, por uma razo ou outra, nunca pensei que 
ela danasse bem. Mas danava. Era leve como uma pena nos meus braos, e o seu corpo e os seus ps 
acompanhavam o ritmo na perfeio.
        - Caramba! - disse eu. - Sabes danar!
        Ela pareceu um pouco surpreendida. * Bem,  claro que sei. Na escola tnhamos aulas de dana 
todas as semanas.
        - No bastam aulas de dana para fazer um bailarino - disse eu.
        Voltmos para a nossa mesa.
        - Esta comida  magnfica, no ? - disse a Megan. - E tudo o resto!
        Soltou'uM suspiro deliciado.
        -  exactamente isso que eu sinto - disse eu.

157
        Foi uma noite delirante. Continuava louco. A Megan trouxe-me de volta  terra, ao dizer hesitante:
        - No devamos voltar para casa?

        Caiu-me a alma aos ps. Sim, estava decididamente louco. Tinha-me esquecido de tudo! Estava 
num mundo longe da realidade, onde existia, apenas eu e a criatura que eu criara.
        - Meu Deus! - disse eu.
        Apercebi-me de que o ltimo comboio j partira.
        - Fica aqui - disse eu. - Vou telefonar.
        Telefonei para a Llewellyn Hire e pedi-lhes que me mandassem, o mais depressa possvel, o carro 
maior e mais rpido que tivessem.
        Voltei para junto da Megan. - 0 ltimo comboio j partiu - disse eu. - Por isso vamos para casa de 
carro.
        - Vamos? Que divertido!
        Que mida encantadora ela era, pensei eu. To satisfeita com tudo, to sem objeces, aceitando 
todas as minhas sugestes sem problemas nem aborrecimento.
        0 carro chegou e era grande e rpido, mas mesmo assim ja era muito tarde quando chegmos a 
Lymstock
        De repente, cheio de remorsos, eu disse: - Devem ter andado  tua procura!
        Mas a Megan parecia estar tranquila. Disse vagamente:
        - Oh! no me parece. Muitas vezes saio e no vou a casa almoar.
        - Pois sim, minha querida, mas no foste lanchar, nem jantar.
        Contudo, a sorte estava do lado da Mean. A casa estava s escuras e em silncio. A conselho da 
Megan, contornmos a casa at s traseiras e atirmos pedras  janela da Rose.
        Pouco depois a Rose espreitou e, com muitas exclamaes reprimidas e muitas palpitaes, 
desceu para nos abrir a porta.
        - Ora esta! e eu a dizer que estava a dormir no seu quarto. 0 patro e Miss Holland - (uma leve 
fungadela depois do nome de Miss Holland) jantaram cedo e foram dar uma volta de carro. Eu disse que 
tomava conta dos meninos. Pensei t-la ouvido entrar quando estava no quarto dos rapazes a tentar 
acalmar o Colin, que estava muito irrequieto, mas a menina no

158

estava aqui quando eu desci e por isso pensei que tinha ido deitar-se. E foi isso que eu disse, quando o 
patro chegou e me perguntou por si.

        Interrompi a conversa, observando que era o que a Megan devia fazer agora.
        - Boa noite - disse a Megan -, e muitssimo obrigada. Foi o dia mais encantador que j tive.
        Fui para casa de carro ainda ligeiramente estonteado e dei uma gorgeta generosa ao motorista, 
oferecendo-lhe uma cama se ele quisesse. Mas ele preferiu regressar de noite.
        A porta do hall entreabrira-se durante o nosso dilogo, e quando ele arrancou abriu~se 
completamente e a joanna disse:
        - Ento, s finalmente tu?
        - Estavas preocupada comigo? - perguntei, entrando e fechando a porta.
        A joanna entrou na sala de visitas e eu segui-a. Havia uma cafeteira de caf na trempe e a joanna 
fez caf para ela, enquanto eu me servia de whisky com soda.
        - Preocupada contigo? No, claro que no. Pensei que tinhas decidido ficar na cidade e fazer uma 
farra.
        - Fiz uma... especie de farra.
        Dei um sorriso de orelha a orelha e depois comecei a rir-me.
        A Joanna perguntou de que  que me estava a rir e eu contei-lhe.
        - Mas, Jerry, deves ter ficado louco, completamente louco!
        - Creio que sim.
        - Mas, meu caro, no podes fazer coisas dessas, no numa terra como esta. Amanh a notcia vai 
correr por Lymstock inteira.
        - Suponho que sim. Mas, no fim de contas, a Megan  s uma criana.
        - No . Tem vinte anos. No podes levar uma rapariga de vinte anos a Londres e comprar-lhe 
roupas sem provocar um escndalo horrvel. Santo Deus! Jerry, provavelmente vais ter de casar com a 
mida.
        A Joanna falou meio a srio, meio a rir.
        Foi nesse instante que fiz uma descoberta muito importante. - Diabo! - disse eu. - No me importo 
nada. De facto, at gostava.

159
        Uma expresso muito esquisita atravessou o rosto da joanna. Levantou-se e disse secamente, 
enquanto se dirigia para a porta:
- Sim, j sei isso h algum tempo...
        Deixou-me l especado, de copo na mo, aterrado com a minha nova descoberta.

160

CAPFTULO DOZE

        Desconheo as reaces habituais de um homem que vai pedir algum em casamento.
        Nos romances, sente a garganta seca e o colarinho apertado de mais e fica num estado de nervos 
lastimoso.
        Eu no me sentia, de maneira nenhuma, assim. Como pensava que era uma boa ideia, s queria 
resolver tudo o mais depressa possvel. No via nenhuma necessidade especial para constrangimentos.
        Dirigi-me para casa do Symmington por volta das onze horas. Toquei  campainha, e quando a 
Rose veio perguntei por Miss Megan. Foi o ar de entendida que a Rose ps que me fez sentir, pela primeira 
vez, um pouco tmido.
        Ela levou-me para a saleta, e, enquanto estava l  espera, desejei com inquietao que no 
tivessem atormentado a Megan.
        Quando a porta se abriu e eu dei meia-volta, fiquei instantaneamente aliviado. A Megan no parecia 
nada tmida, nem nervosa. A cabea dela ainda parecia uma castanha lustrosa, e exibia o ar de orgulho e 
amor-prprio que adquirira no dia anterior Estava de novo com as suas roupas velhas, mas conseguira fazer 
com que parecessem diferentes.  maravilhoso o que o conhecimento do seu prprio encanto pode fazer a 
uma rapariga. Apercebi-me subitamente de que a Megan crescera.
        Creio que, de facto, devia estar muito nervoso, seno no teria comeado a conversa, dizendo 
afectuosamente: - Ol, mida! - Naquelas circunstncias, dificilmente seria uma saudao de apaixonado.
        Mas parece que agradou  Megan. Ela sorriu e disse: - Ol!
        - Olha! - disse eu. - Espero que no tenhas apanhado uma descompostura por causa de ontem.
        A Megan disse com segurana: - Oh, no! - Depois pestanejou e disse

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vagamente: - Sim, creio que apanhei. Quero dizer, disseram uma data de        - Que vantagem haveria nisso?

        coisas, e parece que acharam tudo muito estranho        mas depois, sabe como        - Absolutamente 
nenhuma - concordei -, de facto, seria uma redun-

        so as pessoas, e o alvoroo que fazem por ninharias.        dncia        porque vou ter esperana,, quer 
me digas para ter, quer no.
        Fiquei aliviado por descobrir que as censuras escandalizadas no tinham
        tido qualquer efeito na Megan.
        - Vim c esta manh - disse eu - porque tenho uma sugesto a fazer
        -te. Gosto muito de ti, e acho que tu gostas de mim

        - Imensamente - disse a Megan com um entusiasmo muito inquie-                Bem, foi tudo. 
Afastei-me da casa sentindo-me ligeiramente aturdido,
tante.        mas irritantemente consciente de que era seguido pelo olhar apaixonada
        - E damo-nos muito bem, por isso acho que seria boa ideia se nos
casssemos.        mente interessado da Rose.
        - Oh! - disse a Megan.                A Rose tivera muito que dizer antes de eu me conseguir escapar.
        Parecia surpreendida. Apenas isso. No parecia alarmada. Nem chocada.                Que nunca mais 
se sentira a mesma depois daquele dia horrvel! Que no
Apenas moderadamente surpreendida.        teria ficado, se no fosse por causa das crianas e por ter pena 
do coitado do
        - Quer dizer que quer realmente casar comigo? - perguntou com o ar        Mr. Symmington. Que 
no ficaria se no arranjassem depressa outra criada
de quem quer esclarecer bem uma coisa.        - e que no era provvel que a conseguissem arranjar, j 
que tinha havido
        - Mais do que qualquer outra coisa no mundo - disse eu, e estava a        um assassnio l em 
casa! Que estava muito bem aquela Miss Holland dizer
falar a srio.        que entretanto faria ela o trabalho da casa. Ela era muito amvel e prestvel
        - Quer dizer que est apaixonado por mim?        - Oh! sim, mas o que ela desejava era ser um dia 
a dona da casa! Mr.
        - Estou apaixonado por ti.        Symmington, pobre homem, nunca via nada - mas uma pessoa 
sabe como
        Os olhos dela estavam firmes e srios. Disse:         um vivo, uma pobre criatura desamparada, 
convertida em presa de uma
        - Acho que o senhor  a melhor pessoa do mundo        mas no estou        mulher astuta. E se 
Miss Holland no tomasse o lugar da patroa morta, no
apaixonada por si.        seria por no tentar!
        - Eu farei com que me ames.                Concordei mecanicamente com tudo, ansiando por fugir e 
incapaz de o
        - Isso no resultaria. No quero serforada-        fazer porque a Rose segurava firmemente no meu 
chapu, enquanto dava
        Fez uma pausa, e depois disse gravemente: - No sou o gnero de        largas  sua torrente de 
despeito.
mulher que lhe convm. Sou melhor a odiar do que a amar.                Perguntei a mim mesmo se 
haveria alguma verdade no que ela dissera.
        Disse aquilo com uma intensidade fora do comum.        Teria Elsie Hofiand encarado a 
possibilidade de se tornar a segunda Mrs.
        Eu disse: - 0 dio no dura. 0 amor sim.        Symmington? Ou era apenas uma rapariga decente e de 
bom corao que
        - Isso  verdade?        estava a fazer o melhor que podia para cuidar de um lar enlutado?
        -  o que eu creio.                Em qualquer dos casos, o resultado iria provavelmente ser o 
mesmo.
        Mais uma vez, fez-se silncio. Depois eu disse:        E por que no? Os filhos pequenos do 
Symmington precisavam de uma me
        - Ento, NNo>>, no ?        - a Elsie era uma alma decente (alm de ser indecentemente 
bonita, um
        - Sim,  no.        ponto qu 1  um homem deve apreciar        mesmo um tipo presumido como o
        - E no me encorajas a ter esperana?        Symmington!).
        162                163
Megan.

Pensei em tudo isto, eu sei, porque estava a tentar evitar pensar na

        Podem dizer que eu fora pedir  Megan que casasse comigo numa disposio de esprito 
absurdamente complacente e que mereci o que tive - mas na verdade no foi assim.  que estava to 
convencido, to seguro, de que a Megan me pertencia... de que tinha direitos sobre ela, de que cuidar dela, 
e torn-la feliz, e defend-la do mal era para mim o nico modo de vida certo e natural, que estava  espera 
que tambm ela sentisse que pertencamos um ao outro.
        Mas eu no ia desistir. Oh! no. A Megan era a minha mulher, e eu ia t-Ia.
        Depois de pensar um momento, fui ao escritrio do Symmington. A Megan podia no prestar 
ateno a crticas ao seu comportamento, mas eu gostava de esclarecer as coisas.
        Disseram-me que Mr. Symmington estava disponvel, e fui conduzido ao seu gabinete. Pelos lbios 
comprimidos e por uma rigidez adicional no comportamento, percebi que naquele momento eu no era 
exactamente popular.
        - Bom dia - disse eu. - Receio que esta visita no seja profissional, mas sim pessoal. Vou falar 
com toda a franqueza. Atrevo-me a dizer que j deve ter percebido que estou apaixonado pela Megan. Pedi-
lhe que casasse comigo, e ela recusou. Mas no aceito a resposta como definitiva.
        Vi a expresso do SymmingLon mudar, e li o que lhe ia no esprito com uma facilidade ridcula. A 
Megan era um elemento desarmonioso em casa dele. Ele era, com certeza, um homem justo e bondoso, e 
nunca lhe passaria pela cabea no dar um lar  filha da falecida mulher. Mas o casamento dela comigo 
seria, sem dvida, um alvio. 0 bloco de'gelo descongelou. Dirigiu-me um sorriso mortio e cauteloso.
        - Sabe, Burton, para ser franco, no fazia a menor ideia. Sei que lhe tem dado muita ateno, mas 
sempre a considermos uma criana.
        - Ela no  uma criana - disse eu laconicamente.
        - No, no, no em idade.
        - Ela poder assumir a idade que tem, quando lhe permitirem que o faa - disse eu levemente 
irritado. - Ainda no tem vinte e um anos, bem sei, mas vai ter daqui a um ou dois meses. Eu forneo-lhe 
todas as

164

informaes que quiser sobre mim. Vivo bem, e tenho levado uma vida bastante decente. Vou cuidar dela e 
fazer tudo o que puder para a tornar feliz.
- Muito bem, muito bem. Contudol a Megan  que decide.
        - Na altura prpria, ela vai ceder - disse eu. - Mas achei melhor esclarecer tudo consigo.
        Ele disse que agradecia, e separmo-nos amigavelmente.

        Encontrei-me l fora com Miss Emily Barton. Ela tinha no brao um cesto de compras.
        - Bom dia, Mr. Burton, ouvi dizer que ontem foi a Londres.
        Sim, ouvira bem. Os seus olhos, achei eu, eram compreensivos, mas tambm estavam cheios de 
curiosidade.
        - Fui ver o meu mdico - disse eu.
        Miss Emily sorriu.
        Aquele sorriso fazia pouco caso de Marcus Kent. Murmurou:
        - Constou-me que a Megan quase perdeu o comboio. Entrou, ja o comboio estava em andamento.
        - Ajudada por mim - disse eu. - Icei-a l para dentro.
        - Foi uma sorte o senhor estar l. Caso contrrio, podia ter havido um acidente.
         extraordinrio como uma velhinha solteirona, amvel e curiosa, pode fazer com que um homem 
se sinta um idiota chapado.
        Fui poupado a mais sofrimentos pela investida de Mrs. Dane Calthrop. Trazia a reboque a sua 
prpria velhota, solteirona e submissa, mas foi ela mesma a aambarcar os comentrios directos.
        - Bom dia - disse ela. - Ouvi dizer que obrigou a Megan a comprar roupas decentes? Muito sensato 
da sua parte.  preciso um homem para pensar numa coisa realmente prtica como essa. H muito tempo 
que ando preocupada com essa mida. As raparigas com miolos esto sujeitas a transforrnarem-se em 
dbeis mentais, no esto?
        Com-esta extraordinria afirmao, precipitou~se para'dentro da peixaria.

165
Miss Marple, que ficou ao p de mim, piscou um pouco os olhos e disse:
        - Mrs. Dane Calthrop  uma mulher muito fora do vulgar, sabe. Tem quase sempre razo.
        - 0 que a torna muito alarmante - disse eu.
        - A sinceridade tem esse efeito - disse Miss Maiple.
        Mrs. Dane Calthrop precipitou-se outra vez para fora da peixaria e juntou-se a ns. Segurava numa 
grande lagosta vermelha.
        - j viram alguma coisa menos parecida com Mr Pye? - disse ela. Muito viril e elegante, no ?

        IV

        Estava um pouco nervoso por ir encontrar-me com a joanna, mas quando cheguei a casa descobri 
que no precisava de me ter preocupado. Ela tinha sado e no voltou para o almoo. Isto ofendeu muito a 
Partridge, que disse amargamente, ao apresentar-me duas costeletas num prato de entrada: - Miss Burton 
avisou-me especialmente que vinha almoar.
        Comi as duas costeletas, numa tentativa de expiar a pequena falta da Joanna. Mesmo assim, fiquei 
a pensar onde estaria a minha irm. ljltimamente andava muito misteriosa em relao ao que fazia.
        Eram trs e meia quando a Joanna irrompeu na sala de visitas. Ouvi um carro parar l fora e estava 
 espera de ver o Griffith, mas o carro arrancou e a joanna entrou sozinha.
        Tinha o rosto muito corado e parecia transtornada. Apercebi-me de que acontecera alguma coisa.
        - Que se passa? - perguntei.
        A Joanna abriu a boca, voltou a fech-la, suspirou, sentou-se pesadamente numa cadeira e ficou a 
olhar fixamente para a frente.
        Disse:
        - Tive um dia pavoroso.
        - Que aconteceu?
        - Fiz uma coisa incrvel. Foi horrvel...
        - Mas que...

166

1        1

        - S tencionava dar um passeio, um passeio normal.. fui pela colina acima at  charneca. 
Caminhei quilmetros, foi a impresso que tive. Depois, ca num buraco. H l uma quinta. Um lugar remoto 
e solitrio. Tinha sede e perguntei a mim mesma se teriam leite ou qualquer coisa. Por isso atravessei o 
ptio da quinta e depois a porta abriu-se e o Owen saiu.
        - Sim?
        - Ele pensava que eu era a enfermeira domicfliria. Havia l uma midher a ter um beb. Ele estava  
espera da enfermeira e tinha-a mandado trazer outro mdico. Aquilo... as coisas estavam a correr mal.
        - Sim?
        - Ento, ele disse-me... a mim. ~(Venha, voc serve,  melhor do que nada.>> Eu disse que no 
era capaz e ele perguntou que  que eu queria dizer? Eu disse que nunca tinha feito nada do gnero, que 
no sabia nada...
        - Ele disse para que diabo importava isso. E depois foi hor7vel. Virou-se contra n-m. Disse ~x 
uma mulher, no ? Suponho que  capaz de fazer tudo o que puder por outra mulher>>. E continuou a 
barafstar comigo. Disse que eu falava como se estivesse interessada em exercer medicina e que tinha dito 
que queria ser enfermeira. ~xtudo conversa fiada, suponho! No estava a falar a srio, mas isto  srio, e 
vai comportar-se como um ser humano decente e no como uma imbecil intil e ornamental!>~
        - Fiz as coisas mais incrveis,jerry. Peguei em instrumentos, e ferv-os, e entreguei-lhe coisas. 
Estou to cansada que mal me aguento em p. Foi horrvel. Mas ele salvou-a, e ao beb. Nasceu vivo. A 
certa altura ele pensou que no ia poder salv-lo. Valha-me Deus!
        A Joanna cobriu a cara com as mos.
        Contemplei-a com alguma satisfao e tirei, mentalmente, o chapu ao Owen Griffith. Por essa 
vez, ele obrigara a joanna a encarar a realidade de frente.
        Eu disse: - H uma carta para ti no hall. Do Paul, creio eu.
        - Hum! - Fez uma pausa por um momento e depois, disse: - No fazia ideia, jerry, do que os 
mdicos tm defazer. 0 sangue-frio que tm de ter!
        Fui ao hall e trouxe a carta  Joanna. Ela abriu-a, olhou vagamente para o seu contedo e deixou-a 
cair.

167
        - Ele foi... realmente... maravilhoso! A forma como lutou, a forma como no se deixou vencer! Foi 
grosseiro e horrvel comigo, masfoi maravilhoso.
        Observei a carta menosprezada do Paul com alguma satisfao. A Joanna estava, obviamente, 
curada do Paul.

CAPTuLo TREZE

As coisas nunca acontecem quando so esperadas.
        Estava concentrado nos meus problemas pessoais e nos da joanna, e, na manh seguinte, fui 
apanhado de surpresa quando a voz do Nash me disse ao telefone: - Apanhmo-la, Mr. Burton!
        Fiquei to espantado que quase deixei cair o auscultador.
- Refere-se ...
        Ele interrompeu-me.
        - Podem ouvir o que diz, no stio onde est?
- No, no me parece... bem, talvez...
        Pareceu-me que a porta que d para a cozinha se entreabrira.
        - Talvez no se importe de vir  esquadra?
        - Com certeza que vou. Imediatamente.
        Cheguei  esquadra da Polcia pouco depois. 0 Nash e o sargento Parkins estavam juntos numa 
sala interior. 0 Nash estava sorridente e radiante.
        Foi uma longa perseguio - disse ele. - Mas chegmos finalmente ao fim.
        Deslizou uma carta ao longo da mesa. Desta vez, estava toda dactografada. Era, no seu gnero, 
bastante suave.
        No vale a pena pensares que vais tomar o lugar de uma morta A povoao inteira troa de t Vai-
tej embora Em breve, ser tarde de mais. Isto  um aviso. Lembra-te do que aconteceu  outra rapariga 
Vai-te embora e no voltes.
        Acabava com uma linguagem moderadamente obscena.
        - Isso chegou s mos de Miss Hofiand esta manh - disse o Nash.
- Acho estranho ela no ter recebido nenhuma carta antes - disse o

,1 "
sargento-Parkins.
Quem a escreveu? - perguntei.

168        169
Parte do regozijo desvaneceu-se do rosto do Nash.
Pareceu cansado e preocupado. Disse ponderadamente:
        - Lamento muito tudo isto, porque vai atingir duramente um homem decente, mas  assim. Talvez 
ele j suspeitasse.
        - Quem a escreveu? - repeti.
        - Miss Aime Griffith.

il

        Naquela tarde, o Nash e o Parkins foram a casa do Griffith com um mandato de captura.
        A convite do Nash, fui com eles.
        - 0 doutor - disse ele - simpatiza muito consigo. Ele no tem muitos amigos nesta terra. Se no lhe 
custar muito, Mr Burton, creio que o senhor talvez possa ajud-lo a resistir ao choque.
        Eu disse que iria. No me agradava muito a misso, mas pensei que podia ser de alguma utilidade.
        Tocmos  campainha e perguntmos por Miss Griffith e fomos conduzidos  sala de visitas. Elsie 
Holland, a Megan e o Symmington estavam l a tomar ch.
        0 Nash comportou-se de um modo muito discreto.
        Perguntou a Aime se podia dar-lhe uma palavra em particular.
        Ela levantou-se e dirigiu-se a ns. Pareceu-me ver uma leve expresso acossada nos seus olhos. 
Se assim foi, desapareceu de novo. Estava perfeitamente normal e cordial.
        - Quer falar comigo? Espero no estar de novo com problemas por causa dos faris do carro.
        Levou-nos para fora da sala de visitas e atravs do haU at a um pequeno gabinete.
        Quando fechei a porta da sala de visitas, vi a cabea do Symmington erguer-se com um movimento 
brusco e sacudido. Presumo que a sua formao legal o pusera em contacto com casos policiais, e que 
notara qualquer coisa no comportamento do Nash. Semiergueu-se.
        Foi tudo o que vi, antes de fechar a porta e de seguir os outros.

170

1

        0 Nash disse o que tinha a dizer Foi muito calmo e correcto. Avisou-a dos seus direitos e depois 
disse-lhe que tinha de lhe pedir que o acompanhasse. Tinha um mandato de captura para a deter e leu-lhe 
a acusao em voz alta-..
        Esqueci-me dos termos legais exactos. Tratava-se das cartas e no do assassinio, por enquanto.
        Aime Griffith levantou violentamente a cabea e desatou a rir Gritott - Que disparate ridculo! Como 
se eu fosse escrever um mao de coisas indecentes como essa. Deve estar louco. Nunca escrevi uma 
palavra desse gnero.
        0 Nash mostrara-lhe a carta dirigida a Elsie Holland. Disse:
        - Nega ter escrito isto, Miss Griffith?
        Se hesitou, foi apenas por uma fraco de segundo.
        - Claro que nego. Nunca vi isto antes.
        0 Nash disse calmamente: - Tenho de lhe dizer, Miss Griffith, que foi vista a dactdografar esta carta 
no Instituto das Mulheres, entre as onze e as onze e meia da noite de anteontem. Ontem entrou no correio 
com um mao de cartas na mo...
        - Nunca meti esta carta no correio.
        - No, a senhora no meteu. Enquanto estava  espera dos selos, deixou-a cair ao cho sem dar 
nas vistas para que algum se apressasse a apanh-la e a met-la no correio sem suspeitar de nada.
- Eu nunca...
        A porta abriu-se e o Symmington entrou. Disse: - Que se passa? Aime, se se passa alguma 
coisa, deves ser representada legalmente. Se quiseres que eu...
        Nessa altura ela foi-se abaixo. Cobriu o rosto com as mos e foi a cambalear at uma cadeira. 
Disse:
        - Vai-te embora, Dick vai-te embora. Tu no! Tu no!
        - Precisas de um advogado, minha cara.
- Tu no. Eu... eu no suportaria isso. No quero que saibas... tudo isto. Talvez ele tenha compreendido 
nessa altura. Disse calmamente:
- Vou tentar falar com o Mildmay, de Exhampton. Pode ser ele?
Ela acenou afirmativamente. Estava agora a soluar.
0 Symmington saiu da sala. A porta, chocou com o Owen Griffith.

171
nativa...

- Que  isto? - disse o Owen violentamente. - A minha irm...
- Lamento muito, Dr Griffith. Lamento muito. Mas no temos alter-

- Acha que ela... foi responsvel por essas cartas?

        - Receio que no haja dvidas quanto a isso, doutor - disse o Nash. Virou-se para Aime: - Agora 
tem de vir connosco, por favor, Miss Griffith; vai ter todas as oportunidades para falar com um advogado.
        0 Owen gritou: - Aime?
        Ela passou-lhe ao lado sem olhar para ele e disse: - No fales comigo. No digas nada. E por amor 
de Deus, no olhes para mim!
        Saram. 0 Owen ficou como se estivesse em transe.
        Esperei um pouco, depois aproximei-me dele.
        - Se houver alguma coisa que eu possa fazer, Griffith, diga-me.
        Ele disse como num sonho:
        - A Aime? No acredito.
        - Pode ser um engano - sugeri debilmente.
        Ele disse devagar: - Ela no teria reagido assim, se fosse um engano. Mas eu nunca poderia 
acreditar. No ~ acreditar
        Deixou-se cair numa cadeira. Tornei-me til, encontrando uma bebida forte e levando-lha. Ele 
engoliu-a, e parece ter-lhe feito bem.
        - No consegui acreditar, a princpio - disse Owen. - Agora estou bem. Obrigado, Burton, mas no 
pode fazer nada. Ningum pode fazer nada.
        A porta abriu-se e a joanna entrou. Estava branca como a cal.
        Aproximou-se do Owen e olhou para mim.
        - Sai, Jerry. Isto agora  comigo.
        Ao sair pela porta, vi-a ajoelhada junto  cadeira dele.

        No consigo contar coerentemente os acontecimentos das vinte e quatro horas seguintes. H 
vrios incidentes que se destacam, sem relao com outros incidentes.

172

        Lembro-me de ajoanna voltar para casa, muito branca e cansada, e de eu tentar anim-la dizendo:
        - E agora, quem est a ser um anjo auxiliador?
        E de a joanna sorrir de um modo lamentvel e desfigurado e de dizer:

        - Ele diz que no me querer, Jerry.  muito, muito orgulhoso e infle-

xvel!

        E de eu dizer: - A minha mida tambm no me quer...

        E de ficarmos ali sentados durante algum tempo, e de a joanna dizer por fim:
        - Neste momento, a famlia Burton no est exactamente com grande procura!
        E de eu dizer: - Deixa l, minha querida, ainda nos temos um ao outro. - E de a joanna dizer: - De 
uma forma ou de outra, Jerry, isso no me conforta muito neste preciso momento...

        IV

        0 Owen apareceu no dia seguinte e dissertou de uma forma muito exagerada sobre ajoanna. Ela 
era maravilhosa, extraordinria! 0 modo como fora ter com ele, o modo como se dispusera a casar com ele 
- imediatamente, se ele quisesse. Mas ele no ia permitir que ela fizesse isso. No, ela era boa de mais, 
delicada de mais, para estar associada ao gnero de confuso que iria surgir logo que os jornais 
obtivessem as notcias.
        Eu gostava muito da joanna e sabia que ela era do tipo que fica bem quando est a apoiar algum 
com problemas, mas fiquei muito aborrecido com todas estas tolices ridculas. Muito irritado, disse ao 
Owen que no fosse to abominavelmente nobre.
        Desci at  High Street e descobri que estava toda a gente a falar pelos cotovelos. Emily Barton 
afirmava que nunca confiara realmente em Aime Griffith. A mulher do merceeiro dizia com satisfao que 
sempre achara que Miss Griffith tinha uma expresso esquisita no olhar...
        Tinham completado o caso contra Aime, soube pelo Nash. Uma busca  casa trouxera  luz as 
pginas cortadas do livro de Emily Barton - no

173
armrio debaixo das escadas, onde nunca se pensaria, embrulhadas num velho rolo de papel de parede.
        - E que lugar fantstico - disse o Nash apreciativamente. - Nunca se sabe quando uma criada 
curiosa ir forar uma escrivaninha ou uma gaveta fechada, mas os armrios de tralha, cheios de bolas de 
tnis do ano anterior e de papel de parede velho, nunca so abertos, a no ser para enfiar mais qualquer 
coisa l dentro.
        - Parece que a senhora tinha uma predileco por esse esconderijo especfflco - disse eu.
        - Sim. A mente criminosa raramente  muito variada. A propsito, por falar na rapariga morta, 
temos um facto em que podemos basear-nos. Desapareceu uma mo de almofariz, grande e pesada, do 
dispensrio do doutor Aposto o que quiser em como a rapariga foi atordoada com ela.
        - Uma coisa muito incmoda para levar de um lado para o outro protestei.
        - No para Miss Griffith. Ela ia s ' Guias naquela tarde, mas no caminho ia levar flores e legumes  
barraca da Cruz Vermelha, por isso tinha com ela um cesto enorme.
        - No encontrou o espeto?
        - No, e no vou encontrai: A pobre coitada pode ser louca, mas no suficientemente louca para 
guardar um espeto manchado de sangue s para nos facilitar a vida, quando lhe bastava lav-lo e devolv-lo 
a uma gaveta de cozinha.
        - Suponho - admiti - que no se pode ter tudo.
        0 vicariato fora um dos ltimos stios a saber as novidades. A velha Miss Marple ficou muito 
angustiada com elas. Falou muito seriamente comigo sobre o assunto.
        - No  verdade, Mr. Burton. Tenho a certeza de que no  verdade.
        - Receio que seja. Fizeram-lhe uma emboscada, sabe. Viram-na, de facto, a escrever aquela carta 
 mquina.
        - Sim, sim - talvez tenham visto. Sim, posso compreender isso.
        - E as pginas impressas de onde as cartas foram recortadas foram encontradas em casa dela, no 
lugar onde ela as escondera.
        Miss Marple fitou-me. Depois disse, num tom de voz muito baixo: Mas isso  horrvel... realmente 
perverso.

174

        Mrs. Dane Calthrop apareceu de repente e juntou-se a ns e disse- Que se passa, Jane?
        Miss Maiple murmurou impotentemente:
        - Valha-me Deus! valha-me Deus! que se podefazer?
        - Por que ests transtornada, jane?
        Miss Marple disse: - Deve haver alguma coisa. Mas sou to velha e to ignorante e receio que 
muito tola.
        Senti-me muito embaraado e fiquei satisfeito quando Mrs. Dane Calthrop levou a amiga com ela.
        Contudo, voltaria a ver Miss Marple naquela tarde. Muito mais tarde, quando regressava a casa.
        Ela estava junto da pequena ponte na extremidade da aldeia, perto da casa de Mrs. Cleat, a falar 
justamente com a Megan.
        Eu queria falar com a Megan. Tinha querido falar com ela o dia todo. Apressei o passo. Mas ao 
chegarjunto delas, a Megan virou-se e foi-se embora na outra direco.
        Fiquei irritado e queria ir atrs dela, mas Miss Marple bloqueou-me o caminho.
        - Queria falar consigo - disse. - No, no v atrs da Megan agora. No seria sensato.
        Ia dar uma resposta desabrida, quando ela me desarmou, dizendo:
        - Aquela mida tem muita coragem... uma grande dose de coragem.
        Eu ainda queria ir atrs da Megan, mas Miss Marple disse:
        - No tente falar com ela agora. Sei o que estou a dizer Ela tem de conservar a coragem intacta.
        Houve qualquer coisa na afirmao da velha senhora que me gelou. Era como se ela soubesse 
alguma coisa que eu desconhecia.
        Tinha medo e no sabia por que o tinha.
        No fui para casa. Voltei para a High Street e andei para cima e para baixo sem destino. No sei 
do que estava  espera, nem no que estava a pensar...
        Fui apanhado por aquele velho maador do coronel Appleton. Como 4e
        costume, perguntou-me pela minha encantadora irm, e depois-,pro, ~11:
- Que  isso da irm do Griffith ser louca? Dizem que est-,POr " 4a
histria'das cartas annimas, que foram uma maldita maada paratx)da a
gente. A - princpio, no acreditei, mas dizem que  verdade.

175
Eu disse que era verdade.
        - Bem, bem... tenho de dizer que a nossa Polcia , em geral, muito boa. Dem-lhes tempo, eis 
tudo, dem-lhes tempo. Um caso singular, essa histria das cartas annimas... so sempre estas 
solteironas secas que tomam parte nisso, embora a Griffith no fosse feia, apesar de ter os dentes um 
bocado grandes. Mas nesta parte do mundo no h raparigas de aparncia decente, com excepo 
daquela preceptora dos Symmingtons. Merece que se olhe para ela. E tambm  uma rapariga amvel. 
Reconhecida, se algum faz qualquer coisa por ela. Encontrei-a por acaso, no h muito tempo, quando 
fazia um piquenique com os midos. Eles andavam a brincar na urze e ela estava a tricotar, muito 
aborrecida porque tinha ficado sem l. x~Bem~>, disse eu, x~quer que a leve a Lyrnstock? Tenho de ir l 
buscar uma cana de pesca. No levo mais de dez minutos para a ir buscar e depois trago-a outra vez>>. 
Ela hesitou em deixar os midos.,KEles ficam bem>>, disse eu. x~Quem  que vai fazer-lhes mal?>> Eu 
no ia levar os rapazes connosco, nem pensar! Por isso levei-a, deixei-a na loja das ls, fui busc-la mais 
tarde, e foi tudo. Agradeceu-me muito gentilmente. Muito grata e tudo isso. Rapariga simptica.
        Consegui escapar-me.
        Foi depois disso que avistei Miss Marple pela terceira vez. Vinha a sair da esquadra da Polcia.

        Donde vm os nossos medos? Onde tomam forma? Onde se escondem antes de se manifestarem 
abertamente?
        Apenas uma curta frase. Escutada e registada e nunca realmente ignorada:
        - Leve-me daqui...  to horrvel estar aqui... a sentir-me to m...
        Por que  que a Megan dissera aquilo? Que motivos tinha para se sentir m?
        No podia haver nada na morte de Mrs. Syrnmington que fizesse a Megan sentir-se m.
        Por que  que a mida se sentira m? Porqu? Porqu?
        Seria porque, de algum modo, se sentia responsvel?

176

        A Megan? Impossvel! A Megan no podia ter tido nada a ver com aquelas cartas... aquelas 
revoltantes cartas obscenas.

        0 Owen Griffith soubera de um caso no norte

        Que dissera o inspector Graves?
        Qualquer coisa sobre uma mente adolescente...
        Inocentes senhoras de meia-idade nas mesas de operaes a balbuciarem palavras que mal 
conheciam. Rapazinhos a escreverem coisas a giz nas paredes.
        No, no, a M~gan no.
        Hereditariedade? Mau sangue? Uma herana inconsciente de qualquer coisa anormal? Desgraa 
sua, no culpa sua, uma praga lanada sobre ela por uma gerao passada?
        x,No sou a mulher que lhe convm. Sou melhor a odiar do que a amar.>>
        Oh! a minha Megan, a minha menina. I&so no! Qualquer coisa,'menos isso. E aquela velha 
Mexeriqueira anda atrs de ti, suspeita de ti. Ela diz que tens coragem. Coragem para fazer o qu?
        Foi s um acesso de loucura momentneo. Passou. Mas eu queria ver a Megan - queria muito v-
Ia.
        s nove e meia daquela noite sa de casa, e desci  povoao, e fui at  casa dos Symmingtons.
        Foi nessa altura que uma ideia completamente nova me veio  cabea. A ideia de uma mulher em 
quem ningum pensara nem por momento.
        (Ou o Nash pensara nela?)
        Muitssimo improvvel, muitssimo improvvel, e, at hoje, eu tambm teria dito impossvel. Mas 
no era. No, no era impossvel.
        Acelerei o passo. Porque agora era ainda mais premente que eu falasse imediatamente com a 
Megan.
        Transpus o porto dos Symmingtons e dirigi-me  casa. Estava uma noite escura e carregada de 
nuvens. Comeava a cair uma chuva miudinha. A visibilidade era m.
        Vi uma risca de luz numa das janelas. A saleta?
        Hesitei por um momento, depois, em vez de ir at  porta da frente, mudei de direco e arrastei-
me sem fazer barulho at  janela, contornando um arbusto e escondendo-me.

- uma estudante..

177
        A luz vinha de uma abertura nas cortinas que no estavam completamente corridas. Era fcil olhar 
atravs dela e ver
        Era uma cena estranhamente tranquda e domstica. 0 Symmington numa grande poltrona, e Elsie 
Holland, de cabea inclinada, a remendar uma camisa de rapaz rasgada.
        Alm de ver, eu tambm conseguia ouvir, porque a janela estava aberta em cima.
        Elsie Holland estava a falar
        ~ Mas eu acho, de facto, Mr Symmington, que os rapazes j esto suficientemente crescidos para 
irem para um colgio interno. No  que no me custe deix-los, porque custa. Gosto tanto dos dois!
        0 Symmington disse: - Acho que  capaz de ter razo em relao ao Brian, Miss Hofiand. J decidi 
que ele comea no prximo perodo em Winhays, o meu velho colgio. Mas o Colin ainda  muito pequeno. 
Preferia que ele esperasse mais um ano.
        - Bem, percebo o que quer dizer E o Colin  capaz de ser um pouco imaturo para a idade...
        Uma tranquda conversa domstica - uma tranquda cena domstica e uma cabea loira curvada 
sobre um trabalho de costura.
        Ento, a porta abriu-se e a Megan entrou.
        Ficou muito direita no vo da porta, e eu notei logo que ela estava um pouco ansiosa e 
concentrada. Tinha a pele do rosto tensa e abatida, e os seus olhos estavam brilhantes e resolutos. Esta 
noite, no havia nela qualquer insegurana ou infantilidade.
        Dirigindo-se ao Symmington, mas sem lhe chamar nada (e de repente reflecti que nunca a ouvi 
chamar-lhe nada. Dirigia-se a ele como pai, ou Dick ou qu?), disse:
        - Gostava de falar consigo, por favor A ss.
        0 Symmington pareceu supreendido e, julguei eu, no muito satisfeito. Franziu o sobrolho, mas a 
Megan levou a sua avante com uma determinao invulgar nela.
        Virou-se para Elsie Hofiand e disse:
        - Importa-se, Elsie?
        - Oh! claro que no - Elsie Hofiand levantou-se de um salto. Parecia surpreendida e um pouco 
atrapalhada.

178

11

Dirigiu-se  porta e a Megan avanou para a Elsie passar
        Por um momento, a Elsie ficou parada no vo da porta a olhar por cima do ombro.
        Com os lbios cerrados, ficou completamente imvel, uma mo estendida, a outra a segurar o 
trabalho de costura contra ela.
        Fiquei sem flego, subjugado pela sua beleza.
        Quando penso nela agora, penso nela assim - em movimento suspenso, com aquela perfeio 
imortal e incomparvel que pertencia  Grcia antiga.
        Depois saiu e fechou a porta.
        0 Symmington disse de mau humor:
        - Ento, Megan, que ? Que queres?
        A Megan tinha avanado at  mesa. Ficou l a olhar para baixo para o Symmington. Fiquei de 
novo impressionado com a determinao resoluta do seu rosto e com mais qualquer coisa - uma firmeza 
nova para mim.
        Ento abriu os lbios e disse uma coisa que me chocou profundamente.
        - Quero algum dinheiro - disse ela.
        0 pedido no melhorou o mau humor do Syrnmington. Disse bruscamente:
        - No podias esperar at amanh de manh? Que se passa? Achas que a tua mesada  
insuficiente?
        Um homem justo, pensei eu mesmo ento, aberto  razo embora no ao apelo emocional.
        A Megan disse: - Quero muito dinheiro.
        0 Symmington endireitou-se na cadeira. Disse friamente:
        - Daqui a uns meses atinges a maioridade. Nessa altura, o dinheiro que a tua av te deixou ser-te- 
entregue pelo curador pblico.
        A Megan disse:
        - No compreende. Quero dinheiro seu. - Prosseguiu, falando mais depressa. - Nunca ningum me 
falou muito do meu pai. No queriam que eu soubesse nada sobre ele. Mas eu sei que ele foi para a priso 
e sei porqu. Foi por chantagem!
        Fez uma pausa.
        - Bem, sou fdha dele. E talvez me parea com ele. Seja como for, estou a pedir-lhe que me d 
dinheiro, porque se no der - ela parou e depois

179
prosseguiu muito lenta e tranquilamente - se no der... vou contar o que o vi fazer  cpsula naquele dia, no 
quarto da minha me.
        Houve uma pausa. Depois o Symmington disse, numa voz completamente impassvel.
        - No sei a que te referes.
        A Megan disse: - Acho que sabe.
        E ele sorriu. No foi um sorriso agradvel.
        0 Symmington levantou-se. Dirigiu-se  escrivaninha. Tirou um livro de cheques do bolso e 
preencheu um cheque. Secou cuidadosamente a tinta com o mata-borro e depois voltou. Entregou-o  
Megan.
        - j s crescida - disse ele. - Compreendo que deves querer comprar qualquer coisa especial, no 
tocante a roupas e tudo isso. No sei do que ests a falar. No prestei ateno. Mas aqui tens um cheque.
        A Megan olhou para ele, depois disse:
        - Obrigada. Serve para comear.
        Virou-se e saiu da sala. 0 Symmington ficou a olhar fixamente para ela e para a porta fechada, 
depois deu uma volta, e quando vi o rosto dele, fiz um movimento rpido e descontrolado para a frente.
        Foi reprimido da forma mais extraordinria. 0 arbusto grande que eu notara junto  parede deixou 
de ser um arbusto. Os braos do superintendente Nash envolveram-me, e a voz do superintendente Nash 
sussurrou-me ao ouvido:
        - Quieto, Burton. Por amor de Deus.
        Depois, com uma cautela infinita, bateu em retirada, o seu brao impelindo-me a acompanh-lo.
        Depois de contornarmos o lado da casa, ele endireitou-se e limpou a testa.
 claro - disse ele - que o senhor tinha de se intrometer.
        A mida no est em segurana - disse eu insistentemente. - Viu a cara dele? Temos de a tirar 
dali.
0 Nash agarrou-me firmemente no brao.
- Oua, Mr. Burton, tem de me escutar.

180

vi

Bem, eu escutei.
No me agradou - mas acedi.
Mas insisti em estar no local e jurei cumprir implicitamente as ordens.
        Foi assim que entrei em casa, com o Nash e o Parkins, pela porta das traseiras que no estava 
fechada  chave.
        E esperei com o Nash no patamar do andar de cima, atrs do cortinado de veludo que disfarava o 
recanto da janela, at que os relgios da casa deram as duas, e a porta do Symmington se abriu, e ele 
atravessou o patamar e entrou no quarto da Megan.
        No me mexi nem fiz nenhum movimento, porque sabia que o sargento Parkins estava l dentro, 
escondido pela porta aberta, e porque sabia que o tal Parkins era um bom homem, e que conhecia o seu 
oficio, e porque sabia que no teria podido confiar em mim para ficar calado e no me manifestar-
        E enquanto esperava ali com o corao a bater, vi o Symmington sair com a Megan nos braos e 
lev-la para baixo, e eu e o Nash seguimos atrs dele a uma distncia discreta.
        Levou-a at  cozinha, e tinha acabado de a arranjar confortavelmente com a cabea no forno de 
gs e de ligar o gs, quando eu e o Nash entrmos pela porta da cozinha e acendemos a luz.
        E foi o fim de Richard Symmington. Foi-se abaixo. Vi-o sucumbir, mesmo enquanto puxava a 
Megan para fora e desligava o gs. Nem sequer tentou lutar. Sabia que jogara e perdera.

        No andar de cima, sentei-me junto  cama da Megan,  espera que ela recuperasse os sentidos e 
a amaldioar ocasionalmente o Nash.
        - Como sabe que ela est bem? Foi um risco demasiado grande.
        0 Nash foi muito confortador.
        - Foi s um soporfero no leite que ela tinha sempre junto  cama. Nada mais.  evidente que ele 
no podia correr o risco de ela ser envenenada. No
que lhe dizia respeito, o caso ficou concludo com a deteno de Miss Griffith. Ele no podia dar-se ao luxo 
de haver uma morte misteriosa. Nada de violncia, nada de venenos. Mas se uma rapariga muito infeliz 
cismasse com o suicdio da me e acabasse por enfiar a cabea no forno a gs... bem, as pessoas s iam 
dizer que ela no era inteiramente normal e que o choque da morte da me acabara com ela.
Eu disse, observando a Megan:
- Est a demorar muito tempo a vir a si.
        - Ouviu o que o Dr Griffith disse? 0 corao e o pulso esto muito bem: s vai dormir e acordar 
naturalmente.  uma droga que ele d a muitos doentes, diz ele.
        A Megan mexeu-se. Murmurou qualquer coisa.
        Discretamente, o superintendente Nash saiu do quarto.
        Passado pouco tempo, a Megan abriu os olhos. - Jerry.
        - Ol, querida.
        - Portei-me bem?
        - Podias ter andado a fazer chantagem desde o bero.
        A Megan voltou a fechar os olhos. Depois, murmurou:
        - A noite passada... estava a escrever-te, para o caso de alguma coisa... correr mal. Mas estava 
sonolenta de mais para acabar. Est alm.
        Dirigi-me  secretria. Numa pasta pequena e muito usada, encontrei a carta inacabada da Megan.
        ~,Meu querido jerry~>, comeava com formalidade:
        ,~(Estava a ler o meu Shakespeare da escola e o soneto que comea:
Tu s para os meus pensamentos como o alimento  para a vida
Ou como os aguaceiros da doce estao so para a terra-
        e percebi que, no fim de contas, estou apaixonada por ti, porque  isso que eu sinto ... >~

182

CAPTULO CATORZE

        - Como vem - disse Mrs. Dane Calthrop - tive razo em chamar um especialist&
        Fitei-a. Estvamos todos no vicariato. L fora chovia a cntaros, e havia uma agradvel lareira, e 
Mrs. Dane Calthrop acabara de vaguear pela sala, de bater numa almofada do sof e de a colocar, por 
qualquer razo s dela conhecida, em cima do piano de cauda.
        - Mas chamou? - disse eu surpreendido. - Quem era? Que  que ele fez?
        Com um gesto largo, indicou Miss Marple. Miss Marple tinha acabado o trabalho de malha felpuda 
e estava agora ocupada com uma agulha de crochet e um novelo de algodo.
        - Eis a minha perita - disse Mrs. Dane Calthrop. - Jane Marple. Olhem bem para ela.  o que lhes 
digo, essa mulher sabe mais sobre os diferentes tipos de maldade humana do que qualquer outra pessoa 
que eu tenha conhecido.
        - No me parece que devas pr isso nesses termos, querida - murmurou Miss Marple.
        - Mas tu sabes.
        - Uma pessoa que viva numa aldeia o ano todo compreende muita coisa da natureza humana - 
disse Miss Marple placidamente.
        Depois, parecendo pressentir o que esperavam dela, pousou o crochet, e fez uma dissertao 
pdica sobre o assassnio.
        - 0 importante nestes casos de crime  conservar um esprito absolutamente aberto. A maioria dos 
crimes, percebem, so to absurdamente simples! Este era. Muito racional e fcil de compreender, e muito 
in teligvel... de uma forma desagradvel, claro.
        - Muito desagradvel!

183
- A verdade era realmente muito bvia. 0 senhor viu-a, sabe, Mr Burton. - Na verdade, no vi.

        - Viu sim. Indicou-me tudo a mim. Percebeu perfeitamente a relao entre uma coisa e as outras, 
mas no teve confiana suficiente em si para compreender o significado das suas impresses. Para 
comear, aquela maadora frase x(No h fumo sem fogo>~. Irritou-o, mas continuou, muito 
correctamente, a rotul-la como aquilo que era: uma cortina de fumo. Iluso, percebe, toda a gente a olhar 
para a coisa errada, as cartas annimas, mas a questo essencial  que no houve nenhumas cartas 
annimas!
        - Mas minha querida Miss Maiple, asseguro-lhe que houve. Eu recebi uma.
        - Oh! sim, mas no eram de maneira nenhuma autnticas. Aqui a querida Maud apercebeu-se 
disso. At na pacfica Lymstock h muitos escndalos, e garanto-lhes que qualquer mulher que viva na 
povoao os conhece e os usaria. Mas um homem, percebem, no se interessa da mesma maneira por 
mexericos, principalmente um homem distante e lgico como Mr. Syinmington. Uma autora genuna das 
cartas tom-las-ia muito mais pertinentes.
        ~(Por isso, percebem, se ignorarmos o fumo e chegarmos ao fogo, sabemos onde estamos. 
Chegamos justamente aos verdadeiros factos daquilo que aconteceu. E se pusermos de lado as cartas, s 
aconteceu uma coisa: Mrs. Symmington morreu.
        ,~(De modo que, naturalmente, pensamos em quem podia querer que Mrs. Symmington morresse, 
e receio que, num caso assim, a primeira pessoa em quem pensamos  no marido, claro. E perguntamo-
nos se h alguma razo, algum motivo... por exemplo, outra mulher.
        ~<E a primeira coisa que ouo  que h l em casa uma preceptora jovem e muito atraente. To 
bvio, no ? Mr. Symmington, um homem muito frio, reprimido e fleumtico, preso a uma mulher 
lamurienta e neurtica e, ento, subitamente, surge esta criatura jovem e radiosa.
        (~Sabem, receio que os cavalheiros, quando se apaixonam com uma certa idade, sejam 
gravemente atacados pela doena.  verdadeiramente uma loucura. E, tanto quanto percebo, Mr 
Symmington nunca foi realmente um homem bom: no era muito amvel, nem muito afectuoso, nem muito 
compreensivo, as suas caractersticas eram todas negativas, e por isso no teve foras para lutar contra a 
loucura. E num lugar como este, s a morte da

184

mulher resolveria o seu problema. Queria casar com a rapariga, percebem? Ela  muito respeitvel, e ele 
tambm. E alm disso, ele  dedicado aos filhos e no queria desistir deles. Queria tudo, o lar, os filhos, 
respeitabilidade e Elsie. E o preo que teria de pagar por isso era o assassnio.

        4(Escolheu, acho eu, um meio muito inteligente. Sabia muito bem, devido  sua experincia de 
casos criminais, que quando uma mulher morre inesperadamente, a suspeita recai rapidamente sobre o 
marido, e que existe a possibilidade da exumao em caso de envenenamento. Por isso criou uma morte 
que parecia apenas inerente a outra coisa. Criou uma autora de cartas annimas inexistente. E f-lo com 
tanta esperteza, que a Polcia estava determinada em suspeitar de uma mulher.. e de certo modo tinha 
razo. Todas as cartas eram cartas de mulher; ele plagiou-as com muita inteligncia das cartas do caso do 
ano passado e de um caso de que o Dr Griffith lhe falou. No quero dizer que ele tenha sido to grosseiro a 
ponto de reproduzir qualquer carta textualmente, mas retirou delas frases e expresses e misturou-as, e o 
resultado final foi que as cartas representavam nitidamente uma mente de mulher, uma personalidade 
reprimida meia-demente.
        ~xele conhecia todos os truques que a Polcia utiliza, testes de caligrafia e dactilografia, etc.. 
Andava a preparar o crime j h algum tempo. Dactilografou todos os envelopes antes de dar a mquina de 
escrever ao Instituto das Mulheres, e  provvel que tenha cortado as pginas do livro h bastante tempo 
em Little Furze, num dia em que esteve  espera na sala de visitas. As pessoas no abrem livros de 
sermes com frequncia!
        ~(E finalmente, depois de ter a sua falsa autora de cartas annimas bem estabelecida, ele encenou 
a situao genuna. Numa bela tarde, quando a preceptora e os rapazes e a enteada tinham sado, e as 
criadas estavam de folga. No podia prever que a criadinha Agnes ia discutir com o namorado e voltar para 
casa.
        A joanna perguntou:
        - Mas que  que ela viu? Sabe?
        - No sei. S posso imaginar. Palpita-me que no viu nada.
        - Que foi tudo um logro?
        - No, no, minha querida, quero dizer que ela ficou  janela da copa a tarde toda,  espera que o 
rapaz fosse fazer as pazes, e que, muito literalmente,

185
no viu nada. Isto , no foi absolutamente n~m l a casa, nem o carteiro, nem qualquer outra pessoa.
        ~xcomo era de compreenso lenta, levou algum tempo a aperceber-se de como isso era estranho, 
porque, aparentemente, Mrs. Symmington tinha recebido uma carta annima naquela tarde.
        - No recebeu? - perguntei eu, perplexo.
        - Mas  claro que no! Como disse, este crime  muito simples. 0 marido limitou-se a pr o cianeto 
na cpsula do medicamento que ela tomava  tarde, quando a citica atacava depois do almoo. 0 
Symmington s tinha de chegar a casa antes de Elsie Hofiand, ou ao mesmo tempo que ela, chamar a 
mulher, no obter resposta, subir ao quarto dela, deitar um pouco de cianeto no copo de gua natural que 
ela usara para engolir a cpsula, deitar a carta annima amarrotada para a grelha e pr-lhe na mo o 
pedao de papel com ~xno posso continuar~> escrito nele.
        Miss Maiple virou-se para mim.
        - Tambm tinha toda a razo em relao a isso, Mr Burton. Um Rpedao de papel~> soava mal. As 
pessoas no deixam bilhetes de suicdio em pedacinhos de papel rasgados. Usam umafolha de papel, e 
muito frequentemente tambm um envelope. Sim, um pedao de papel estava errado, e o senhor sabia.

        - Est a dar-me demasiada importncia - disse eu. - Eu no sabia

nada.

        - Sabia sim, sem dvida que sabia, Mr Burton. Seno, por que se impressionaria logo com a 
mensagem que a sua irm deixou rabiscada no bloco do telefone?
        Repeti lentamente: - ~(Digam que noposso continuar na sexta-feira~>... estou a perceber! 
Noposso continuar?
        Miss Marple dirigiu-me um sorriso.
        - Exactamente. Mr. Symmington encontrou uma mensagem semelhante e apercebeu-se das suas 
possibilidades. Rasgou as palavras que queria para quando chegasse a altura: uma mensagem genuna 
com a letra da mulher.
        - Houve mais rasgos de inteligncia da minha parte? - perguntei.
        Miss Marple piscou-me o olho.
        - Ps-me na pista, sabe? Reuniu-me os factos, em sequncia, e ainda

186

por cima disse-me a coisa mais importante de todas: que Elsie Hofiand nunca recebera quaisquer cartas 
annimas.
        - Sabe - disse eu - que,~ noite passada pensei que era ela a autora das cartas, e que era por isso 
que no recebera cartas?
        - Valha-me Deus, no! A pessoa que escreve cartas annimas tambm as envia quase sempre a 
ela mesma. Faz parte da... bem, da excitao, suponho. No, no, o facto interessou-me por outra razo 
muito diferente. Foi, de facto, a nica fraqueza de Mr Symmington, compreendem? No conseguiu escrever 
uma carta obscena  rapariga que amava.  uma informao fortuita muito interessante sobre a natureza 
humana e, de certo modo, uma coisa a seu favor... mas foi a que ele se denunciou.
        A joanna disse:
        - E matou a Agnes? Mas isso era, sem dvida, completamente desnecessrio.
        - Talvez fosse, mas o que no percebe, minha querida (como nunca matou ningum),  que depois 
o raciocnio fica distorcido e tudo d uma impresso exagerada. Ele escutou, certamente, a rapariga a 
telefonar  Partridge e a dizer que estava preocupada desde a morte de Mrs. Symmington, e que havia uma 
coisa que ela no compreendia. Ele no podia correr riscos: a rapariga estpida e tonta vira alguma coisa, 
sabia alguma coisa.
        <xcontudo, ao que parece, ele esteve no escritrio essa tarde toda.

        ,(lmagino que a matou antes de sair. Miss Holland estava na sala de jantar e na cozinha. Ele 
limitou-se a ir ao haH, abriu e fechou a porta da frente como se tivesse sado, depois esgueirou-se para 
dentro do pequeno vestirio, sau por trs dela e bateu-lhe na cabea quando ela estava a abrir a porta da 
frente, e depois de enfiar o corpo no armrio precipitou-se para o escritrio, chegando apenas ligeiramente 
atrasado, se por acaso algum reparasse nisso, mas provavelmente no repararam. Percebem, ningum 
suspeitava de um homem.
        - Bruto abominvel - disse Mrs. Dane Calthrop.

        - No est com pena dele, Mrs. Dane Calthrop? - perguntei.
        - De maneira nenhuma. Porqu?
        - Fico contente em saber,  tudo.

        - M as porqu Aime Griffith? - disse a joanna. - Sei que a Polcia encontrou a mo de almofariz 
tirada do dispensrio do Owen, e o espeto

187
tambm. Suponho que repor coisas nas gavetas da cozinha no seja to fcil para um homem. E adivinhem 
onde estavam. 0 superintendente Nash disse-me agora, quando o encontrei ao vir para c. Numa das velhas 
e bafientas caixas de documentos do escritrio dele. Bens de Sirjasper Harrington-West, falecido.
        - Pobre Jasper - disse Mrs. Dane Calthrop. - Era meu primo. Um rapaz to correcto! Teria ficado 
horrorizado.
        - No foi uma loucura guardar as coisas? - perguntei.
        - Provavelmente, deit-las fora era uma loucura maior - disse Mrs. Dane Calthrop. - Ningum tinha 
quaisquer suspeitas sobre o Symmington.
        - Ele no a atacou com a mo de almofariz - disse a joanna. - Tambm l havia um peso de relgio, 
com cabelos e sangue. Eles acham que ele roubou a mo de almofariz no dia em que Aime foi detida, e 
que escondeu as pginas do livro em casa dela. E isso leva-me de novo  minha pergunta inicial. E Aime 
Griffith? A Polcia viu-a realmente escrever aquela carta.
        -  claro que sim - disse Miss Marple. - Ela escreveu essa carta.
        - Mas porqu?
        - Oh! minha querida, certamente que se apercebeu de que Miss Griffith esteve a vida toda 
apaixonada pelo Symmington.
        - Coitadinha! - disse Mrs. Dane Caithrop mecanicamente.
        - Foram sempre bons amigos, e atrevo-me a dizer que, depois da morte de Mrs. Symmington, ela 
pensou que um dia, talvez... bem... - Miss Marple tossiu delicadamente. - E depois os mexericos sobre 
Elsie Holiand comearam a espalhar-se, e imagino que isso a tenha perturbado muito. Ela consi~ derava a 
rapariga uma serigaita astuta, a insinuar-se nos afectos do Symmington, e indigna dele. Por que no 
acrescentar mais uma carta annirffa, para afugentar a rapariga da terra? Deve ter-lhe parecido bastante 
seguro, e tomou, achava ela, todas as precaues.
        - Ento? - disse a joanna. - Acabe a histria.
        - Palpita-me que - disse Miss Marple lentamente -, quando Miss Holland mostrou a carta ao 
Symmington, ele percebeu imediatamente quem a escrevera, e viu uma oportunidade de acabar com o caso 
de uma vez por todas, e de ficar em segurana. Desagradvel, sim, desagradvel, mas ele estava 
assustado, percebem? A Polcia no ficaria satisfeita at apanhar a autora das cartas annimas. Quando 
levou a carta  Polcia, e descobriu que,

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de facto, tinham visto Aime a escrev-la, achou que tinha uma hiptese em mil de acabar com tudo aquilo.
        ~~(Levou a famlia a tomar ch l naquela tarde e, como veio do escritrio com a pasta, pde levar 
facilmente as pginas rasgadas do livro para esconder debaixo das escadas e encerrar o caso. Escond-
las sob as escadas foi um retoque engenhoso. Fazia lembrar a disposio do corpo da Agnes e, do ponto 
de vista prtico, foi muito fcil para ele. Bastaram-lhe um ou dois minutos ao passar no hall quando seguiu 
atrs de Aime e da Polcia.
        - Mesmo assim - disse eu -, h uma coisa que no posso perdoar-lhe, Miss Marple: ter aliciado a 
Megan.
        Miss Marple pousou o crochet que tinha retomado. Olhou para mim por cima dos culos, e os seus 
olhos estavam implacveis.
        - Meu querido jovem, alguma coisa tinha de ser feita. No havia provas contra este homem muito 
esperto e sem escrpulos. Eu precisava de algum que me ajudasse, algum com muita coragem e bons 
miolos. Encontrei a pessoa de que precisava.
        - Foi muito perigoso para ela.
        - Sim, foi perigoso, mas no fomos postos neste mundo, Mr. Burton, para evitar o perigo quando 
est em jogo a vida de um nosso semelhante. Compreende?
        Eu compreendi.

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CAPTULO QUINZE

Manh na High Street.
        Miss Emily Barton saiu da mercearia com o saco das compras. Tinha as faces coradas e os olhos 
excitados.
        - Valha-me Deus, Mr. Burton, estou to agitada! Pensar que vou finalmente fazer um cruzeiro!
        - Espero que se divirta.
        - Oh! tenho a certeza que sim. Nunca me atreveria a ir sozinha. Parece to providencial a forma 
como tudo se resolveu. H muito tempo que sentia que devia desfazer-me de Little Furze, porque tinha 
demasiadas dificuldades financeiras, mas no suportava a ideia de estranhos l dentro. Mas agora, que o 
senhor a comprou e vai viver l com a Megan,  muito diferente. E depois, a querida Aime, que no sabia o 
que fazer da vida aps a sua terrvel provao e com o irmo a casar-se (que bom pensar que ambos se 
estabeleceram aqui connosco!), concordou em ir comigo. Tencionamos estar fora durante bastante tempo. 
Talvez at possamos - Miss Emfly baixou a voz - dar a volta ao mundo! E a Aime  to magnfica e to 
prtica. Acho de facto, o senhor no acha, que tudo acabou por correr pelo melhor.
        Por um breve instante apenas, pensei em Mrs. Symmington e em Agnes Woddell nas suas 
sepulturas no adro da igreja, e perguntei a mim mesmo se elas concordariam, e depois lembrei-me de que 
o namorado da Agnes no lhe tivera muita afeio, e que Mrs. Symmington no fora muito boa para a 
Megan e, que diabo!, todos temos de morrer um dia! E concordei com a feliz Miss Emily que tudo se 
resolvera pelo melhor, no melhor dos mundos po~sveis.
        Segui pela High Street at ao porto dos Symmingtons e a Megan saiu ao meu encontro.
        No foi um encontro romntico, porque um enorme co de cauda curta

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saiu de casa com a Megan e quase me derrubou com a sua exuberncia intempestiva.
- No  adorvel? - disse a Megan.
-  um bocadinho avassalador  teu?
        - Sim,  um presente de casamento dajoanna. Temos tido presentes de casamento bonitos, no 
temos? Aquela coisa de l felpuda que no sabemos o que , de Miss Marple, e o lindo servio de ch 
Crown Derby de Mr Pye, e a Elsie mandou-me um porta-torradas...
        - Que tpico! - disse eu num aparte.

        - E ela arranjou emprego num dentista e est muito feliz. E ... onde  que

eu ia?

        - A enumerar os presentes de casamento. No te esqueas de que, se mudares de ideias, vais ter 
de os devolver.
        - No vou mudar de ideias. Que mais recebemos? Oh! sim, Mrs. Dane Calthrop mandou um 
escaravelho egpcio.
        - Uma mulher original - disse eu.
        - Oh! Oh! mas no sabes o melhor A Partridge mandou-me realmente um presente.  a toalha de 
ch mais medonha que j vi na vida. Mas acho que ela j deve gostar de mim, porque diz que a bordou toda 
com as prprias mos.
        - Com um desenho de uvas verdes e cardos, suponho?
        - No, com smbolos de amor fiel.
        - Valha-me Deus! - disse eu. - A Partridge est a progredir
        A Megan tinha-me arrastado para dentro de casa.
        Disse:
        - S h uma coisa que no consigo perceber. Alm da coleira e da trela do co, a Joanna mandou 
uma coleira e uma trela a mais. Para que achas que so?

        - Isso - disse eu -  uma brincadeirinha da joanna.
OBRAS DE

~ -**~        1^         o

85 volumes (romances e contos policiais) em trs sries:

Poirot
Os livros protagonizados por Poirot foram considerados a Melhor Srie Policial do Sculo XX.

Miss Mmyle

Outros

Uma coleco indispensvel daquela que foi considerada pela "Bouchercon World Mistery Conventiod como 
a maior escritora policial do SCUlo XX.

e[

Miss Marple  uma solteirona de 65/70 anos
que vive em St. Mary Mead, uma pequena aldeia
inglesa. Embora no parea,  partida, ser uma
detective das mais convincentes, acaba por
convencer de todas as vezes (e so muitas) que
defronta um mistrio, obtendo vitrias onde a
policia apenas obtivera fracassos. 0 segredo do
seu sucesso reside, no na utdizao de mtodos
de investigao convencionais, mas sim no seu
prprio instinto, experincia e conhecimento
- profundssimo - da natureza humana.
Ainda que se revele uma pessoa simptica
e bem-disposta, no seu intimo espera sempre
o pior de tudo e todos, o que, com uma preciso
assustadora, se revela acertado na maioria das
vezes. Tal como a prpria Agatha Christie
escreveria na sua autobiografia "a Miss Marple
nasceu j idosa, o que - tal como aconteceu
com Poirot - viria a revelar-se uma escolha
pouco acertada, pois ela acompanhar-me-ia
durante muitos mais anos do que os inicialmente
planeados. Se eu tivesse um sexto sentido, teria
escolhido um adolescente para meu primeiro
detective, dessa forma ele teria a oportunidade
de crescer e envelhecer comigo".
